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Depois da maré – Parte II da trilogia O Ritmo da Água

Às vezes o mar não responde.
A onda chega, recua, desaparece,
como se levasse consigo a pergunta.

Fico olhando a linha do horizonte,
esse lugar onde o céu e a água
parecem conversar sem palavras.

Há uma calma estranha nisso.
Não a calma de quem sabe,
mas a de quem aprende a não exigir.

Então percebo que o mar
nunca guardou minhas respostas.
Guardou apenas o movimento.

E talvez seja suficiente.

Porque a água segue seu caminho,
o vento segue o seu,
e o dia continua abrindo espaço para a luz.

E eu também,
como quem descobre que viver
é caminhar junto das marés,
sem precisar decifrar cada silêncio.

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Quero ser caminho

Talvez eu tenha sido apenas ponte,

aquela que serviu para reconectar

histórias,

pessoas,

memórias.

E talvez tenha sido esse,

desde o princípio,

o meu propósito.

Nobre, talvez.

Triste, com certeza.

Eu queria continuar

fazendo parte da jornada,

dividindo a paisagem,

o cotidiano,

os pequenos acontecimentos

que dão nome aos dias.

Tenho orgulho

de ter sido ponto de encontro,

passagem segura,

abrigo entre margens.

Mas, no fundo do coração,

o que eu queria mesmo

não era apenas ligar caminhos.

Era caminhar por eles.

Porque há pontes que unem destinos,

mas não seguem viagem.

E eu,

apesar de todo o orgulho,

queria ter sido mais que travessia.

Queria –

e ainda quero –

fazer parte da jornada.

-=-=-=-

Tenho feito algumas experiências no Instagram. É a poesia narrada por mim. Ficarei grato em receber qualquer tipo de feedback. 🙂

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Depois dos escombros

Aprendemos tarde

que o tempo não cura.

O tempo apenas passa.

Quem cura é o que fazemos com os dias que ele nos entrega.

Por muito tempo olhamos para trás.

Contamos ausências.

Medimos perdas.

Pesamos palavras como quem procura o instante exato em que tudo se partiu.

Mas a sabedoria, descobri, não mora nos tribunais da memória.

Mora na delicadeza de aceitar que ninguém atravessa uma tempestade sem perder alguma coisa.

E que sobreviver também deixa marcas.

Hoje, já não desejo que o passado desapareça.

(as cicatrizes se tornariam órfãs)

Prefiro que ele permaneça como permanecem as árvores antigas:

não pela força dos ventos que suportaram,

mas pelas raízes que aprenderam a aprofundar.

Talvez seja isso que chamamos de reconciliação.

Não o esquecimento.

Nem a pressa.

Mas o raro instante em que duas histórias deixam de disputar razão

e começam a compartilhar compreensão.

O amor, afinal,

talvez não seja aquilo que resiste ao tempo.

Talvez seja aquilo

que aprende com ele.

E que o caminho adiante,

não nos peça corridas.

Algumas sementes

não precisam de pressa.

Precisam apenas de estação.

E que a vida nos peça apenas sabedoria para reconhecer

a beleza improvável

de ainda estarmos aqui,

depois de tudo,

sem negar o que fomos,

e sem temer o que ainda podemos ser.

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Em algum ponto

há linhas
que seguem com precisão

nada falta
no percurso

e, ainda assim,

em algum ponto
(quase invisível)

o traço cede

não o suficiente
para romper

mas o bastante
para não chegar

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Entre Ruídos

Há vozes que não se mostram,
mas atravessam.

Agem nas sombras
de seus infortúnios.

Não chegam como palavra,
chegam como desvio.

Pequenos gestos,
dizeres à meia-luz.

Um cuidado que se traveste de zelo,
mas que não ajuda – separa.

E, sem que se veja,
algo se desorganiza

Laços temporariamente cedem.

Não pelo peso do tempo,
mas pelo que sussurra
fora do alcance.

E quando se percebe,
há distância
onde antes havia caminho.

Não por falta de presença,
mas por excesso de sombras
desconvidadas.

E, ainda assim,
o que é de verdade
não se desfaz:

Apenas atravessa o que tenta separá-lo.

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Reviravolta

Caminho por noites escuras

Sem lua

Sem rumo

Sem porquê

Sem porém.

Caminho porque caminho

E vou sem destino

Esperando chegar

Sabe-se lá onde

E encontrar sei lá quem.

Mas é nessa escuridão

Diante do que sobrou de mim

Que pretendo virar chama

E queimar a língua dos caretas

Que acharam que este era meu fim.

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Sirius

Há algo no teu sorriso
Que me inquieta,
Que em mim tudo desperta,
Que me fascina.

Há algo na fumaça que sai da tua boca
Que me atravessa,
Que em mim é promessa,
Que me domina.

Há algo no teu corpo riscado
Que me testa,
Que em mim é festa,
Que me desatina.

Há algo em teus cabelos e olhos negros
Que me cativa,
Que a mim desajuiza,
Que me alucina.

Mas acima de tudo,
Há algo em tua alma
Que se traduz em luz,
Que irradia de teus poros,
E que iluminou
Os becos e vielas
Pelos quais já andei,
Sempre contigo por perto
(de alguma forma)
Ou com você em mim.

És uma estrela
De pujante fulgor
Que cintila em meu caminho,
E quando sigo em tua direção –
Estás em toda e qualquer direção –
És a única direção –
Sei que não estou sozinho.

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Besteira

Te amo neste fim de noite

Neste meio fio

Neste precipício

Nesta ribanceira.

Te amo contando trocados

Pedindo fiado

Engolindo poeira.

Tanto faz!

Porque tu és este amor

Que jorra de teu peito

E me fecunda por inteiro.

Te amo porque é o que sei fazer

É o que me faz ser quem sou

E o resto é pura besteira.

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Qualquer lugar

Tenho medos infantis

Coragens imensas

Defeitos singulares

Qualidades intensas

Tudo faz de mim o que sou

…

Tenho uma sensibilidade aguçada

Percebo coisas mesmo sem querer

Não sou capaz de sorrir quando estou triste

Não sou capaz de fingir o que não sei ser

…

E assim, deste jeito ímpar

Disponho-me a ser seu par

Nos piores e nos melhores momentos

Em todas as dimensões do que é amar

…

Nas lágrimas e nas risadas

Nas faxinas e nos pratos por lavar

Nos boletos e nas mancadas

Nos olhos fechados do beijar

…

Por isso beija-me

Porque não estou de passagem

Cheguei para contigo seguir viagem

Rumo a todo e qualquer lugar

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Vim trazer verdades 61

Se você esteve no inferno, talvez leve algum tempo para se adaptar ao paraíso. A paz é uma estranha para quem vive em guerra. Não desista. Acostume-se.

Paraíso – Ilustração de Gustave Doré, inspirado na obra de Dante Alighieri (A Divina Comédia)