Cai fina a chuva
sobre o vidro sem pressa –
o mundo emudece.
Alguma dor antiga
se dissolve na poça.
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Meu nome
Digo meu nome
para atender o telefone.
Estranho pensar
que a palavra mais antiga
é também empréstimo.
Sem destino
Folha no asfalto.
O vento escolhe por ela
a próxima esquina.
Nem toda viagem precisa
saber para onde vai.
Sem plateia
Ônibus vazio.
A manhã atravessa a rua
sem anunciar-se.
Nenhum olhar acompanha
a chegada silenciosa.
Sem testemunhas
Lua no telhado.
Um morcego cruza a noite
sem fazer som.
A cidade nem percebe
que alguém esteve aqui.
Céu
Poça de chuva:
um pardal bebe o céu
que nela caiu.
Passa a bicicleta e
o céu se desfaz em ondas.
No silêncio do gole
Vinho na taça,
o rubro acende a noite,
cheiro que abraça.
No silêncio do gole
a alma enfim se deslaça.

Brilho que arde
Força que me invade,
luz que rompe o escuro,
pulso desperto.
No choque dos nossos mundos,
meu brilho arde mais forte.

Nada
Entre a pele e a memória
I. A promessa
Nos teus lábios há
promessas que o silêncio
jamais desmentiu.
E eu sigo descobrindo
novos caminhos em ti.
II. O segredo
Teu nome repousa
na curva dos meus desejos
como um segredo.
Quanto mais tento esquecê-lo,
mais se aproxima de mim.
III. A espera
A noite demora.
Mas tua ausência desperta
o que adormece.
Há amores que insistem
em florescer no escuro.
IV. A falta
Não é só desejo.
É reconhecer teu corpo
na própria falta.
Como quem toca uma música
mesmo sem ouvir o som.
V. A permanência
Era só um olhar.
Mas trouxe de volta a chama
que eu conhecia.
Há desejos que não morrem,
apenas aprendem a esperar.

