Digo meu nome
para atender o telefone.
Estranho pensar
que a palavra mais antiga
é também empréstimo.
Sem destino
Folha no asfalto.
O vento escolhe por ela
a próxima esquina.
Nem toda viagem precisa
saber para onde vai.
Sem plateia
Ônibus vazio.
A manhã atravessa a rua
sem anunciar-se.
Nenhum olhar acompanha
a chegada silenciosa.
Sem testemunhas
Lua no telhado.
Um morcego cruza a noite
sem fazer som.
A cidade nem percebe
que alguém esteve aqui.
Cartografia
Amo como os faróis:
não prendem navios,
não seguram o mar,
apenas permanecem acesos.
Alguns barcos passam.
Outros ficam.
Mas a luz
não aprende a ser menos luz
por causa disso.
Céu
Poça de chuva:
um pardal bebe o céu
que nela caiu.
Passa a bicicleta e
o céu se desfaz em ondas.
O resgate
Há um homem afogado
que aprendeu, por fim,
a nadar sozinho —
não pelas ondas que o empurram,
mas pela lembrança antiga
de que os braços que o seguram
sempre foram os seus.
Toda fortaleza tem um portão
que só abre por dentro,
uma fechadura sem chave alheia,
um muro que ergueu-se justamente
para que ninguém de fora
decidisse quando ele cai.
Todo náufrago carrega,
sem saber, o mapa
de uma ilha que é ele mesmo —
terra firme escondida
sob a própria pele encharcada,
esperando apenas
que ele pare de nadar em direção ao horizonte
e comece a nadar para dentro.
Nenhuma chama se atravessa
pelas mãos de outro —
o fogo se atravessa a sós,
e do outro lado
descobre-se que a proteção
era feita da própria pele,
mais forte do que se imaginava.
Reencontro
Há um prazer de viver que eu não sentia há um bom tempo, e que voltou — devagar, sem aviso, como essas coisas costumam voltar. Não é euforia. É mais parecido com reconhecer o próprio rosto depois de um tempo evitando o espelho.
Volto ao corpo. O exercício físico deixou de ser obrigação e virou o prazer simples de sentir o esforço, o suor como prova de que ainda estou inteiro, capaz de algo que não serve a mais ninguém além de mim.
Volto à música: violão e guitarra, os dois, dedos reaprendendo o que um dia sabiam de cor. Volto à fotografia, não pela câmera, mas pelo olhar: pessoas, paisagens, a tentativa de ver mais fundo no que os olhos já veem todo dia. Volto à palavra: aos versos sobre os temas mais variados, ao prazer gratuito de escrever porque escrever é necessário, é terapêutico.
Volto também aos livros da faculdade, mas com outros olhos. Releio Marx, releio Adam Smith, atravesso o espectro inteiro sem escolher lado. Porque conhecimento, para mim, sempre foi isso: não a parte que confirma o que já penso, mas o todo, de onde se extrai o melhor de cada visão. Leio filosofia, psicologia, macroeconomia, geopolítica, pelo puro prazer de entender.
E há uma surpresa boa no trabalho: atuar em áreas que nunca tinha explorado antes está me ensinando mais sobre mim do que sobre a profissão em si. Há um ganho que não é só técnico. É o valor simples de produzir, executar, ver uma coisa pronta que antes só existia como ideia.
Mas talvez o mais importante não seja nenhuma dessas coisas isoladamente. É tentar estar mais presente no que já está acontecendo — no lugar onde estou, na conversa que tenho, na tarefa que faço, nas pessoas que cruzam meu caminho. Aprender mais com o cotidiano em vez de atravessá-lo distraído. Melhorar a maneira como me relaciono com o mundo, não por técnica, mas por atenção.
Nenhuma dessas coisas, sozinha, seria reencontro. Juntas, feitas com presença, começam a parecer com isso: eu, de volta a mim mesmo, depois de um tempo ausente.
Sinto falta destas partes de mim há tempos. E, aos poucos, estou voltando.
Vinte e um anos sem meu pai
Hoje encontrei as abotoaduras do meu pai.
Procurei por elas — não sei bem por quê, ou talvez saiba — e lá estavam, guardadas, esperando. Segurei-as na mão e, por um instante, ele estava ali comigo: o terno bem cortado, a gravata no lugar certo, o perfume Van Cleef que anunciava sua chegada antes mesmo de ele entrar na sala. Meu pai saía assim, todas as manhãs, arrumado como quem respeita o próprio trabalho e quem vai encontrar.
Essa é a cena que mais me volta quando penso nele: um homem que se vestia bem porque se importava — com o trabalho, com a família, com a própria palavra. Um homem honesto, trabalhador, de uma retidão que não se media em grandes gestos, mas na constância de todos os dias.
Faz vinte e um anos que ele se foi. E ainda assim, hoje, segurando essas abotoaduras, foi como se fosse ontem. O tempo passa e muda tudo à sua volta — menos isso. Menos a lembrança de um pai que, sem precisar dizer muito, ensinou o que significa ser um homem íntegro.
Onde quer que você esteja, pai: ainda uso o que você me deixou. Não as abotoaduras — o exemplo.

Não vai
Vou embora.
Não porque o amor morreu, mas porque ficou sozinho. Porque uma casa não se sustenta quando só um dos lados faz o caminho.
Vou embora com as mãos ainda cheias de vontade. Ainda sabendo de cor tua voz, teus silêncios, e as pequenas coisas que ninguém mais sabe.
Há uma crueldade discreta em partir querendo ficar. Em fechar a porta olhando para trás.
Fui embora devagar, quase como quem se perde de propósito.
A cada passo, deixava uma última chance sobre o caminho.
Porque partir, às vezes, é também uma pergunta.
E eu queria que você respondesse.
Queria ouvir teu coração atravessar a distância e dizer:
não vai.
Mas vieram apenas os ruídos da noite,
e então compreendi:
existem despedidas que acontecem muito antes de alguém partir.
E o que mais dói não é a falta que você vai me fazer.
É a falta que você já fazia enquanto eu ainda estava aqui.
A verdade é que eu não fui embora hoje.
Hoje apenas dei nome a uma distância que já existia havia muito tempo.
E então eu fui.
Não para te esquecer, nem para provar alguma coisa.
Fui porque me perdi de mim tentando encontrar espaço em tua vida.
E talvez essa seja a despedida mais triste:
não a de quem deixa de amar,
mas a de quem continua amando e, mesmo assim, precisa partir.
Porque às vezes a relação acaba primeiro.
E o amor, teimoso como sempre, fica um pouco mais.
Sentado na varanda da memória,
vendo o trem partir,
sem coragem de embarcar.
