Avatar de Desconhecido

Chama despida

Teu lábio quente na minha pele desliza,
Desperta o fogo que queima o lençol,
Teu sussurro suave é como a brisa,
Que nos consome antes do pôr do sol.

Minhas mãos te buscam nas sombras escuras,
No compasso lento de uma respiração,
Nossas bocas provam texturas puras,
Na urgência extrema da nossa atração.

O suor brilha no escuro do quarto,
Nesse ritmo louco que nos conduz,
De cada traço teu eu nunca me farto,
Sendo teu corpo minha única luz.

Avatar de Desconhecido

Teu abraço

Há um lugar onde o mundo perde a pressa.

Não é uma cidade. Não é uma casa. Não é um sonho.

É teu abraço.

Quando me recolhes entre os teus braços, o tempo parece esquecer seu ofício. As horas deixam de correr e tudo o que existe é o calor da tua pele junto à minha, o perfume que reconheço de olhos fechados e a certeza silenciosa de que nada me falta.

Poucas pessoas sabem o que é amar alguém a ponto de encontrar paz apenas na sua proximidade.

Eu sei.

Porque existe uma felicidade que mora no som da tua voz, outra no brilho dos teus olhos, mas a mais bonita de todas mora no instante em que me abraças.

Nesse momento, não existe passado. Não existe futuro.

Existe simplesmente o milagre de estar contigo.

Teu abraço tem a delicadeza das coisas que curam sem prometer cura. Ele não apaga as cicatrizes da vida, mas faz com que eu me esqueça delas por alguns instantes. E, enquanto repouso junto a ti, sinto que todos os caminhos que percorri me trouxeram exatamente para ti.

Porque é isso que encontro em teu abraço.

Não apenas carinho.

Não apenas desejo.

Mas a rara e bela combinação dos dois.

A ternura que acalma e a paixão que incendeia.

A paz de quem chegou em casa e a vertigem de quem continua apaixonado.

Em teus braços, não preciso escolher entre abrigo e fogo.

Encontro ambos.

Pertencimento.

E talvez amar seja exatamente isso: passar a vida inteira procurando um lugar onde a alma possa descansar e, um dia, descobrir que esse lugar tem o nome da pessoa amada.

O teu nome.

E o teu abraço.

Avatar de Desconhecido

Sashimi

Não tenho culpa
de te seguir com os olhos,
enquanto você repousa
do outro lado da mesa.

Tua boca pede,
teu perfume invade,
teu pescoço puxa,
teu silêncio cobra:
tudo em ti pulsa.

Você entrega tudo no olhar.

Desejo cru.

E nenhum de nós dois sabe —
ou quer —
fugir disso.

Avatar de Desconhecido

Aprendiz

Me desculpa por aquilo que eu não disse,
Quando te amei, virei para o lado, e adormeci.
Eu diria no dia seguinte,
Da mesma forma de sempre,
Com a mesma vontade de sempre,
Em um dialeto que só tu serias capaz de entender.

Me desculpa se, no meu cansaço,
Relaxei nos teus braços, triunfante,
Radiante, eufórico, vitorioso,
Sentindo ainda o torpor do nosso gozo,
Teu cheiro em meu corpo,
Meu coração em tuas mãos.

Me desculpa pela minha verdade,
Pela minha ingênua sinceridade,
Por nunca ter te ocultado nada,
Por ser simples, previsível, correto,
Do meu amor estar sempre certo,
Sempre homem, todo teu.

Me desculpa por não ter te traído,
Por em nenhum momento ter te esquecido,
Por te achar a mais linda de todas,
De todas as que eu nunca quis,
E que diziam, me fariam – quem sabe – feliz!
Mas não eram como eras, como sou.

Agora que fostes embora,
Abraço-me á solidão de minhas horas,
Revelando-me aos poucos, sem pressa,
Para o mundo, que com todas as portas abertas,
Me acolheu, me convidou, me escolheu,
Para ser do amor um eterno aprendiz.

bertrand_russel_temer_o_amor_e_temer_a_vida_e_os_que_temem

Avatar de Desconhecido

Luz

Depois da chama,

permanece a claridade.

Nada se perde.

Nos teus braços descubro

que o amor também ilumina.

Avatar de Desconhecido

Sismologia

Sinto o teu gotejar no meu rosto,

E logo sorvo da tua cadência,

Afogando-me em teu ritmo,

Que se alterna do piano ao fortissimo,

Fazendo verter teus pensamentos.

.

Minha boca conversa com teus lábios,

E na busca do que tens por dentro,

Falo línguas ainda não criadas,

Provocando a origem dos teus tremores:

Teu entumecido epicentro.

.

E para que tudo bem se acabe,

Tua boca engole meus argumentos,

A verborragia escorre em teu paladar,

Não paro de falar,

És um tormento!

Avatar de Desconhecido

Sempre

E se um dia a gente se desencontrar,
guarda uma coisa:

eu nunca fiz sexo com você.
eu sempre fiz amor.

em cada toque,
em cada proposta,
em toda e qualquer sacanagem —

sempre amor.

porque tudo isso
nasceu do mesmo lugar:

amor.

e isso eu nunca tinha vivido com ninguém.

guarda isso contigo,
mesmo que a gente se desencontre.

sempre amor.

sempre.

Avatar de Desconhecido

Rendição

rendo-me também
ao que em você me encontra

sem defesa,
sem medida

teu sorriso me chama
pelo meu nome

e eu vou
inteiro

sem volta,
sem recuo

há em mim essa entrega
crua, exposta

um querer que não se contém,
que não pede razão

teus mistérios me tomam
teu mundo me envolve
me atravessa
me desarma
e eu me deixo
porque já não sei existir
onde tu não estejas

te tenho em mim
não como abrigo
mas como munso vasto
onde me perco
onde me encontro
onde já não sei me separar
de ti

te querer
é também febre de mim,
por mim

é excesso
é vertigem
é queda
e ainda assim
é onde descanso
do princípio
até o fim

Avatar de Desconhecido

Febril


há também tempestades em mim

não contidas —
apenas vivas
no que insiste em atravessar

teu eco rompe minhas madrugadas
sem aviso,
sem rumo,
sem descanso

e eu também permaneço desperto
mesmo quando o corpo cede

precipito, sim —
não por falta de ver,
mas por não caber em mim

entre fé e futuro
também me perco

e o repouso me escapa
pelas mesmas frestas
onde tua ausência insiste

te tenho em mim —
não como escolha,
mas como algo que fica e é

a falta de você
também me revira
também me atravessa

e me encontra
onde eu já não sabia existir

te querer em mim
arde igual

é febre,
é excesso,
é o que não se aquieta

e, no meio disso tudo,
eu não peço alívio

a nossa diferença?

eu tenho uma febre que aprendeu
a não pedir cura

Avatar de Desconhecido

Mundo vasto

Teu mundo me abre:

perco-me para encontrar-te

onde já sou nós.