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Meu quintal

Tem gente que atravessa o mundo
pra ver o que eu vejo de chinelo.

O Pão de Açúcar do outro lado da baía,
de perfil, como quem não pede nada.

A Pedra de Itapuca,
firme no mesmo lugar desde sempre,
deixa o mar bater sem responder.

Um homem cata a vida entre as rochas,
sem pressa e sem plateia.

A amendoeira me empresta a sombra
sem perguntar de onde eu venho
nem quanto tempo eu fico.

No chão, as ondas de pedra portuguesa
fazem o que o mar faz:
vão e voltam
sem nunca sair do lugar.

O disco do Niemeyer pousou no penhasco
e decidiu ficar.

Eu também.

Aqui ninguém me deve leitura.
A maré lê tudo,
apaga tudo
e recomeça a página toda manhã.

Este é o meu quintal:
não tem muro,
não tem porta da frente.
Quem chega, já entrou.

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Escolho ouvindo

Ninguém me entregou um molde.
Cheguei antes de ser,
e cada passo que dei
foi tijolo meu.

Ainda assim,
há trilhas que eu nunca tinha visto
e que meus pés reconhecem
logo no primeiro passo.

De onde vem isso
que sabe antes de mim?
Ninguém me ditou,
e mesmo assim chama.

Talvez eu não seja
nem o que encontro pronto
nem o que invento do nada.

Escolho, sim.
O peso é meu,
a conta é minha.

Mas escolho ouvindo
o que em mim
já sabia o caminho
antes de eu chegar.

E entre o que faço
e o que pede para ser,
eu vou sendo.


Sobre o poema

Jean-Paul Sartre e Carl Jung olharam para a mesma pergunta, quem somos, por caminhos opostos. Para Sartre, a existência precede a essência. Não há nada em nós esperando para ser revelado; somos o que fazemos, e por isso estamos condenados a ser livres, sem desculpas. Para Jung, existe em cada um de nós um Self, uma totalidade que pede para se realizar, e a vida é um processo de individuação, de nos tornarmos quem somos. Um diz que nos inventamos; o outro, que nos encontramos. O poema mora entre os dois: a escolha é minha, o peso também, mas talvez escolher bem seja escolher ouvindo.

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Quarto habitado

Fecho a porta
e ninguém chega.
Antes, eu contava os passos
que não vinham.

Hoje escuto outra coisa:
o café esfriando devagar,
a luz mudando de parede,
uma frase que nasce
sem pedir plateia.

Não é ausência.
É casa.
Alguém mora aqui,
e sou eu.

Aprendi tarde
que estar só não é sobra,
é chão.
Que o silêncio também fala
quando a gente para
de esperar a voz do outro.

E se alguém bater,
abro a porta inteiro.
Não por falta.
Por escolha.


Sobre o poema

O psicanalista Donald Winnicott escreveu que a capacidade de estar só é uma das maiores conquistas do amadurecimento. Para ele, ela costuma nascer na infância, da experiência de estar sozinho na presença de alguém, até que essa presença passe a morar dentro da gente. Mas nem todos recebem isso cedo. Para alguns, essa capacidade é aprendida tarde, com tempo, perdas e trabalho interior. Talvez por isso ela valha ainda mais. Quem consegue estar só não está fugindo do outro, está pronto para recebê-lo sem precisar dele para existir.

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Dia do Poeta – 2026

O economista em mim
estima, projeta, modela,
sabendo que a priori
ninguém sabe nada.
É só a melhor aposta
antes do passo.

Mas o poeta, ah, o poeta,
nem aposta.
Escreve primeiro
e só depois descobre
o que estava dizendo.

E que alegria é essa
de não saber antes,
de ser surpreendido
pelo próprio verso,
como abrir uma carta
escrita por mim
e ler nela
o que eu ainda não sabia.

Nenhum poema meu
coube na previsão.
Uns couberam na vida,
outros no que a vida levou.

Hoje é dia de brindar
ao que não se calcula.

Ao que simplesmente acontece.

Ao que é.


Um Feliz dia do Poeta a todos que se arriscam a viver em poesia! ❤️❤️❤️

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Eu te vejo

Entre folhas em forma de coração,
num fio que não foi feito para pousos,
ele parou.

Máscara negra, sobrancelha branca,
o peito aceso de um sol
que não pediu licença.

Olhou para baixo.
Para mim.

O nome dele diz que já me viu.
Bem-te-vi: coisa do passado,
como quem conta que esteve lá.

Mas não foi isso que eu ouvi.
Ouvi o presente:
eu te vejo.

E quem me dizia isso
era Deus.

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Arqueologia


Mão no peito, olhos no chão,
procuro o dia em que a viga cedeu.

Não foi o temporal, foi antes,
foi a fresta que eu chamei de nada.

Fiquei anos na soleira,
com a chave que nunca girou,
enquanto lá dentro
sempre havia um móvel a arrastar.

Arranquei meu próprio chão
para servir de alicerce
a uma casa
que só era olhada da janela.

Pego a caneta como quem cava,
camada por camada de desculpa,
e cada verso desenterra
um tijolo que eu mesmo assentei torto.

Outros, eu sei, foram tirados
um a um, em silêncio,
por mãos que nunca disseram adeus.

Não me cabe contá-los.
Me cabe só não esquecer os meus.

A luz já não atravessa,
mas ainda ilumina o chão,
e no chão, pela primeira vez,
leio a planta da casa que caiu:
cômodos arrumados com cuidado
para quem nunca chegou a morar neles.

No fim, me devolveram a chave,
como se fosse a chave,
e não a casa,
o que eu tinha dado.

Não escrevo para reerguer
o que foi feito sobre areia.

Escrevo para saber
de onde vem a ruína.
E descubro, aqui embaixo,
que o fundo também é chão,
e que é dele, e não dos escombros,
que se dá o próximo passo.

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Leve

Abri a janela hoje cedo
e o ar entrou sem pedir licença,
como quem sabe o caminho.

A casa respira diferente.
Sobra espaço nos cantos,
sobra tempo nas manhãs,
sobra silêncio,
e o silêncio, agora,
não espera ninguém.

O violão voltou para o colo.
A câmera, para os olhos.
A poesia, para mim.

Não carrego mais
o peso de uma porta
que eu ficava vigiando.

Tem dias que a liberdade
não chega gritando.
Chega assim:
um café quente,
uma luz bonita na parede,
e a certeza tranquila
de que tudo o que é meu
ficou.

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Os de mins

Escrevo poemas
Para salvar o que de mim resta,
Para reafirmar,
Para bater o pé no chão,
Feito uma tribo –
Toda feita de mins –
Que insiste,
Não desiste.

Sou capaz de sublimar
Tudo que não me é de verdade
E acredito –
Porque é a minha sinceridade
Que projeto para todos os lados,
Sem alarde.

A dor, repartida entre os mins,
Passa.
As ilusões se tornam mosaicos
Que deixam minha vida mais rica.

E os amores,
Mesmo os que se partiram,
Ou os que nunca chegaram,
Permanecem,
Se revigoram
E se fortalecem
Na certeza de que de mim
Os de mins nunca se esquecem.

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Poça

Choveu durante a noite.

De manhã,
a cidade parecia ter esquecido
alguma coisa na rua.

Uma cadeira molhada,
três folhas grudadas no asfalto,
um jornal ilegível
e uma poça.

Passei por tudo
sem procurar significado.

Há dias em que o mundo
não quer ser metáfora.

Quer apenas estar ali,
com suas calçadas,
seus ônibus atrasados,
suas janelas ainda acesas.

Mas levei comigo
isto:

Naquela poça,
por alguns segundos,
o céu estava inteiro.

Depois veio um carro.

E passou por cima.

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Porta entreaberta

I.

Chamam de fraqueza
o que é só cuidado com o irreversível.

Decidir é perder:
toda escolha é um luto
pelo que não foi.

O indeciso não é quem não sabe.
É quem sabe demais
o peso do que vai deixar.

Por isso a lingueta aponta para fora
e não procura o batente.
A porta guarda os dois mundos
o quanto pode,
até que o vento
decida por ela.


II.

A porta não escolheu.
Ficou.

E enquanto ficava
a ferrugem escolheu por ela:
comeu o metal devagar,
sem pressa e sem dúvida.

O que não decide
também é decidido,
pelo tempo,
que nunca pergunta.


III.

A chave ficou
do lado de dentro.

O tempo enferruja,
desgasta, decide,

mas não gira chaves.

Isso
ainda é com alguém.