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Meus cachorros

– Pode encher, por favor… Do que estávamos falando mesmo?

Eu não queria falar ou ouvir mais nada. A bebida era a desculpa. Não queria ficar bêbado. Queria parecer bêbado. Era uma conversa para ser esquecida de tantas vezes que já havia se repetido.

Nada daquilo fazia sentido. A fumaça do cigarro da mesa ao lado me sufocava. O barulho dos carros ao longe. A cerveja nacional cheia de milho. Eu precisava de algum tipo de teletransporte. Precisava sumir.

– Você sempre sai pela tangente quando o assunto não agrada…

– Não é verdade e você sabe disso. Eu só estou de saco cheio de conversar sobre o mesmo assunto todas as vezes. Não dá, entende? Não dá! EU ESTOU DE SACO CHEIO!

O pessoal da mesa ao lado olhou em minha direção. Eles fumando e eu falando alto. Estávamos empatados.

– Quer saber? Vou embora. Lá em casa não tem fumaça, não tem barulho, e a cerveja é de melhor qualidade. Vai ficar?

Levantei-me e fui embora. Poucos metros adiante, pisei em um cocô de cachorro. Merda… Eu não aguento mais essa conversa sobre ter que comprar um cachorro. Cachorro é para quem tem casa! Não consigo imaginar um cachorro em um apartamento.

Na frente do meu prédio, três vira-latas dormindo. Qual a história desses carinhas, hein? Vivem como? Nasceram onde? Já tiveram casa? Estariam com fome ou com sede? Frio?

Puta que pariu… Peguei uma vasilha daquelas de sorvete com água e outra com ração. Por que eu tenho ração em casa? Minha filha me ensinou que já temos vários cachorros. Eles moram nas ruas. Para que eu preciso comprar um?

cachorro vira lata 1

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E eu achando que estava ajudando…

Voltando da academia, me deparei com uma senhora com óculos escuros, cabelos muito brancos, e muito esguia. Como estava com uma muleta em um dos braços, um carrinho de compras no outro (daqueles de rodinhas que se leva para o supermercado) e de óculos escuros, foi instintivo perguntar se ela precisa de ajuda atravessar a rua já segurando em um de seus braços. E ela me respondeu:

– Precisar de ajuda eu não preciso. Estou só esperando o sinal fechar. Mas diante de tanta gentileza, agora eu faço questão.

Havia algo na voz dela. Um carinho diferente, angelical. Não me contive. Fui às lágrimas. E enquanto esperávamos o sinal fechar, sem olhar para mim, ela me perguntou:

– Por que você está chorando?

E eu respondi:

– Não sei explicar… Eu simplesmente fiquei emocionado com a maneira que a senhora falou comigo…

Eu não sabia mais o que dizer. O sinal abriu, e enquanto caminhávamos, ela me disse o seguinte:

– Não importa se vêem ou aceitam as suas gentilezas. Deus sempre vê tudo.

E aquela voz doce e serena, se transformou em alento. Minhas lágrimas secaram. Quando eu a deixei do outro lado da rua, agradeci de maneira humilde. E ela mais uma vez me surpreendeu:

– Eu que ganhei o meu dia.

Acho que nunca ganhei tanto fazendo tão pouco. E eu achando que estava ajudando…

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