Avatar de Desconhecido

Desvio

Dia sem promessa:

no meio do silêncio,

algo respirou.

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Ainda assim (2)

Força não é sustentar a aparência.

É deixar cair,

e, ainda assim,

existir.

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O mesmo céu

I. A garça

O vento esculpe a crista da maré,
desenha formas que o sal logo desfaz.
A garça fita o que o tempo quer,
no mergulho exato de um instante em paz.

Não há ontem na curva do horizonte,
nem promessas no vôo do gavião.
A vida é o jorro que brota da fonte,
sem pedir licença ou explicação.

O mundo gira em sua luz de cobre,
alheio ao passo de quem o quer medir.
A beleza é livre, o olhar é nobre,
no simples mistério de apenas existir.


II. O gavião

O vento sustenta o risco no céu,
abre no azul um traço fugaz.
O gavião não pesa o seu papel,
segue no fluxo que nunca se desfaz.

Lá embaixo, a garça detém o instante,
na linha exata de mergulhar.
O alto se move, livre e distante,
sem ponto fixo que o faça parar.

O mundo se alarga no que se descobre,
alheio ao gesto de quem quer medir.
A beleza é vasta, o silêncio é nobre,
no livre impulso de apenas seguir.


III. O mesmo céu

O horizonte sustenta o que é vão,
onde o longe e o perto se desfaz.
Não há medida na extensão,
nem forma fixa no que se refaz.

A garça encontra o ponto do ar,
no gesto exato de mergulhar.
O gavião não se prende ao passar,
no amplo curso de apenas voar.

O mundo respira no mesmo cobre,
sem escolher ficar ou partir.
A beleza é livre, o silêncio é nobre,
no mesmo acordo de apenas existir.

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O tempo decide

Entre dois destinos,

o coração hesita:

o tempo decide.

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Sem amarras

Céu sem amarras:

o que parte de mim

volta vento.

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Dinâmica

Nada muda a nossa dinâmica

E saber que

Nada muda a nossa dinâmica

É o que me faz saber que

Nada muda a nossa dinâmica.

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Kintsugi

Houve um tempo
em que o coração cedeu
sem barulho.

Não foi um rompimento abrupto:
foi desgaste,
pressão contínua,
até que algo se partiu por dentro.

E ali ficaram as marcas:
fibras abertas,
fendas expostas,
memórias que não se escondem.

Eu poderia ter coberto com silêncio,
negar a queda,
seguir como se nada tivesse sido.

Mas escolhi outro caminho.

Recolhi os fragmentos –
um a um –
com as mãos que ainda tremiam,
sem negar o que quebrou.

E então compreendi:
não era para esconder as fissuras.

Era para preenchê-las.

Com ouro.

Não para disfarçar a queda,
mas para torná-la parte do que sustenta.

Cada rachadura
recebeu aquilo que ainda havia de melhor em mim:

Presença.

Verdade.

Consciência.

O que antes era ruptura
se tornou desenho,
obra de arte.

Não sou mais o que fui –
ainda bem –
porque o que hoje existe
não é remendo.

É construção.

Há valor onde houve queda.
Há brilho onde houve dor.

E o que um dia foi frágil,
agora se sustenta
com algo que não existia antes de se partir.

Hoje, quando olho,
não vejo o que quebrou.

Vejo ouro.

Vejo permanência.

Vejo um coração
que não voltou ao que era,
e que, ainda assim,
se sustenta.

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De pé

Há quem passe pela estrada
como vento que não aprende o caminho.

Eu não.

Sou quem finca os pés no chão,
quem conhece o peso das próprias escolhas,
quem abre portas sabendo
que terá de habitá-las.

Não ofereço presença leve:
ofereço permanência.

Carrego na palavra
o mesmo gesto com que construo.

Se prometo abrigo,
levanto paredes.
Se digo “fica”,
preparo espaço.

Nem tudo que toquei ficou,
mas nada do que toquei
foi sem verdade.

E o que em mim permanece
não é o que passou:

É o homem que ficou de pé
quando era mais fácil
ir embora.

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Sem memória do escuro

O sol não pergunta:
apenas retorna.

Mesmo depois
de noites mais densas,
ele atravessa o horizonte
sem memória do escuro.

Há algo nisso.

Não promessa,
não certeza:
apenas o fim
daquilo que se repetia
e ainda se encerra.

A luz toca
onde ainda não havia forma
e, sem aviso,
desenha caminhos improváveis.

Não é milagre.

É possibilidade.

E basta.

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Perene

Faz de mim tua fundação,

Teu alicerce.

Constrói em mim teu abrigo,

Teu refúgio.

És parte de mim,

Assim como já sou parte de ti.

Também és minha fundação,

Meu alicerce,

Meu abrigo e refúgio.

E para que não restem dúvidas:

Eu só faço sentido

Quando moras em mim.