Não é o amor que acaba primeiro.
Ele fica.
Como um móvel esquecido
numa casa que ainda guarda calor,
mas que já não sustenta presença.
O que se perde antes
é a delicadeza de reconhecer o outro
como território, como extensão:
um mapa mínimo, íntimo,
que se dobra, se fecha,
e deixa de ser lido.
É esquecido.
De repente, você fala
e a sua voz não pousa.
Paira.
Não há queda, nem choque,
só um deslocamento lento das coisas,
como se o mundo, exausto,
desaprendesse o equilíbrio de dois.
O amor, então, persiste
por debaixo,
quase brasa sob cinza.
Mas amar sozinho
é um silêncio com memória:
isso pesa, dói.
Há um instante — quase cego —
em que você se percebe menor,
ajustando arestas,
apagando excessos,
pisando em ovos
para caber no resto.
E é ali,
nesse quase nada,
que algo insiste:
não é orgulho,
não é dor nem fúria:
é precisão.
Uma lembrança exata
de quem você é quando inteiro.
E isso não se negocia.
Ir embora
não rompe o que houve:
expõe a falta do que sustentava.
Porque há amores que continuam
mesmo depois de esquecidos
no corpo do outro,
mas nenhum atravessa o tempo
sem o mínimo gesto
de reconhecimento.
Então você fecha a porta devagar,
como quem ainda alinha os objetos
antes de sair.
(não se quebra o que fica)
E depois, sem anúncio,
já em outra paisagem,
o corpo se refaz:
aprende de novo o espaço,
a medida,
o direito simples
de existir inteiro.
E, pouco a pouco,
sem que se perceba,
o mundo volta a oferecer passagem.
Não é o mesmo gesto.
Não é o mesmo nome.
É apenas isso:
alguém que sustenta o olhar
– e fica.
E ali,
sem esforço,
o encontro acontece.










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