Avatar de Desconhecido

Kintsukuroi

Não é o mesmo,

mas nas linhas de ouro

permanece.

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Kintsugi

Houve um tempo
em que o coração cedeu
sem barulho.

Não foi um rompimento abrupto:
foi desgaste,
pressão contínua,
até que algo se partiu por dentro.

E ali ficaram as marcas:
fibras abertas,
fendas expostas,
memórias que não se escondem.

Eu poderia ter coberto com silêncio,
negar a queda,
seguir como se nada tivesse sido.

Mas escolhi outro caminho.

Recolhi os fragmentos –
um a um –
com as mãos que ainda tremiam,
sem negar o que quebrou.

E então compreendi:
não era para esconder as fissuras.

Era para preenchê-las.

Com ouro.

Não para disfarçar a queda,
mas para torná-la parte do que sustenta.

Cada rachadura
recebeu aquilo que ainda havia de melhor em mim:

Presença.

Verdade.

Consciência.

O que antes era ruptura
se tornou desenho,
obra de arte.

Não sou mais o que fui –
ainda bem –
porque o que hoje existe
não é remendo.

É construção.

Há valor onde houve queda.
Há brilho onde houve dor.

E o que um dia foi frágil,
agora se sustenta
com algo que não existia antes de se partir.

Hoje, quando olho,
não vejo o que quebrou.

Vejo ouro.

Vejo permanência.

Vejo um coração
que não voltou ao que era,
e que, ainda assim,
se sustenta.

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De pé

Há quem passe pela estrada
como vento que não aprende o caminho.

Eu não.

Sou quem finca os pés no chão,
quem conhece o peso das próprias escolhas,
quem abre portas sabendo
que terá de habitá-las.

Não ofereço presença leve:
ofereço permanência.

Carrego na palavra
o mesmo gesto com que construo.

Se prometo abrigo,
levanto paredes.
Se digo “fica”,
preparo espaço.

Nem tudo que toquei ficou,
mas nada do que toquei
foi sem verdade.

E o que em mim permanece
não é o que passou:

É o homem que ficou de pé
quando era mais fácil
ir embora.

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Sem memória do escuro

O sol não pergunta:
apenas retorna.

Mesmo depois
de noites mais densas,
ele atravessa o horizonte
sem memória do escuro.

Há algo nisso.

Não promessa,
não certeza:
apenas o fim
daquilo que se repetia
e ainda se encerra.

A luz toca
onde ainda não havia forma
e, sem aviso,
desenha caminhos improváveis.

Não é milagre.

É possibilidade.

E basta.

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O ar frio da espera

A distância não é feita de quilômetros. Ela é feita de silêncios que pesam, de chamadas que não acontecem, de mãos que se estendem no escuro, encontrando apenas o ar frio da espera.

Dizem que o tempo cura, mas o tempo longe de quem ama é um auditor impiedoso: mostra que a cada instante distante, uma fibra da alma se rompe.

A distância machuca – não por afastar o corpo, mas por obrigar a conviver com o fantasma de quem escolheu ficar onde não se alcança.

Quando o caminho se torna longo demais, o coração aprende, por sobrevivência, a parar de bater na porta de quem fez da distância o seu lugar.

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Aquilo que permanece – Parte 3/3

O que fica não pede lugar.

I. Rastro

Não procuro mais.

Mas algo em mim
ainda sabe
o caminho.


II. Aprendizado

Meu corpo revela
o gesto
antes de pensar.

Desejo
que não aprendeu
a calar.


III. Ajuste

O tempo deixou de esperar.

Mas deixo espaço
quando atravesso
lugares.


IV. Intervalo

Há silêncios
que são seus
sem você.

E eu não os interrompo.


V. Deslocamento

O tempo passou:
pouco levou.

Algumas coisas
perseguem.

Aconteceram
e me atravessam.


VI. Reconhecimento

Eu sei
o que é verdadeiro.

Até mesmo
no que não foi vivido.


VII. Integração

Você não voltou:
poderia.

Tentei.

Esperei.

O que era seu
você perdeu
nos seus caminhos.

Mas
nunca saiu de mim.


Aquilo que permanece – Parte 1/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 2/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 3/3 | Agora Babou

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Aquilo que permanece – Parte 2/3

Às vezes, quase.

I. Sinal

Algo em mim disse
que você voltaria.

Sem motivo.

Como um ruído
antes de existir som.


II. Aproximação

Por um instante,
o quarto mudou de lugar.

Como se abrisse espaço
para alguém entrar
sem tocar na porta.


III. Quase Corpo

Senti
como se fosse possível
te alcançar de novo.

Meu gesto
se adiantou ao mundo.


IV. Contato

Dessa vez,
quase houve calor.

A memória ajusta detalhes
até parecer verdade.


V. Deslocamento

Mas havia algo errado.

Meus braços
não encontraram
onde ficar.


VI. Falha

Chamei de volta
o que era inteiro.

Mas no seu caber
Faltava estar.


VII. Dissolução

E então você some –
não como quem parte.

Mas como algo
que falha na audácia
de permanecer.


Aquilo que permanece – Parte 1/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 2/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 3/3 | Agora Babou

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Aquilo que permanece – Parte 1/3

O que falta também ocupa lugar.

I. Lado Ausente

Olhei para o seu lado da cama.

Você estava —
como sempre fica
tudo o que em mim
ainda insiste.

Estendi a mão.
Nada toquei.

O vazio
não recua.


II. Vestígio

A posição do travesseiro
ainda guarda
um gesto antigo.

Nada ali se move.

E, ainda assim,
algo se repete.


III. Medida

O colchão sabe
onde você esteve.

Eu
já não alcanço.


IV. Forma

Não havia você,
mas o espaço
seguia com a sua forma.

Respirei fundo.

O ar não traz de volta
o que insiste em faltar.


V. Interrupção

Fechei os olhos.

Ali,
você sem falha
estava.

Abri.

E tudo desaba
sem ruído.


VI. Limite

A noite deita ao meu lado
sem tentar substituir.

Ela sabe
o que não é.


VII. Verdade

A cama fria
não mente.

Ela não lembra,
não tenta,
não inventa.

É mais honesta
que a memória.


Aquilo que permanece – Parte 1/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 2/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 3/3 | Agora Babou

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Sakura

Sob a flor de cerejeira,
o tempo não pesa: flutua.

As pétalas caem sem drama,
como quem aceita partir
antes mesmo de ficar.

E ali, entre um sopro e outro,
você existia:
leve,
inteira,
quase impossível de nomear.

Havia algo no seu olhar
que não pedia futuro: apenas presença.

Como as sakuras:
breves,
delicadas,
inesquecíveis não por durarem,
mas por acontecerem.

E eu,
entre a queda de uma pétala
e o silêncio seguinte,
entendi:

Alguns encontros
não são feitos para permanecer,
mas para florescer dentro.

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Rábico

Raiva acesa:

perco o fio do sentido,

falo e me desfaço.