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A persistência dos mortos

Estrelas mortas nos iluminam,
e sua luz tardia corta a noite
como feridas que nunca fecham.

O céu carrega cadáveres brilhantes,
memórias queimadas que ainda ardem,
ecos de explosões que o universo
não conseguiu esquecer.

Caminhamos sob clarões fantasmas,
banhados por aquilo que já não vive,
guiados por rastros que não escolhemos.

E cada raio que nos toca
é um aviso silencioso:
a luz também se corrompe,
e mesmo assim persiste.

Porque nada desaparece por completo:
nem o que amamos, nem o que tememos.

Somos feitos de luz antiga,
de sombras que não confessamos,
de histórias que morreram,
mas continuam nos seguindo.

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Dia Internacional da Mulher – 2026

Há o que ser comemorado? Estou farto de todos os anos desejar felicidades para as mulheres! Que tipo de hipocrisia é esta de minha parte?

As mulheres precisam de muito mais do que isso.

Vi na Internet outro dia:

“Não nos deem flores. Apenas parem de nos matar!”

Releiam esta frase! Sintam essa frase! Percebem do que estamos falando? Do direito das mulheres de viver.

Recentemente, publiquei um texto dizendo que sou antimachista. Sou mesmo e estou em uma cruzada pessoal neste sentido. Tenho uma filha mulher, o que só agrava a situação, além de em nível pessoal e particular acompanhar situações em que a integridade física e psicológica das mulheres está em xeque.

Que negócio é este? A mulher é vítima de violência e não pode contar com o apoio de NINGUÉM. Repito: NINGUÉM. A família, a igreja, e em alguns casos até o Judiciário/Polícia, passam pano! Fica sempre parecendo que a mulher fez por merecer, e que de alguma forma se justifica a violência sofrida!

Ontem mesmo eu estava lendo os comentários sobre o recente estupro coletivo. Um deles é de arrepiar:

“Coitados desses meninos… Acabaram com suas vidas!” A vítima, a mulher, deixada de fora do comentário. E pior: a frase foi dita por uma mulher.

É hora de decidirmos o que queremos para o nosso futuro. Precisamos entender que a nossa sociedade é estruturalmente machista e misógina. As instituições são machistas e misóginas, as relações são machistas e misóginas, e as pessoas, incluindo algumas mulheres, também o são. Enquanto isso não for trazido para o nível do consciente, vamos achar que é assim porque sempre foi assim e está tudo bem.

NÃO ESTÁ TUDO BEM! ESTÃO MATANDO AS NOSSAS MULHERES! E quando não as estão matando, elas estão sofrendo desamparadas, no mais absoluto silêncio.

CHEGA! CHEGA! CHEGA!

É nosso dever coletivo cuidar disso. Como começar? Repudiando a piadinha sem graça do amigo. Não repetindo frases do tipo “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Nos colocando ao lado das mulheres quando necessário. Parecem atitudes pequenas, mas a violência contra as mulheres encontra lastro no dia a dia. É nas pequenas atitudes que os canalhas abusadores encontram justificativas para seus comportamentos intimidadores e perversos.

Então, no dia 8 de Março, pode até haver flores e bombons, mas que haja também firmeza e atitude. E que isso seja uma prática constante e não só um post em um blog qualquer.

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A noite mais escura

No dia que você se foi,

O Sol se pôs para não mais nascer.

Desapareceram as estrelas,

Os planetas,

A Lua,

As marés,

A esperança,

A fé.

Cessou o vento

E todo e qualquer movimento.

Tudo torto,

Tudo roto,

Por fora e por dentro,

Mundo morto.

A noite mais escura

Foi também a última noite.

Depois dela,

Nunca mais vivi

Um dia.

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Para me manter vivo

Queria ser salvo da vida,

Mas não pela morte –

Salvação inevitável –

Mas pela sorte de entender

Que é uma tremenda sorte

Estar vivo.

.

Como eu gostaria que Deus,

Descesse dos céus e me dissesse:

“Estás vivo; já não é o bastante?”

Mas Deus anda ocupado,

E eu tenho reclamado

Muito mais do que agradecido.

.

Vivo!

E no fundo eu sei que é bom estar vivo,

Mas que isso não me impeça

De morrer para certas coisas –

Ou de matar certas coisas –

Para me manter

Vivo!

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O tempo

O tempo –

Essa caixa imaterial em que vivemos –

Que vai da ordem ao caos em instantes.

Fascinantes os acham que o tempo é amigo, ou abrigo, ou qualquer coisa do tipo.

O tempo está sempre indo, e com sorte vira memória, história ou arrependimento.

O tempo é a vida indo em direção à morte sem precisar de nenhum consentimento e sem qualquer constrangimento.

E quando damos por nós, foi-se o tempo. Também fomos nós. Não há alento.

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P.S. 61

A causa mortis do amor é sempre a mesma: inanição.

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A morte do poeta

O poeta morre um pouco

Quando dele se vai a ingenuidade,

Quando dele se vai a esperança,

Quando dele se vai a confiança,

Quando dele se vai credulidade.

Mas o poeta morre para renascer,

Porque a essência do poeta é o recomeço.

Diante dos cacos, das cinzas, da brutalidade,

O poeta morre e renasce sem medo,

Escrevendo novas histórias,

Ressignificando antigas histórias,

Rindo e chorando

De derrotas e vitórias,

Porque o que mata de fato o poeta

É não poder tentar

Pelo menos mais uma vez.

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Ao amor, a vida

Que nossos encontros não sejam obras do acaso, mas prioridades inadiáveis.

Que nossas problemas não sejam barreiras intransponíveis, mas degraus na escada que estreita nossos laços.

Que nossos corpos não apenas se deitem, mas que se fundam em um só.

E que cada adeus seja apenas um até logo, ainda que no leito de morte.

Ao amor, a vida. A todo o resto, a sorte.

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Atemporal

Jamais pense que tenho tempo de sobra.

Tempo de sobra é algo que ninguém tem.

Nascemos para morrer e isso é inexorável.

Por isso, entenda que você é uma prioridade na minha.

Escolhi você e escolho você todos os dias.

É assim que decidi viver o que ainda me resta de tempo.

Quero viver você até o fim do meu tempo.

É você quem dá sentido ao meu tempo.

Até o fim.

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Muito eu vi(vi)

Eu vi a birra da criança

Eu vi a alegria dos bate-bate

Eu vi os escorregadores e os balanços

Eu vi os cachorros rolando na grama

Eu vi o senhor e seus passarinhos

Eu vi as flores e as cutias

Eu vi o casal se beijando ardentemente

Eu vi o pipoqueiro e seu carrinho

Eu vi o coreto e a igreja matriz

Eu vi o moço que vendia balas e balões

Eu vi o lago e os peixinhos.

E ali, bem ali

Bem no meio daquele campo

Eu revivi a minha infância

Cheio de saudades de quem deste mundo

Já se foi sem mim.

Campo de São Bento – Niterói/RJ