Avatar de Desconhecido

Mapas

Passei dias lendo o voo das aves,
buscando no céu alguma direção;
mas aves conhecem apenas ventos,
não o destino de um coração.

Consultei marés, sombras e faróis,
cada sinal parecia dizer algo de mim;
mas os mapas confundem quem os segue,
quando o porto não está no fim.

Então a voz rompeu a distância,
e o que era névoa encontrou tradução;
há perguntas que moram nos astros,
e respostas que vivem na confissão.

Nenhum silêncio traduz um coração.
Só a coragem lhe dá linguagem.

Avatar de Desconhecido

Cassandra

Havia um jardim inteiro
florescendo diante de mim.

E eu,
com os olhos cheios de incêndio,
via o inverno chegar
muito antes da primeira folha caída.

Não era dom.

Era peso.

Os deuses chamam de profecia
aquilo que os homens chamam de exagero.

Então falei.

Falei dos cavalos de madeira,
das portas abertas,
dos ventos que mudavam de direção.

Falei das ausências
antes que elas aprendessem seu nome.

Mas cada palavra
caía aos pés do mundo
como uma folha seca.

Ninguém ouvia.

E pouco a pouco descobri
que a maldição de Cassandra
nunca foi conhecer o futuro.

Foi perceber a ausência
quando ela ainda se chamava esperança.

E a dor verdadeira não era prever a ruína.

Era enxergar o fim no horizonte
e ainda assim caminhar,
como quem prefere a esperança
à própria profecia.

-=-=-=-=-

Cassandra foi uma princesa de Troia e sacerdotisa de Apolo na mitologia grega. Ela recebeu o dom da profecia, podendo ver o futuro com clareza, mas foi amaldiçoada para que ninguém acreditasse em suas previsões.

Segundo a versão mais conhecida do mito, Apolo concedeu a Cassandra o poder da adivinhação. Depois que ela rejeitou o deus, ele transformou o presente em maldição: suas profecias continuariam sendo verdadeiras, mas seriam sempre ignoradas ou ridicularizadas.

Cassandra previu diversos acontecimentos importantes:

  • Alertou que Páris traria a ruína de Troia.
  • Advertiu os troianos sobre o perigo do Cavalo de Troia.
  • Anteviu a própria morte e a de Agamêmnon após a guerra.

Em todas essas ocasiões, ela estava certa. E em todas elas, foi ignorada.

Por isso Cassandra se tornou um arquétipo que atravessou os séculos. Hoje, falar em uma “Cassandra” é falar de alguém que percebe uma verdade incômoda antes dos outros, tenta alertar, mas não encontra quem a escute.

Talvez seja justamente isso que torna a personagem tão poderosa para a poesia: a tragédia dela não é saber o futuro. A tragédia é carregar uma verdade no coração e assistir aos acontecimentos seguirem seu curso, enquanto suas palavras se perdem no vento.

Avatar de Desconhecido

Meu maior defeito

Meu maior defeito?

Ver beleza em todas as coisas.

No homem que lança redes ao rio e naquele que ensina outros a navegar.

Na árvore frondosa e no galho torto que insiste em florescer.

No nascer do sol e na noite que o recebe.

Na luz que revela as paisagens e na sombra que lhes confere profundidade.

No rio que nunca é o mesmo e na pedra que atravessa os tempos.

No que nasceu para voar e no que floresce sem sair do lugar.

Na juventude que corre ao horizonte e na velhice que aprende a contemplá-lo.

Na pressa que persegue o amanhã e na calma que encontra o agora.

Na coragem de dar o primeiro passo e na sabedoria de saber parar.

Na liberdade que abre horizontes e no compromisso que lhes oferece direção.

No sonho que desafia os limites e na realidade que lhes empresta contorno.

Na vitória que recompensa a jornada e na derrota que ensina a recomeçar.

No erro que revela a humanidade e no acerto que celebra o aprendizado.

Na entrega que semeia futuros e no sacrifício que rega o invisível.

Na força que ergue montanhas e na fragilidade que aproxima almas.

No acolhimento que aquece os afetos e na ausência que lhes atribui urgência.

No sorriso que ilumina a travessia e na lágrima que lhe dá significado.

No silêncio que abriga os pensamentos e na palavra que constrói pontes.

Na certeza que acalma o coração e na dúvida que faz a alma crescer.

Na pergunta que nos transforma e no mistério que nos mantém caminhando.

No que se encontra por acaso e no que se constrói com intenção.

Na memória que guarda os instantes e no esquecimento que suaviza os pesos.

No extraordinário que nos deslumbra e no simples que nos sustenta.

Na imperfeição que nos torna únicos e no encanto que insiste em habitar cada falha.

Na vida que brota e na morte que transmuta. Pois até o fim, quando visto com ternura, também guarda sua própria forma de beleza.

No que é pleno e no que ainda está por se tornar.

Meu maior defeito?

Talvez seja este:

não saber olhar para a vida sem amá-la.

Avatar de Desconhecido

Brilho que arde

Força que me invade,

luz que rompe o escuro,

pulso desperto.

No choque dos nossos mundos,

meu brilho arde mais forte.

Avatar de Desconhecido

Exaustão

Conto os pequenos

gestos como quem procura

estrelas no mar.

Hoje já não busco luz,

só desejo descansar os olhos.

Avatar de Desconhecido

A última prece

Moram em mim a paz de ter tentado tudo,

A tristeza de não ter conseguido nada,

A fé de que minha fé não seja em vão,

E a prece para que esperança não seja apenas um sinônimo de engano.

Avatar de Desconhecido

O que precisa ser

Havia um rio entre a tua dor e a minha visão,
E eu julgava conhecer o que não podia ver;
Faltava à ponte a firmeza da comunicação,
Faltava coragem para tudo esclarecer.

Eu via apenas a margem, não a profundidade,
Você guardava correntes difíceis de revelar;
E, entre silêncio, ruído e vulnerabilidade,
Perdíamos caminhos que só o diálogo podia mostrar.

Mas quando a verdade encontrou voz para nascer,
E a escuta trocou o julgamento pela atenção,
Descobri que amar é primeiro tentar entender,
Antes de procurar respostas ou explicação.

Nenhuma alma se revela sem a coragem de dizer,
Nem existe amor sem compreensão.

Avatar de Desconhecido

O Olho de Vidro

O foco manual desliza lento,
ajusta a linha, prende o momento.
O clique mecânico corta o ar,
faz o instante se eternizar.

Olhar que revela o que o peito esconde,
na luz direta onde o corpo responde.
A lente captura o foco e o desejo,
a lingerie escorre a cada lampejo.

Filme de prata, grão e calor,
gotas que vertem do próprio amor.
O enquadramento prende a pele e a renda,
um jogo eterno que se desvenda.

A câmera guarda o que a mente criou:
o instante exato que o corpo entregou.

Avatar de Desconhecido

Nada

No fim da tarde, nada

o vento levou meu nome,

permaneceu nada.

No silêncio da memória,

restou em mim apenas nada.

Avatar de Desconhecido

Chama despida

Teu lábio quente na minha pele desliza,
Desperta o fogo que queima o lençol,
Teu sussurro suave é como a brisa,
Que nos consome antes do pôr do sol.

Minhas mãos te buscam nas sombras escuras,
No compasso lento de uma respiração,
Nossas bocas provam texturas puras,
Na urgência extrema da nossa atração.

O suor brilha no escuro do quarto,
Nesse ritmo louco que nos conduz,
De cada traço teu eu nunca me farto,
Sendo teu corpo minha única luz.