Não cheguei com o aço. Vim depois, quando o brilho já se cansara, e enquanto a tinta descascava e partia, fui ficando.
Fui testemunha do que ninguém velou: o óleo escuro que um dia me encheu e secou, o galpão que se fechou e nunca mais abriu, o silêncio que foi tomando conta de tudo.
E o óleo, que pensei perdido no fundo, voltou anos depois na minha pele de ferro — não mais escuro, mas vermelho, como sangue que a espera fez subir à superfície.
Os invernos vieram pra me arrancar. Vieram todos, um por um, e um por um foram embora. Eu continuei.
Não me confundam com a morte do ferro. Sou o que nele resistiu, a cor teimosa de uma promessa que ninguém mais lembrava ter feito.
Me chamam de ruína. Mas ruína é o que abandona. Eu sou a parte que ficou quando tudo o mais aprendeu a ir embora.
Dizem que o tempo sozinho faz florescer o chão, mas a primavera não visita o jardim sem intenção. Nenhum fruto nasce por mera contemplação, nem a terra se cobre de verde sem a mão.
A vida corre leve, sem pedir explicação, e leva junto o sonho que ficou na estação. Esperar não é o mesmo que seguir na direção, pois há caminhos que se perdem pela indecisão.
Eu sei que tudo passa, essa é a única lição, e a vida não espera pela nossa indecisão. Há sonhos que se perdem na força da omissão, enquanto o tempo segue, alheio ao coração.
O futuro não pertence ao tempo; pertence à coragem de quem semeia.
Quando me recolhes entre os teus braços, o tempo parece esquecer seu ofício. As horas deixam de correr e tudo o que existe é o calor da tua pele junto à minha, o perfume que reconheço de olhos fechados e a certeza silenciosa de que nada me falta.
Poucas pessoas sabem o que é amar alguém a ponto de encontrar paz apenas na sua proximidade.
Eu sei.
Porque existe uma felicidade que mora no som da tua voz, outra no brilho dos teus olhos, mas a mais bonita de todas mora no instante em que me abraças.
Nesse momento, não existe passado. Não existe futuro.
Existe simplesmente o milagre de estar contigo.
Teu abraço tem a delicadeza das coisas que curam sem prometer cura. Ele não apaga as cicatrizes da vida, mas faz com que eu me esqueça delas por alguns instantes. E, enquanto repouso junto a ti, sinto que todos os caminhos que percorri me trouxeram exatamente para ti.
Porque é isso que encontro em teu abraço.
Não apenas carinho.
Não apenas desejo.
Mas a rara e bela combinação dos dois.
A ternura que acalma e a paixão que incendeia.
A paz de quem chegou em casa e a vertigem de quem continua apaixonado.
Em teus braços, não preciso escolher entre abrigo e fogo.
Encontro ambos.
Pertencimento.
E talvez amar seja exatamente isso: passar a vida inteira procurando um lugar onde a alma possa descansar e, um dia, descobrir que esse lugar tem o nome da pessoa amada.
Tenho pensado bastante sobre o papel do tempo em nossas vidas.
Há coisas que, sem dúvida, precisam dele. Algumas feridas cicatrizam aos poucos. Certos entendimentos amadurecem apenas depois que os dias passam. O tempo tem a capacidade de revelar, transformar e dar profundidade ao que antes era apenas possibilidade.
Mas, quanto mais observo a vida, mais percebo que ele talvez não seja o protagonista que costumamos imaginar.
Penso em um jardim e uso essa metáfora com frequência. A semente não floresce de um dia para o outro. A chuva, as estações e a passagem dos meses são parte indispensável do processo. Ainda assim, nada disso acontece sem o pequeno gesto inicial de plantar.
Talvez muitas coisas sejam assim.
O tempo tem a capacidade de amadurecer os caminhos que escolhemos, mas não de escolher por nós. Algumas coisas dependem dos dias; outras dependem da coragem de dar o primeiro passo.
Talvez eu pense dessa forma porque a vida me ensinou muito cedo que ela é mais breve do que gostararíamos e que, no cotidiano, raramente nos damos conta dessa brevidade. Recentemente me dei conta de que já tive dezoito anos e que hoje tenho cinquenta e quatro. Não foi uma descoberta, mas um espanto. Os anos não passaram de uma vez; passaram um dia de cada vez.
Talvez essa percepção também venha das pessoas que encontrei pelo caminho. Perdi um irmão quando ele tinha apenas oito anos de idade. Em contrapartida, minha bisavó viveu até os noventa e seis, apreciando seu vinho quase todos os dias. Entre uma história e outra existe um mistério que jamais compreendi completamente. A vida parece seguir seus próprios critérios, muitas vezes indiferente aos nossos planos, cuidados ou expectativas.
Foi talvez essa constatação que me ensinou a desconfiar da abundância do tempo. Aprendi que o amanhã é uma esperança, não uma promessa. Por isso, passei a valorizar menos as possibilidades futuras e mais os gestos presentes.
Não por impaciência, mas porque acredito que o futuro nasce, de alguma forma, daquilo que fazemos hoje.
No fim, talvez o tempo seja menos uma solução e mais um companheiro de jornada. Ele caminha ao nosso lado, oferecendo oportunidades para que as coisas floresçam. Mas continua sendo nossa a escolha de semear ou não.
E enquanto ele segue seu curso silencioso, a vida acontece. E desacontece também.
Como um móvel esquecido numa casa que ainda guarda calor, mas que já não sustenta presença.
O que se perde antes é a delicadeza de reconhecer o outro como território, como extensão: um mapa mínimo, íntimo, que se dobra, se fecha, e deixa de ser lido.
É esquecido.
De repente, você fala e a sua voz não pousa.
Paira.
Não há queda, nem choque, só um deslocamento lento das coisas, como se o mundo, exausto, desaprendesse o equilíbrio de dois.
O amor, então, persiste por debaixo, quase brasa sob cinza. Mas amar sozinho é um silêncio com memória: isso pesa, dói.
Há um instante — quase cego — em que você se percebe menor, ajustando arestas, apagando excessos, pisando em ovos para caber no resto.
E é ali, nesse quase nada, que algo insiste: não é orgulho, não é dor nem fúria: é precisão. Uma lembrança exata de quem você é quando inteiro.
E isso não se negocia.
Ir embora não rompe o que houve: expõe a falta do que sustentava.
Porque há amores que continuam mesmo depois de esquecidos no corpo do outro, mas nenhum atravessa o tempo sem o mínimo gesto de reconhecimento.
Então você fecha a porta devagar, como quem ainda alinha os objetos antes de sair.
(não se quebra o que fica)
E depois, sem anúncio, já em outra paisagem, o corpo se refaz: aprende de novo o espaço, a medida, o direito simples de existir inteiro.
E, pouco a pouco, sem que se perceba, o mundo volta a oferecer passagem.
Não é o mesmo gesto. Não é o mesmo nome.
É apenas isso: alguém que sustenta o olhar – e fica.