Avatar de Desconhecido

Chuva de Setembro

Cai fina a chuva
sobre o vidro sem pressa –
o mundo emudece.
Alguma dor antiga
se dissolve na poça.

Avatar de Desconhecido

Meu nome

Digo meu nome
para atender o telefone.
Estranho pensar
que a palavra mais antiga
é também empréstimo.

Avatar de Desconhecido

Sem destino

Folha no asfalto.
O vento escolhe por ela
a próxima esquina.
Nem toda viagem precisa
saber para onde vai.

Avatar de Desconhecido

Sem plateia

Ônibus vazio.
A manhã atravessa a rua
sem anunciar-se.
Nenhum olhar acompanha
a chegada silenciosa.

Avatar de Desconhecido

Sem testemunhas

Lua no telhado.
Um morcego cruza a noite
sem fazer som.
A cidade nem percebe
que alguém esteve aqui.

Avatar de Desconhecido

Cartografia

Amo como os faróis:

não prendem navios,
não seguram o mar,
apenas permanecem acesos.

Alguns barcos passam.
Outros ficam.

Mas a luz
não aprende a ser menos luz
por causa disso.

Avatar de Desconhecido

Céu

Poça de chuva:
um pardal bebe o céu
que nela caiu.
Passa a bicicleta e
o céu se desfaz em ondas.

Avatar de Desconhecido

O resgate

Há um homem afogado
que aprendeu, por fim,
a nadar sozinho —
não pelas ondas que o empurram,
mas pela lembrança antiga
de que os braços que o seguram
sempre foram os seus.

Toda fortaleza tem um portão
que só abre por dentro,
uma fechadura sem chave alheia,
um muro que ergueu-se justamente
para que ninguém de fora
decidisse quando ele cai.

Todo náufrago carrega,
sem saber, o mapa
de uma ilha que é ele mesmo —
terra firme escondida
sob a própria pele encharcada,
esperando apenas
que ele pare de nadar em direção ao horizonte
e comece a nadar para dentro.

Nenhuma chama se atravessa
pelas mãos de outro —
o fogo se atravessa a sós,
e do outro lado
descobre-se que a proteção
era feita da própria pele,
mais forte do que se imaginava.

Avatar de Desconhecido

Não vai

Vou embora.

Não porque o amor morreu, mas porque ficou sozinho. Porque uma casa não se sustenta quando só um dos lados faz o caminho.

Vou embora com as mãos ainda cheias de vontade. Ainda sabendo de cor tua voz, teus silêncios, e as pequenas coisas que ninguém mais sabe.

Há uma crueldade discreta em partir querendo ficar. Em fechar a porta olhando para trás.

Fui embora devagar, quase como quem se perde de propósito.

A cada passo, deixava uma última chance sobre o caminho.

Porque partir, às vezes, é também uma pergunta.

E eu queria que você respondesse.

Queria ouvir teu coração atravessar a distância e dizer:

não vai.

Mas vieram apenas os ruídos da noite,

e então compreendi:

existem despedidas que acontecem muito antes de alguém partir.

E o que mais dói não é a falta que você vai me fazer.

É a falta que você já fazia enquanto eu ainda estava aqui.

A verdade é que eu não fui embora hoje.

Hoje apenas dei nome a uma distância que já existia havia muito tempo.

E então eu fui.

Não para te esquecer, nem para provar alguma coisa.

Fui porque me perdi de mim tentando encontrar espaço em tua vida.

E talvez essa seja a despedida mais triste:

não a de quem deixa de amar,

mas a de quem continua amando e, mesmo assim, precisa partir.

Porque às vezes a relação acaba primeiro.

E o amor, teimoso como sempre, fica um pouco mais.

Sentado na varanda da memória,

vendo o trem partir,

sem coragem de embarcar.

Avatar de Desconhecido

A primeira onda da manhã – Parte III da Trilogia O Ritmo da Água

Antes que o dia encontre seu rumo,
o mar já está desperto.

A primeira onda chega sem alarde,
toca a areia
e volta para a água
como quem apenas cumpre seu ofício.

Não traz respostas.
Não desfaz ausências.
Não corrige o que passou.

Ainda assim, vem.

O horizonte se ilumina devagar,
o vento muda de direção,
e as gaivotas retomam seus círculos sobre o mar.

Tudo parece dizer a mesma coisa:

comece.

Mesmo sem certezas.
Mesmo sem entender todos os silêncios.
Mesmo carregando perguntas que ficaram pelo caminho.

Porque a manhã não exige explicações.
Pede apenas presença.

E eu também sigo adiante,

como a primeira onda do dia,

que não precisa ser maior que as outras

para lembrar ao mundo

que o mar continua.