há linhas
que seguem com precisão
nada falta
no percurso
e, ainda assim,
em algum ponto
(quase invisível)
o traço cede
não o suficiente
para romper
mas o bastante
para não chegar

há linhas
que seguem com precisão
nada falta
no percurso
e, ainda assim,
em algum ponto
(quase invisível)
o traço cede
não o suficiente
para romper
mas o bastante
para não chegar

Há vozes que não se mostram,
mas atravessam.
Agem nas sombras
de seus infortúnios.
Não chegam como palavra,
chegam como desvio.
Pequenos gestos,
dizeres à meia-luz.
Um cuidado que se traveste de zelo,
mas que não ajuda – separa.
E, sem que se veja,
algo se desorganiza
Laços temporariamente cedem.
Não pelo peso do tempo,
mas pelo que sussurra
fora do alcance.
E quando se percebe,
há distância
onde antes havia caminho.
Não por falta de presença,
mas por excesso de sombras
desconvidadas.
E, ainda assim,
o que é de verdade
não se desfaz:
Apenas atravessa o que tenta separá-lo.

Caminho por noites escuras
Sem lua
Sem rumo
Sem porquê
Sem porém.
Caminho porque caminho
E vou sem destino
Esperando chegar
Sabe-se lá onde
E encontrar sei lá quem.
Mas é nessa escuridão
Diante do que sobrou de mim
Que pretendo virar chama
E queimar a língua dos caretas
Que acharam que este era meu fim.

Há algo no teu sorriso
Que me inquieta,
Que em mim tudo desperta,
Que me fascina.
Há algo na fumaça que sai da tua boca
Que me atravessa,
Que em mim é promessa,
Que me domina.
Há algo no teu corpo riscado
Que me testa,
Que em mim é festa,
Que me desatina.
Há algo em teus cabelos e olhos negros
Que me cativa,
Que a mim desajuiza,
Que me alucina.
Mas acima de tudo,
Há algo em tua alma
Que se traduz em luz,
Que irradia de teus poros,
E que iluminou
Os becos e vielas
Pelos quais já andei,
Sempre contigo por perto
(de alguma forma)
Ou com você em mim.
És uma estrela
De pujante fulgor
Que cintila em meu caminho,
E quando sigo em tua direção –
Estás em toda e qualquer direção –
És a única direção –
Sei que não estou sozinho.

Te amo neste fim de noite
Neste meio fio
Neste precipício
Nesta ribanceira.
Te amo contando trocados
Pedindo fiado
Engolindo poeira.
Tanto faz!
Porque tu és este amor
Que jorra de teu peito
E me fecunda por inteiro.
Te amo porque é o que sei fazer
É o que me faz ser quem sou
E o resto é pura besteira.

Tenho medos infantis
Coragens imensas
Defeitos singulares
Qualidades intensas
Tudo faz de mim o que sou
…
Tenho uma sensibilidade aguçada
Percebo coisas mesmo sem querer
Não sou capaz de sorrir quando estou triste
Não sou capaz de fingir o que não sei ser
…
E assim, deste jeito ímpar
Disponho-me a ser seu par
Nos piores e nos melhores momentos
Em todas as dimensões do que é amar
…
Nas lágrimas e nas risadas
Nas faxinas e nos pratos por lavar
Nos boletos e nas mancadas
Nos olhos fechados do beijar
…
Por isso beija-me
Porque não estou de passagem
Cheguei para contigo seguir viagem
Rumo a todo e qualquer lugar
Se você esteve no inferno, talvez leve algum tempo para se adaptar ao paraíso. A paz é uma estranha para quem vive em guerra. Não desista. Acostume-se.

Que revela belezas esquecidas
Nos vãos da vida,
Nos trilhos da eterna viagem.
De onde vejo a paisagem
Pintada por sorrisos,
Borrada por lágrimas,
Mas ainda assim paisagem:
Quadros e retratos que sinto
Com os olhos da minha alma
Completamente escancarada.
Há beleza em tudo,
E hoje sei que as maiores belezas,
Das infinitas belezas do mundo,
Delicadamente me calam.
E quando estou mudo
É que mais ainda eu falo,
Pois ouço-me abissalmente,
Nas palavras que eu calo.

Deus há de prover tudo que necessitamos durante nossa jornada. Só nos resta, portanto, apreciar e aprender pelos caminhos da vida.

Resolvi chamar de amor o que era pura dor
E que minhas poesias inspirava.
Talvez mais algumas palavras
Mais estrofes, mais versos
Mais telefonemas e mensagens
Mais angústia
Mais lágrimas
Mais humilhações
Mais descaso
Mais falta de respeito
Mais indignidade.
Resolvi chamar isso de amor
E hoje entendo o porquê:
Falta de amor próprio
Responsabilidade minha
E de mais ninguém.
Faltou-me coragem
Para deixar ir embora de vez
A dor que não me deixava.
E no final das contas
“Amar é quase uma dor”
Apenas quando não é amor:
É apenas dor romantizada.
O amor de fato é flor
E como toda flor
Faz valer a jornada.

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