Avatar de Desconhecido

Permaneço

porque há um tanto de ti que se acende em mim,
que atravessa minha pele de dentro para fora,
mesmo quando o dia é silêncio.

teu nome repousa no meu pensamento,
como quem encontra definitiva estada.

teu perfume — memória viva —
desenha caminhos no ar que me levam até ti.

e quando teu sorriso atravessa minha lembrança,
meu mundo se rearranja,
como se soubesse onde deve estar.

teu toque, ainda que distante,
move meus desejos
como vento que conhece direção.

e nesse espaço que era só meu,
tu chegaste sem pedir,
e permaneceste.

minha vida, agora,
não apenas te espera:
te quer.

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A tua alegria

Que o dia te encontre leve.

Que as horas te sejam gentis, e que a vida te trate com a ternura que mereces, aliviando o peso dos teus ombros.

Não peço lugar em teus caminhos.

Não agora.

Basta-me saber que há riso em tua casa, que o café não esfria sozinho, que a esperança ainda visita os teus domingos.

Há amores que desejam ser destino único.

O meu, não.

O meu aprende, devagar, que também é uma forma de amar:

alegrar-se quando a felicidade chega até ti,

mesmo que venha por estradas onde eu não sigo.

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Salivo-te

Marés na minha boca.
A Lua à minha frente. 
E eu, inútil,
contra a natureza.

Guia-me.

Leva-me.

És a força.

A gravidade da Lua
sobre as marés.

Tudo o que move.
Tudo o que transborda.

E a estranha certeza
de que nada mais falta.

Avatar de Desconhecido

Sismologia

Sinto o teu gotejar no meu rosto,

E logo sorvo da tua cadência,

Afogando-me em teu ritmo,

Que se alterna do piano ao fortissimo,

Fazendo verter teus pensamentos.

.

Minha boca conversa com teus lábios,

E na busca do que tens por dentro,

Falo línguas ainda não criadas,

Provocando a origem dos teus tremores:

Teu entumecido epicentro.

.

E para que tudo bem se acabe,

Tua boca engole meus argumentos,

A verborragia escorre em teu paladar,

Não paro de falar,

És um tormento!

Avatar de Desconhecido

Sempre

E se um dia a gente se desencontrar,
guarda uma coisa:

eu nunca fiz sexo com você.
eu sempre fiz amor.

em cada toque,
em cada proposta,
em toda e qualquer sacanagem —

sempre amor.

porque tudo isso
nasceu do mesmo lugar:

amor.

e isso eu nunca tinha vivido com ninguém.

guarda isso contigo,
mesmo que a gente se desencontre.

sempre amor.

sempre.

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Até

Eu te prometo:

.

.

.

.

.

.

.

Tudo isso.

Até o dia que eu morrer.

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Calor em suspenso

o vinho repousa
intocado,
como se aguardasse
um gesto que não vem

o frio entra devagar,
sem anúncio,
ocupando os espaços
onde antes havia cheiro e cor

há uma distância
que não se explica

não está nas ruas,
nem no tempo

mas no que deixa
de chegar

e tudo continua:

a noite,
o inverno,
o silêncio –
o próprio vinho

como se fosse natural

como se tivesse de ser assim

e é nisso que algo falha

porque ainda há calor
em algum lugar

ainda há presença
no que não foi dito

e, ainda assim,

não se aproxima,
não se aconchega

por que precisa esfriar
e ainda assim não acontecer?

por que precisa ser no inverno,
justo quando é mais propício vinho?

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Ainda

Talvez eu ainda não saiba
atravessar tudo isso
como poderia.

Há momentos em que peso
quando bastava
tocar mais leve.

E, se é assim,
eu sinto muito.

Não como culpa,
mas como quem percebe
que a dor também desvia
o gesto
e silencia.

Mesmo assim,
há algo em mim
que não se move.

Eu te quero
com verdade.

Estou contigo,
inteiro no que sou,
o que não significa
que eu não possa ser mais.

Há algo entre nós
que não se divide,
não se explica,
não se oferece ao mundo.

A verdade,
essa que não precisa ser dita:

é nossa.

E de mais ninguém.

E, por isso,
não há espaço
para o que vem de fora,
nem para o que tenta ocupar
o que nunca foi seu lugar.

Há o que é nosso.

E isso
permanece

intocável.

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Rendição

rendo-me também
ao que em você me encontra

sem defesa,
sem medida

teu sorriso me chama
pelo meu nome

e eu vou
inteiro

sem volta,
sem recuo

há em mim essa entrega
crua, exposta

um querer que não se contém,
que não pede razão

teus mistérios me tomam
teu mundo me envolve
me atravessa
me desarma
e eu me deixo
porque já não sei existir
onde tu não estejas

te tenho em mim
não como abrigo
mas como munso vasto
onde me perco
onde me encontro
onde já não sei me separar
de ti

te querer
é também febre de mim,
por mim

é excesso
é vertigem
é queda
e ainda assim
é onde descanso
do princípio
até o fim

Avatar de Desconhecido

Febril


há também tempestades em mim

não contidas —
apenas vivas
no que insiste em atravessar

teu eco rompe minhas madrugadas
sem aviso,
sem rumo,
sem descanso

e eu também permaneço desperto
mesmo quando o corpo cede

precipito, sim —
não por falta de ver,
mas por não caber em mim

entre fé e futuro
também me perco

e o repouso me escapa
pelas mesmas frestas
onde tua ausência insiste

te tenho em mim —
não como escolha,
mas como algo que fica e é

a falta de você
também me revira
também me atravessa

e me encontra
onde eu já não sabia existir

te querer em mim
arde igual

é febre,
é excesso,
é o que não se aquieta

e, no meio disso tudo,
eu não peço alívio

a nossa diferença?

eu tenho uma febre que aprendeu
a não pedir cura