Lua no telhado.
Um morcego cruza a noite
sem fazer som.
A cidade nem percebe
que alguém esteve aqui.
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O céu sabia
O Sol
O sol rompe o limite da manhã,
dissolve o frio que tenta ficar;
desperta o mundo sem nenhum amanhã,
e acende o que insiste em apagar.
Seu brilho não mede o que vai atingir,
nem pesa o espaço que irá tocar;
simplesmente existe, sem decidir,
e ocupa tudo ao se espalhar.
E mesmo ao ceder ao gesto de partir,
deixa no céu o que não quis cessar;
é nele que a noite insiste em surgir,
um traço de luz que persiste no ar.

A noite mais escura
No dia que você se foi,
O Sol se pôs para não mais nascer.
Desapareceram as estrelas,
Os planetas,
A Lua,
As marés,
A esperança,
A fé.
Cessou o vento
E todo e qualquer movimento.
Tudo torto,
Tudo roto,
Por fora e por dentro,
Mundo morto.
A noite mais escura
Foi também a última noite.
Depois dela,
Nunca mais vivi
Um dia.

Açoite
Quando a noite chega, chega também o açoite
Chega a saudade que mato no álcool
Chega nos canais de TV que evito ver
Chega no desejo que nego
Chega no saber que estás sei lá onde
…
Quando o dia chega, chega também o açoite
Mais uma noite que passei sem ti
Meu corpo sem teu cheiro
Os lençóis arrumados e ilesos
Mais um café sem gosto
…
Queria eu ter o poder de voltar no tempo
Para refazer ou reescrever o momento
Que confesso, desconheço
Em que nos perdemos um do outro
…
Queria eu ter o poder avançar o tempo
Até viver ou sentir por um momento
Que te esqueci e não me lembro
Que não sei viver sem ti
…
Açoite
Noite e dia
Dia e noite
Açoite
Açoite
Açoite
Açoite
Açoite
Despidas
E nas madrugadas
Nunca, nunca frias
Sentiam-se invisíveis e imunes
Protagonistas de seus próprios dias:
Nada, nada temiam
Pois o medo não lhes reconhecia.
E nas vielas quase escuras
Em retas e curvas
Seus corpos queimavam
E se consumiam
Sem nenhum pudor –
Puro resplendor –
Que em seus corpos flamejantes ardia.
Cegavam olhos curiosos
De pregadores –
Pecadores! –
Zelosos tentando manter ao longe
Aqueles que tinham a galhardia
De ser a soma fecunda e profunda
Do estarrecedor desejo que a eles consumia.
Tendo a Lua como única testemunha
Da sua luxúria e devassidão
Não se importavam
Em fazer ouvir aos outros
Os inúmeros
“Eu te amo”
Ditos entre suas peles e almas despidas.

Madrugada
A noite avança
Com suas sutis rudezas:
Nada é pouco
Tudo é muito
Talvez mais do que muito
Ainda que não seja o bastante
Para me fazer desabar em meu leito
O sono…
Esse meu amigo traiçoeiro
Que de mim foge de vez em quando
É também fiel conselheiro:
Fatos sobrepõe-se a sentimentos
E desmascaram fantasias e luxúrias de noites opacas
Rasgadas e devassadas por realidades translúcidas
Onde todos os meus tolos e inocentes devaneios
São partidos ao meio
Mas também é na madrugada
Que sempre sou mais meu
E hoje –
Mais uma vez –
Durmo acompanhado
Vamos passar a noite inteira acordados
Nus, amarrados e abraçados –
Pura honestidade –
Só a minha raiva e eu.

Noite Cinzenta
Bom, essa foi a minha primeira poesia. Mais uma autoral, portanto.
Noite Cinzenta
Que nesta noite tu esqueças,
Entre nossas diferenças,
Nossos medos e nossas
Alucinações.
Como um véu meio cinzento,
Minha sina, meu tormento,
Névoa espessa em nossos
Corações.
Em um mar cheio de luz,
Espero por ti, meu sonho.
Em um mar cheio de luz, jaz o meu
Viver.
Na linha do horizonte,
Jorra brisa, uma fonte,
Sentimento forte,
Desilusão.
Da tua boca ouço sofrimento,
Areia seca, sem alento,
Faca afiada no teu jogo de
Sedução.
Com olhar sempre viril,
Vem aqui, vem me mostrar,
Que tu és forte, mas também, tu sabes
Amar.
Força da natureza,
Estrela de rara beleza,
Cai pendente, sem causar
Destruição.
Força do infinito,
Acende a luz, atende à meu grito,
Confiante, grito de
Paixão.
Que se faça em mim,
O teu desejado.
Que se acenda em mim,
Teu fogo gelado.
Glória à ti, princesa,
Me inunda com tua luz.
Nos amamos, mas no meu coração,
Solidão.
Me digas de uma vez,
O que sentes por mim?
Me digas de uma vez,
Pois te amo.
Me digas de uma vez,
O que sentes por mim?
Me digas de uma vez,
Que me amas.
Me digas de uma vez,
Por pior que seja,
Ou possa vir a ser,
Mas simplesmente digas,
Pois teu silêncio, é como a morte
Enfim…

O que as palavras não podem dizer
Sim, eu te amo
E te quero cada vez mais,
E sempre que eu te chamo
Espero que venhas diferente,
Mais pura, mais leve, mais solta,
De preferência, sem muita roupa,
Pois não haverá muito tempo para resistir.
Fecho os olhos e recebo teus beijos:
Sinto teu cheiro em mim.
E me satisfaço em saber que meu desejo
Está como veio ao mundo,
Exatamente diante de mim.
Sim, meu desejo tem voz
E nesse momento que estamos à sós,
Te possuo com gritos e berros,
Te rasgo com palavras doces,
E tudo de bom que a vida me trouxe
Eu despejo dentro de ti.
Inundo-te feito rio doce, melado,
Nenhuma destruição, só prazer.
Ao mesmo tempo que descanso,
Tua vontade eu agiganto
Beijando, sem pressa,
As portas do teu céu,
Fazendo com que teu contorno se mostre,
E minha congruência mais uma vez invoque,
Mostrando o tanto que quero em ti.
E se feito um número peço que fiques,
E que sem medo te entregues para mim,
Te mostro o que ainda não experimentaste,
E a mistura de dor e prazer em tua face
É o prêmio maior que recebo
Desse momento que vicia,
Marcando definitivamente minhas fantasias,
Quando por sobre seu ombro
Vejo o que tu não precisas dizer.
Sim, sei que te sentes mais mulher agora
E sem dúvida me sinto também mais homem.
Chegastes onde querias,
E no teu rosto, inigualável imagem:
Vejo meu prazer brilhar em ti!
Teu gosto definitivamente meu,
Como se fosse minha própria saliva,
Que sem pressa cristaliza
O quanto que ainda preciso te ter.
Sim, somos puro prazer…
E dentro de nós resta a esperança
De mais um dia, mais uma noite…
Sempre mais, cada vez mais,
Não há nada melhor do que sermos um único corpo.

Noite
Noite misteriosa
Sem brilho
Jocosa
Que chuta cachorro morto
Até não haver mais corpo
Para um funeral digno
Noite traiçoeira
Sinuosa serpente
Sorrateira
Que inocula seu veneno
Que deixa o corpo fervendo
E parte! Sem se despedir
Noite chuvosa
Propositalmente onírica
Lírica
Jorrando em borbotões
Tira o ar de meus pulmões
E me afoga em minha teimosia
Noite inesquecível
Deliciosa gastura
Loucura!
Mas se tiver que ser
Render-se-á o alvorecer
A esta carestia mundana.

