Havia um jardim inteiro florescendo diante de mim.
E eu, com os olhos cheios de incêndio, via o inverno chegar muito antes da primeira folha caída.
Não era dom.
Era peso.
Os deuses chamam de profecia aquilo que os homens chamam de exagero.
Então falei.
Falei dos cavalos de madeira, das portas abertas, dos ventos que mudavam de direção.
Falei das ausências antes que elas aprendessem seu nome.
Mas cada palavra caía aos pés do mundo como uma folha seca.
Ninguém ouvia.
E pouco a pouco descobri que a maldição de Cassandra nunca foi conhecer o futuro.
Foi perceber a ausência quando ela ainda se chamava esperança.
E a dor verdadeira não era prever a ruína.
Era enxergar o fim no horizonte e ainda assim caminhar, como quem prefere a esperança à própria profecia.
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Cassandra foi uma princesa de Troia e sacerdotisa de Apolo na mitologia grega. Ela recebeu o dom da profecia, podendo ver o futuro com clareza, mas foi amaldiçoada para que ninguém acreditasse em suas previsões.
Segundo a versão mais conhecida do mito, Apolo concedeu a Cassandra o poder da adivinhação. Depois que ela rejeitou o deus, ele transformou o presente em maldição: suas profecias continuariam sendo verdadeiras, mas seriam sempre ignoradas ou ridicularizadas.
Cassandra previu diversos acontecimentos importantes:
Alertou que Páris traria a ruína de Troia.
Advertiu os troianos sobre o perigo do Cavalo de Troia.
Anteviu a própria morte e a de Agamêmnon após a guerra.
Em todas essas ocasiões, ela estava certa. E em todas elas, foi ignorada.
Por isso Cassandra se tornou um arquétipo que atravessou os séculos. Hoje, falar em uma “Cassandra” é falar de alguém que percebe uma verdade incômoda antes dos outros, tenta alertar, mas não encontra quem a escute.
Talvez seja justamente isso que torna a personagem tão poderosa para a poesia: a tragédia dela não é saber o futuro. A tragédia é carregar uma verdade no coração e assistir aos acontecimentos seguirem seu curso, enquanto suas palavras se perdem no vento.
Havia um rio entre a tua dor e a minha visão, E eu julgava conhecer o que não podia ver; Faltava à ponte a firmeza da comunicação, Faltava coragem para tudo esclarecer.
Eu via apenas a margem, não a profundidade, Você guardava correntes difíceis de revelar; E, entre silêncio, ruído e vulnerabilidade, Perdíamos caminhos que só o diálogo podia mostrar.
Mas quando a verdade encontrou voz para nascer, E a escuta trocou o julgamento pela atenção, Descobri que amar é primeiro tentar entender, Antes de procurar respostas ou explicação.
Nenhuma alma se revela sem a coragem de dizer, Nem existe amor sem compreensão.
Teu lábio quente na minha pele desliza, Desperta o fogo que queima o lençol, Teu sussurro suave é como a brisa, Que nos consome antes do pôr do sol.
Minhas mãos te buscam nas sombras escuras, No compasso lento de uma respiração, Nossas bocas provam texturas puras, Na urgência extrema da nossa atração.
O suor brilha no escuro do quarto, Nesse ritmo louco que nos conduz, De cada traço teu eu nunca me farto, Sendo teu corpo minha única luz.
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