Avatar de Desconhecido

Herança

Ninguém fala dos minutos.

Eles partem discretamente, como moedas esquecidas no fundo dos bolsos.

Talvez porque o tempo seja a herança mais estranha:

recebemo-la aos poucos, enquanto a desperdiçamos sem perceber.

Uma manhã.

Uma conversa.

Um café.

Outra conversa.

Uma tarde qualquer.

E então um dia percebemos:

a vida não levou os anos.

Levou os instantes.

Tudo pode regressar.

Uma estação.

Uma casa.

Certos caminhos.

Mas nunca o minuto exato em que o mundo esteve em nossas mãos.

E quando enfim compreendemos,

já é tarde para guardar o que só existia enquanto passava.

Tarde para a tarde.

Tarde para o minuto.

Tarde para mais outra conversa.

Tarde para aquilo que pensávamos que estaria sempre ali.

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A tua alegria

Que o dia te encontre leve.

Que as horas te sejam gentis, e que a vida te trate com a ternura que mereces, aliviando o peso dos teus ombros.

Não peço lugar em teus caminhos.

Não agora.

Basta-me saber que há riso em tua casa, que o café não esfria sozinho, que a esperança ainda visita os teus domingos.

Há amores que desejam ser destino único.

O meu, não.

O meu aprende, devagar, que também é uma forma de amar:

alegrar-se quando a felicidade chega até ti,

mesmo que venha por estradas onde eu não sigo.

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Febril


há também tempestades em mim

não contidas —
apenas vivas
no que insiste em atravessar

teu eco rompe minhas madrugadas
sem aviso,
sem rumo,
sem descanso

e eu também permaneço desperto
mesmo quando o corpo cede

precipito, sim —
não por falta de ver,
mas por não caber em mim

entre fé e futuro
também me perco

e o repouso me escapa
pelas mesmas frestas
onde tua ausência insiste

te tenho em mim —
não como escolha,
mas como algo que fica e é

a falta de você
também me revira
também me atravessa

e me encontra
onde eu já não sabia existir

te querer em mim
arde igual

é febre,
é excesso,
é o que não se aquieta

e, no meio disso tudo,
eu não peço alívio

a nossa diferença?

eu tenho uma febre que aprendeu
a não pedir cura

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Domingo, fim de tarde

Domingo amanhece com teu cheiro, 
um perfume leve de sol na pele, 
como se o dia inteiro 
fosse feito para te encontrar.

Tem gosto de beijo lento, 
daqueles que não têm pressa, 
que sabem exatamente 
onde morar na boca do outro.

Tem abraço que encaixa, 
que fecha o mundo lá fora 
e abre um lugar secreto 
onde só cabem dois.

Tem lugares que viram nossos, 
mesmo que sejam simples: 
a varanda, a rua vazia, 
a sombra de uma árvore qualquer. 
Tudo ganha brilho 
quando tua lembrança passa por ali.

E tem o tempo — 
esse velho teimoso — 
que no domingo parece aprender 
a caminhar no ritmo do amor, 
sem urgência, sem medo, 
só com vontade de ficar.

Porque algumas lembranças 
não doem, não pesam, não partem. 
Apenas aquecem. 
E as tuas, meu bem, 
aquecem como sol de fim de tarde.

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Mundo vasto

Teu mundo me abre:

perco-me para encontrar-te

onde já sou nós.

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Campo não atingido – Haiku

Insisto, não há

lugar onde eu caiba

e sigo inteiro.

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Desvio

Dia sem promessa:

no meio do silêncio,

algo respirou.

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Ainda assim

Alguns dias são muito difíceis.

A dor não vem leve.
Ela pesa.
O corpo sente antes mesmo do pensamento conseguir se organizar.
O peito aperta.
O ar falha.
Há momentos em que tudo parece próximo de parar.

E surge a pergunta:
“O que eu fiz para merecer isso? Aonde foi que eu errei?”

Há momentos em que eu gostaria de ser o culpado —
inteiramente responsável —
apenas para ter o que mudar,
para ter por onde começar.

Mas nem sempre existe causa clara.

A dor não bate à porta.
Ela entra.
E ocupa.

Não há para onde ir.
Não há como evitar.
Não há argumento que alivie,
nem distração que alcance.

Resta apenas atravessar.

Atravessar com o que ainda resta de mim,
Com respeito e dignidade,
sem negar o que foi vivido,
sem diminuir o que senti.

Porque algumas dores não são pequenas.
Não são passageiras.
São daquelas que atravessam por inteiro —
corpo, memória, silêncio —
e por alguns instantes,
parecem não ter fim.

E ainda assim… a dor cede.

Não porque deixamos de sentir,
mas porque algo em nós aprende a suportar.

E quando ela cede,
já não somos mais os mesmos.

Talvez mais firmes.
Talvez mais conscientes.

Sobretudo, ainda de pé.
Ainda assim.

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Sem amarras

Céu sem amarras:

o que parte de mim

volta vento.

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Sem memória do escuro

O sol não pergunta:
apenas retorna.

Mesmo depois
de noites mais densas,
ele atravessa o horizonte
sem memória do escuro.

Há algo nisso.

Não promessa,
não certeza:
apenas o fim
daquilo que se repetia
e ainda se encerra.

A luz toca
onde ainda não havia forma
e, sem aviso,
desenha caminhos improváveis.

Não é milagre.

É possibilidade.

E basta.