Avatar de Desconhecido

Quase igual

O tempo desloca o que parecia ficar,
quase sem aviso, altera o sentir.
O que antes cabia começa a não estar,
sem que se nomeie o gesto de partir.

Há gestos que já não encontram lugar,
palavras que soam sem o mesmo tom.
O que antes vibrava aprende a calar,
e a antiga presença recua no som.

Mas algo persiste sem buscar lugar,
um traço difuso que insiste em seguir.
Não volta ao que foi nem deixa de estar,
apenas se inclina ao que é existir.

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O tempo decide

Entre dois destinos,

o coração hesita:

o tempo decide.

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Sakura

Sob a flor de cerejeira,
o tempo não pesa: flutua.

As pétalas caem sem drama,
como quem aceita partir
antes mesmo de ficar.

E ali, entre um sopro e outro,
você existia:
leve,
inteira,
quase impossível de nomear.

Havia algo no seu olhar
que não pedia futuro: apenas presença.

Como as sakuras:
breves,
delicadas,
inesquecíveis não por durarem,
mas por acontecerem.

E eu,
entre a queda de uma pétala
e o silêncio seguinte,
entendi:

Alguns encontros
não são feitos para permanecer,
mas para florescer dentro.

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Vestígios

Entre cartas antigas,

Descansam sopros de vida,

Papéis que ainda guardam

O calor de mãos ausentes.

.

A tinta, já um pouco desbotada,

Sussurra palavras que não envelhecem,

Feito promessas suspensas

No fio delicado da memória.

.

E ali, entre dobras amareladas,

Repousam as fotografias:

Janelas silenciosas do passado,

Onde o tempo se esqueceu de ir embora.

.

Rostos presos em um instante,

Olhares que ainda falam,

Sonhos e sorrisos congelados no ar,

Ecoando pela eternidade.

.

Cartas e fotografias

Adiam e permeiam o tempo:

Quer seja na trama das palavras,

Ou nas imagens de sepulcral silêncio.

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O inventário do silêncio

Os dias de espera
Me prepararam
Para os dias
De nunca mais.

Dias que o tempo levou
E que o vento não mais traz.

Há um silêncio novo na casa,
Que a longa espera ensinou,
O tempo, que antes era brasa,
Cinza mansa se tornou.

Não é o fim da estrada que vejo,
Mas o fim de um modo de andar.
Guardo no peito o meu amor e desejo,
Para em silêncio observar.

São os dias de nunca mais ser o mesmo,
Para que a verdade possa, enfim, chegar.

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Só repare

Repare em mim

Em você

Em nós

Na gente

No que você sente

Por conta de existirmos.

.

Não deixe

Para nos sentir

Na saudade

Porque ela ensina e revela

Mas é professora arrastada

Que geralmente chega muito tarde.

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De passagem

A vida passa, meu bem.

Passaremos a vida a deixar

A vida simplesmente apressada passar?

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O tempo

O tempo –

Essa caixa imaterial em que vivemos –

Que vai da ordem ao caos em instantes.

Fascinantes os acham que o tempo é amigo, ou abrigo, ou qualquer coisa do tipo.

O tempo está sempre indo, e com sorte vira memória, história ou arrependimento.

O tempo é a vida indo em direção à morte sem precisar de nenhum consentimento e sem qualquer constrangimento.

E quando damos por nós, foi-se o tempo. Também fomos nós. Não há alento.

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Antecipado

Fiz o combinado:

Amei-te para sempre.

.

Nos dias de chuva,

Nos dias ensolarados,

Nos dias nublados,

Nos dias que ainda não chegaram.

.

Sim, amor antecipado.

Por que esperar para amar,

Se esperar para amar

É amar atrasado?

.

Amei-te hoje,

Amei-te amanhã,

Como amei-te no passado.

.

Tempos verbais não tem voz no amor:

Meu coração foi desde sempre por ti antecipado.

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Medos insepultos

O tempo me ensinou

Que para certas coisas

O tempo não passou

E que ainda carrego comigo

Coisas da minha infância.

.

Ainda busco a aprovação –

E muitas vezes o perdão –

Quando me comporto como adulto.

.

Mas há em mim perdão:

Perdoo a mim mesmo.

.

Sou a minha própria consolação

Quem diz o sim ou diz o não

Para os meus medos insepultos.