Formiga carrega
uma folha maior que ela —
não olha pro peso,
só pro pedaço de chão
que ainda falta atravessar.
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Lembranças do Futuro
I. Reconhecimento
Passos antigos,
e o coração reconhece
o que era abrigo.
Sem pedir licença, a luz
volta a caber nos meus dias.
II. Possibilidade
Depois do inverno,
uma flor sabe o caminho
sem mapa algum.
Há chegadas que parecem
lembranças do futuro.
III. Transformação
A tarde hesita.
Entre silêncios, um gesto
desfaz distâncias.
O que pensei ter perdido
apenas mudara de lugar.
Confluência
I. Desentendimento
Vento na vidraça,
cada palavra entorta
o sentido antigo.
Entre o que eu disse e ouviste
cresce um jardim de névoa.
II. Diálogo
A névoa se abre.
Sentamos junto à janela
sem vencer ninguém.
Pouco a pouco, as perguntas
aprendem a ouvir respostas.
III. Aproximação
Luz no fim da tarde.
Já não buscamos razão
para cada dor.
Tua voz encontra a minha,
como dois rios no mar.
Chuva de Setembro
Cai fina a chuva
sobre o vidro sem pressa –
o mundo emudece.
Alguma dor antiga
se dissolve na poça.
Meu nome
Digo meu nome
para atender o telefone.
Estranho pensar
que a palavra mais antiga
é também empréstimo.
Sem destino
Folha no asfalto.
O vento escolhe por ela
a próxima esquina.
Nem toda viagem precisa
saber para onde vai.
Sem plateia
Ônibus vazio.
A manhã atravessa a rua
sem anunciar-se.
Nenhum olhar acompanha
a chegada silenciosa.
Sem testemunhas
Lua no telhado.
Um morcego cruza a noite
sem fazer som.
A cidade nem percebe
que alguém esteve aqui.
Céu
Poça de chuva:
um pardal bebe o céu
que nela caiu.
Passa a bicicleta e
o céu se desfaz em ondas.
No silêncio do gole
Vinho na taça,
o rubro acende a noite,
cheiro que abraça.
No silêncio do gole
a alma enfim se deslaça.
