Me desculpa por aquilo que eu não disse, Quando te amei, virei para o lado, e adormeci. Eu diria no dia seguinte, Da mesma forma de sempre, Com a mesma vontade de sempre, Em um dialeto que só tu serias capaz de entender.
Me desculpa se, no meu cansaço, Relaxei nos teus braços, triunfante, Radiante, eufórico, vitorioso, Sentindo ainda o torpor do nosso gozo, Teu cheiro em meu corpo, Meu coração em tuas mãos.
Me desculpa pela minha verdade, Pela minha ingênua sinceridade, Por nunca ter te ocultado nada, Por ser simples, previsível, correto, Do meu amor estar sempre certo, Sempre homem, todo teu.
Me desculpa por não ter te traído, Por em nenhum momento ter te esquecido, Por te achar a mais linda de todas, De todas as que eu nunca quis, E que diziam, me fariam – quem sabe – feliz! Mas não eram como eras, como sou.
Agora que fostes embora, Abraço-me á solidão de minhas horas, Revelando-me aos poucos, sem pressa, Para o mundo, que com todas as portas abertas, Me acolheu, me convidou, me escolheu, Para ser do amor um eterno aprendiz.
Pip: Agora Babou chegou com a semana toda em verso — amor que queima, saudade que não envia carta, e uma reflexão sobre o que a gente faz com o tempo que sobra.
Mara: Fabio Ottolini assina tudo isso. Passamos por chamas e companhia, por ausência e escuta, e chegamos numa pergunta sobre autonomia e tempo que é bem mais urgente do que parece.
Pip: Vamos começar pelo fogo.
Amor em brasa: chama, luz e companhia
Mara: Este segmento reúne poemas que exploram o amor como intensidade — não um sentimento passivo, mas algo que arde por conta própria, que ilumina e que, com o tempo, vira presença constante.
Pip: E o poema “Eu ardo” deixa isso explícito logo de cara. O verso é direto: “Não acendo por pedido, não apago por ausência. Sou carne em brasa, sou pulso que ruge, sou presença que rasga o escuro mesmo quando não sou visto.”
Mara: O que isso diz, na prática, é que o amor aqui não depende de reciprocidade para existir. Ele não é negociado — ele simplesmente é.
Pip: Amor como estado, não como contrato. Bem menos reconfortante para quem gosta de cláusulas.
Mara: “Incêndio” segue essa linha — o peito desperta nos braços do outro, e o amor se revela “vasto como um céu em brasa”. É a mesma chama, mas agora ela tem endereço.
Pip: E “Luz” chega depois, como consequência natural: depois da chama, permanece a claridade. Nada se perde.
Mara: “Lado a lado” é onde o arco chega. Já não é chama, nem claridade apenas — é companhia. “Teu passo ao lado do meu, e o mundo encontra abrigo.” A intensidade amadurece em algo mais quieto.
Pip: Do incêndio ao abrigo. Faz sentido como sequência de vida.
Mara: A saudade que fica quando esse abrigo some é exatamente o que vem a seguir.
Carta não enviada: ausência que não parte da alma
Mara: “Carta não enviada” parte de uma música triste — e entrega à altura. O poema descreve o amor que não coube nos planos de ninguém, e uma imagem resume tudo: “Meu coração é um hotel abandonado: corredores longos, quartos sem hóspedes, um piano coberto de poeira esperando mãos que não voltam.”
Pip: Essa metáfora do hotel não deixa escapatória. É abandono com arquitetura.
Mara: E a conclusão do poema é o que sustenta o segmento inteiro: há pessoas que partem da nossa vida, mas demoram muito mais para partir da nossa alma.
Pip: “O canto silencioso” traz outra forma de ausência — não de quem foi, mas de quem ainda não se revelou completamente. É um poema de escuta, de querer decifrar o outro antes que ele fale.
Mara: Os dois poemas tratam de espera, mas em direções opostas: um olha para o que ficou, o outro para o que pode vir. O silêncio é o mesmo; o que ele guarda é diferente.
Pip: E quando o silêncio passa, sobra a pergunta do que fazer com o tempo que ele ocupava.
Sobre o tempo e ser dona de si
Pip: “Sobre o tempo” não é poema — é uma reflexão em prosa que questiona algo que a gente repete sem pensar: que o tempo resolve as coisas.
Mara: O texto usa a metáfora do jardim e é preciso aqui: “O tempo tem a capacidade de amadurecer os caminhos que escolhemos, mas não de escolher por nós.” O tempo acompanha; a coragem de semear é nossa.
Pip: E essa conclusão vem de experiência concreta — a perda de um irmão aos oito anos, uma bisavó que chegou aos noventa e seis. A vida não distribui tempo com critério nenhum.
Mara: “Dona de Si” chega como resposta prática a essa urgência. Se o tempo não espera, a mulher que escolhe o próprio rumo não pode esperar aprovação. O poema diz: “quem ama não dita caminhos para quem quer ser feliz.”
Pip: Autonomia como ato, não como declaração. Os dois textos dizem a mesma coisa por caminhos diferentes.
Mara: Chama, saudade, tempo e escolha — a semana no Agora Babou foi densa.
Pip: Densa e honesta. Na próxima, a gente vê o que o fogo deixou quando a fumaça baixar.
Perceba, mulher, que seu único erro é querer ser feliz, ser dona do próprio nariz. E isso em muitos causa medo, embora ninguém o admita, pois a mulher que escolhe o próprio rumo já não vive submissa.
Conheço seus passos cercados por opinião, por vozes que chamam cuidado aquilo que é contenção. Mas amor não é cerca, nem vigia, nem juiz; quem ama não dita caminhos para quem quer ser feliz.
Então erga a sua voz, siga adiante, sem temor, não carregue nas costas a culpa, a tristeza ou a dor. Pois a mais bela resposta que uma mulher pode dar é prosseguir, vivendo a própria verdade, livre para decidir.
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