Cai fina a chuva
sobre o vidro sem pressa –
o mundo emudece.
Alguma dor antiga
se dissolve na poça.
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Meu nome
Digo meu nome
para atender o telefone.
Estranho pensar
que a palavra mais antiga
é também empréstimo.
Sem destino
Folha no asfalto.
O vento escolhe por ela
a próxima esquina.
Nem toda viagem precisa
saber para onde vai.
Sem plateia
Ônibus vazio.
A manhã atravessa a rua
sem anunciar-se.
Nenhum olhar acompanha
a chegada silenciosa.
Sem testemunhas
Lua no telhado.
Um morcego cruza a noite
sem fazer som.
A cidade nem percebe
que alguém esteve aqui.
Cartografia
Amo como os faróis:
não prendem navios,
não seguram o mar,
apenas permanecem acesos.
Alguns barcos passam.
Outros ficam.
Mas a luz
não aprende a ser menos luz
por causa disso.
Céu
Poça de chuva:
um pardal bebe o céu
que nela caiu.
Passa a bicicleta e
o céu se desfaz em ondas.
O resgate
Há um homem afogado
que aprendeu, por fim,
a nadar sozinho —
não pelas ondas que o empurram,
mas pela lembrança antiga
de que os braços que o seguram
sempre foram os seus.
Toda fortaleza tem um portão
que só abre por dentro,
uma fechadura sem chave alheia,
um muro que ergueu-se justamente
para que ninguém de fora
decidisse quando ele cai.
Todo náufrago carrega,
sem saber, o mapa
de uma ilha que é ele mesmo —
terra firme escondida
sob a própria pele encharcada,
esperando apenas
que ele pare de nadar em direção ao horizonte
e comece a nadar para dentro.
Nenhuma chama se atravessa
pelas mãos de outro —
o fogo se atravessa a sós,
e do outro lado
descobre-se que a proteção
era feita da própria pele,
mais forte do que se imaginava.
Não vai
Vou embora.
Não porque o amor morreu, mas porque ficou sozinho. Porque uma casa não se sustenta quando só um dos lados faz o caminho.
Vou embora com as mãos ainda cheias de vontade. Ainda sabendo de cor tua voz, teus silêncios, e as pequenas coisas que ninguém mais sabe.
Há uma crueldade discreta em partir querendo ficar. Em fechar a porta olhando para trás.
Fui embora devagar, quase como quem se perde de propósito.
A cada passo, deixava uma última chance sobre o caminho.
Porque partir, às vezes, é também uma pergunta.
E eu queria que você respondesse.
Queria ouvir teu coração atravessar a distância e dizer:
não vai.
Mas vieram apenas os ruídos da noite,
e então compreendi:
existem despedidas que acontecem muito antes de alguém partir.
E o que mais dói não é a falta que você vai me fazer.
É a falta que você já fazia enquanto eu ainda estava aqui.
A verdade é que eu não fui embora hoje.
Hoje apenas dei nome a uma distância que já existia havia muito tempo.
E então eu fui.
Não para te esquecer, nem para provar alguma coisa.
Fui porque me perdi de mim tentando encontrar espaço em tua vida.
E talvez essa seja a despedida mais triste:
não a de quem deixa de amar,
mas a de quem continua amando e, mesmo assim, precisa partir.
Porque às vezes a relação acaba primeiro.
E o amor, teimoso como sempre, fica um pouco mais.
Sentado na varanda da memória,
vendo o trem partir,
sem coragem de embarcar.

A primeira onda da manhã – Parte III da Trilogia O Ritmo da Água
Antes que o dia encontre seu rumo,
o mar já está desperto.
A primeira onda chega sem alarde,
toca a areia
e volta para a água
como quem apenas cumpre seu ofício.
Não traz respostas.
Não desfaz ausências.
Não corrige o que passou.
Ainda assim, vem.
O horizonte se ilumina devagar,
o vento muda de direção,
e as gaivotas retomam seus círculos sobre o mar.
Tudo parece dizer a mesma coisa:
comece.
Mesmo sem certezas.
Mesmo sem entender todos os silêncios.
Mesmo carregando perguntas que ficaram pelo caminho.
Porque a manhã não exige explicações.
Pede apenas presença.
E eu também sigo adiante,
como a primeira onda do dia,
que não precisa ser maior que as outras
para lembrar ao mundo
que o mar continua.
