Avatar de Desconhecido

Permaneço

porque há um tanto de ti que se acende em mim,
que atravessa minha pele de dentro para fora,
mesmo quando o dia é silêncio.

teu nome repousa no meu pensamento,
como quem encontra definitiva estada.

teu perfume — memória viva —
desenha caminhos no ar que me levam até ti.

e quando teu sorriso atravessa minha lembrança,
meu mundo se rearranja,
como se soubesse onde deve estar.

teu toque, ainda que distante,
move meus desejos
como vento que conhece direção.

e nesse espaço que era só meu,
tu chegaste sem pedir,
e permaneceste.

minha vida, agora,
não apenas te espera:
te quer.

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Onde não fui dito

Eu vi:
um gesto simples, público, permitido.
E entendi, enfim,
o que você nunca disse.

Não era sobre o mundo.
Nem sobre os outros.
Nem sobre tempo.

Era sobre mim.

Sobre o lugar que eu não tinha.

Porque estar ao seu lado
exigiria algo que nunca veio:
um nome,
um lugar à luz,
um gesto que dissesse –
sem esforço –
“é ele.”

E o que mais dói
não é a ausência da declaração,
mas o fato de que
ela nunca foi sequer pensada.

Passei tanto tempo
tentando caber nisso…

Fazendo mais,
dizendo melhor,
oferecendo o que eu tinha
e o que nem tinha direito de dar,
como se fosse possível,
em algum ponto,
me tornar visível.

Mas não era sobre esforço.

Nunca foi.

Eu me perdi
tentando provar algo
que já era meu.

E hoje eu sei,
com uma clareza que chega tarde:
eu era suficiente.

Só não era para você.

E há algo profundamente injusto nisso:
ser abrigo
sem ter casa.

Ser chamado quando falta
e ignorado quando sobra.

Existir nas sombras
de uma história
que nunca pôde me ter inteiro.

Você sabia.
Em algum nível, sempre soube.

E ainda assim,
esperava de mim segurança
num terreno onde
o chão nunca foi firme.

Tudo o que eu quis –
e não foi pouco, mas também não foi demais –
foi o direito simples
de existir ao seu lado.

Não como exceção.
Não como pausa.
Mas como escolha.

E isso
você nunca me deu.

Então eu fico com o que resta:
não a ausência,
não só a saudade,
mas a certeza dura
de que o amor
não sustenta
aquilo que não é assumido.

E o que mais lamento,
não é o fim.

É nunca ter tido, de fato,
um início verdadeiro.

Porque, no fim,
o que você me tirou
não foi apenas você.

Foi a chance
de ser, ao seu lado,
aquilo que eu sei que sou:

Inteiro.

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Ainda assim (2)

Força não é sustentar a aparência.

É deixar cair,

e, ainda assim,

existir.

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Coisas todas

Algumas coisas não são

Até porque seriam

Se tivessem que ter sido.

E isso basta:

É resposta

É verdade

É.

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Quero apenas ser

Mais do que querer,

Também quero ser querido.

Escolhido pelo que sou

E também pelo que nunca fui.

Escolhido pelo que ainda posso ser,

Pelo que ainda posso viver,

Pelo que ainda posso dar,

Pelo que ainda posso receber.

Não quero ser necessário ou importante,

Muito menos comandante.

Na hierarquia da vida, quero apenas ser,

E viver rodeado de quem quer ser comigo.

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Bora viver!

Já tive mais cabelo, mas também já tive mais medos. A idade vem com seus prós e seus contras.

Somos ensinados desde cedo a pertencer, o que esconde muitas vezes as ginásticas e malabarismos que precisamos fazer para sermos aceitos, pois a aceitação dos outros é pré-requisito para o pertencimento.

A família, a igreja, a escola, o time, a visão política. Quantos sacrifícios feitos em nome do pertencer?

E se ao invés de pertencer, decidirmos apenas ser? Um ato de coragem, de bravura, que não vem sem dor ou mesmo sem despedidas. Entretanto, a vida me ensinou que quando somos, sabemos que tudo que nos resta é verdadeiramente nosso, e isso se chama liberdade, independência.

Sejamos, então, e se calhar de pertencermos, ótimo. Caso contrário, paciência. Bora viver!

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Basta deixar

Vou te chamar de esperança e te convidar para jantar.

Vou te mandar rosas vermelhas e bombons de licor para acompanhar.

Vou te dar bom dia e o teu dia abençoar.

Vou te ouvir com atenção e teus segredos abraçar.

Vou me aninhar em teus braços e me apaixonar.

E pode acreditar: será de verdade.

É só o teu coração deixar.

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Dias

Escolher-te-ei todos os dias

Até que chegue o fim dos meus dias

Porque quando não estás em meus dias

É como se dias não houvesse.

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Qualquer lugar

Tenho medos infantis

Coragens imensas

Defeitos singulares

Qualidades intensas

Tudo faz de mim o que sou

Tenho uma sensibilidade aguçada

Percebo coisas mesmo sem querer

Não sou capaz de sorrir quando estou triste

Não sou capaz de fingir o que não sei ser

E assim, deste jeito ímpar

Disponho-me a ser seu par

Nos piores e nos melhores momentos

Em todas as dimensões do que é amar

Nas lágrimas e nas risadas

Nas faxinas e nos pratos por lavar

Nos boletos e nas mancadas

Nos olhos fechados do beijar

Por isso beija-me

Porque não estou de passagem

Cheguei para contigo seguir viagem

Rumo a todo e qualquer lugar

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Sem você

Vinho sem você não tem contexto.