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Resposta


Perguntas se ocupas em mim
o espaço que preencho em ti.

Não sei medir afetos.

Mas sei que tua lembrança
atravessa meus dias sem pedir licença.

Sei que uma mensagem tua
é capaz de iluminar uma tarde inteira.

Sei que tua voz permanece
mesmo depois do silêncio.

Sei que teu perfume insiste
mesmo quando já não estás.

E sei que, entre os encontros
que a vida me ofereceu,
há poucos que habitam meus pensamentos
com tamanha delicadeza
e riqueza de detalhes.

E também sei que, entre as pessoas
que o tempo me trouxe,
há poucas cuja felicidade
importa tanto quanto a tua

Estás aqui.

Agora.

Nestes versos.

No mesmo convite,
que refiz e refaço,
em palavras e gestos,
todos os dias:

Tu és a resposta não só para a tua própria pergunta,
mas para todas que eu tinha antes de ti.

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Permaneço

porque há um tanto de ti que se acende em mim,
que atravessa minha pele de dentro para fora,
mesmo quando o dia é silêncio.

teu nome repousa no meu pensamento,
como quem encontra definitiva estada.

teu perfume — memória viva —
desenha caminhos no ar que me levam até ti.

e quando teu sorriso atravessa minha lembrança,
meu mundo se rearranja,
como se soubesse onde deve estar.

teu toque, ainda que distante,
move meus desejos
como vento que conhece direção.

e nesse espaço que era só meu,
tu chegaste sem pedir,
e permaneceste.

minha vida, agora,
não apenas te espera:
te quer.

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A tua alegria

Que o dia te encontre leve.

Que as horas te sejam gentis, e que a vida te trate com a ternura que mereces, aliviando o peso dos teus ombros.

Não peço lugar em teus caminhos.

Não agora.

Basta-me saber que há riso em tua casa, que o café não esfria sozinho, que a esperança ainda visita os teus domingos.

Há amores que desejam ser destino único.

O meu, não.

O meu aprende, devagar, que também é uma forma de amar:

alegrar-se quando a felicidade chega até ti,

mesmo que venha por estradas onde eu não sigo.

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Salivo-te

Marés na minha boca.
A Lua à minha frente. 
E eu, inútil,
contra a natureza.

Guia-me.

Leva-me.

És a força.

A gravidade da Lua
sobre as marés.

Tudo o que move.
Tudo o que transborda.

E a estranha certeza
de que nada mais falta.

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Em algum ponto

há linhas
que seguem com precisão

nada falta
no percurso

e, ainda assim,

em algum ponto
(quase invisível)

o traço cede

não o suficiente
para romper

mas o bastante
para não chegar

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Sempre

E se um dia a gente se desencontrar,
guarda uma coisa:

eu nunca fiz sexo com você.
eu sempre fiz amor.

em cada toque,
em cada proposta,
em toda e qualquer sacanagem —

sempre amor.

porque tudo isso
nasceu do mesmo lugar:

amor.

e isso eu nunca tinha vivido com ninguém.

guarda isso contigo,
mesmo que a gente se desencontre.

sempre amor.

sempre.

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Comigo

Caminho por ruas que se dividem em silêncio

Cada uma acenando com promessas que não decifro

Às vezes penso que escolhi

Mas o vento muda e me confunde de novo

Há uma porta que brilha, outra que guarda sombra

E ambas parecem chamar meu nome

Fico parado no meio, aturdido

Como quem teme perder o que não viveu

Como quem teme viver o que não poderia ser perdido

O horizonte se dobra em dois

E eu sigo tentando ouvir qual parte dele respira comigo.

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Podcast 6: Amor, Falta e Entrega

Pip: Agora Babou chegou esta semana com poesia que não pede licença — entra, ocupa, e recusa sair.

Mara: Os poemas cobrem território bem definido: a entrega total ao outro, a dor física da ausência, e as feridas que aprendem a se esconder. Vamos começar com o que acontece quando alguém se rende de vez.

Entrega e desejo

Pip: A pergunta que abre este bloco é simples e assustadora: o que acontece quando você para de se defender do amor?

Mara: "Rendição" responde sem hesitar — "há em mim essa entrega crua, exposta — um querer que não se contém, que não pede razão."

Pip: Sem razão, sem recuo, sem volta. A entrega descrita ali não é escolha — é reconhecimento de que a resistência já não faz sentido.

Mara: E o poema vai além: o outro não é abrigo, mas "mundo vasto onde me perco, onde me encontro." Esse é o mesmo território que "Mundo vasto" condensa em três linhas — perder-se para encontrar o nós.

Pip: "Febril" pega essa mesma febre e mostra o lado noturno: o eco que rompe madrugadas sem aviso, o corpo que cede mas a mente permanece desperta. É o mesmo amor, outra temperatura.

Mara: "Domingo, fim de tarde" traz o contraponto mais suave — o cheiro do outro no amanhecer, o beijo sem pressa, o tempo aprendendo a caminhar no ritmo do amor.

Pip: E então "Todos" brinda pelos dias inesquecíveis — inclusive os passados sem a pessoa amada. Memória como forma de posse.

Mara: "Até" fecha o ciclo com a promessa mais longa possível: tudo, até o dia da morte — e o que está no meio são só reticências. O silêncio faz o trabalho.

Pip: Quando o amor é assim absoluto, a ausência não some — ela muda de forma.

Ausência e saudade

Mara: Este bloco pergunta o que resta quando a presença vai embora — e a resposta não é vazio, é ardência.

Pip: "Ausência viva" não deixa dúvida: "tua falta arde pelas frestas da madrugada — meu corpo vigia."

Mara: Vigiar sem objeto. "Calor em suspenso" estende isso para uma cena inteira: o vinho intocado, o frio entrando devagar nos espaços onde havia cheiro e cor, e a pergunta que não se cala — por que precisa esfriar e ainda assim não acontecer?

Pip: "Distante" adiciona a dimensão do tempo perdido: não deu tempo de olhar nos olhos, e coube uma eternidade num único instante. A aquarela cuidadosamente pintada virou quadro borrado.

Mara: Ausência que arde, calor que não chega, distância que não se escolheu. O próximo passo é entender o que essas feridas fazem por dentro.

Feridas e vulnerabilidade

Pip: Há uma pergunta incômoda aqui: e se a superfície calma for exatamente onde a fratura é mais funda?

Mara: "Entre Ruídos" nomeia o mecanismo: "um cuidado que se traveste de zelo, mas que não ajuda — separa." Vozes que não chegam como palavra, chegam como desvio.

Pip: O dano invisível. "Quebrado" aprofunda isso — feridas que aprendem cedo a se esconder na pele aparentemente intacta, e quem aprende a sorrir onde mais arde.

Mara: "Ainda" responde com algo raro: não culpa, mas reconhecimento. Há momentos em que se pesa quando bastava tocar mais leve. E mesmo assim, o que é verdadeiro entre dois permanece intocável.

Pip: Três poemas, uma conclusão: o que não sangrou não está necessariamente inteiro.


Mara: Entrega sem defesa, ausência que arde, feridas que se escondem — o amor aqui nunca é simples.

Pip: Não. É febre, é vertigem, é queda — e ainda assim é onde se descansa. Semana que vem, mais Agora Babou.

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Calor em suspenso

o vinho repousa
intocado,
como se aguardasse
um gesto que não vem

o frio entra devagar,
sem anúncio,
ocupando os espaços
onde antes havia cheiro e cor

há uma distância
que não se explica

não está nas ruas,
nem no tempo

mas no que deixa
de chegar

e tudo continua:

a noite,
o inverno,
o silêncio –
o próprio vinho

como se fosse natural

como se tivesse de ser assim

e é nisso que algo falha

porque ainda há calor
em algum lugar

ainda há presença
no que não foi dito

e, ainda assim,

não se aproxima,
não se aconchega

por que precisa esfriar
e ainda assim não acontecer?

por que precisa ser no inverno,
justo quando é mais propício vinho?

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Distante

Não deu tempo de olhar nos olhos,
de dizer se sim ou se não.

O coração parou no meio – sem saber.
E coube uma eternidade num único instante.

Não me foi dada escolha:
era aceitar ou desvanecer.

E a aquarela
que com calma pintei

Se tornou, de repente,
um quadro borrado,

distante.