Folha no asfalto.
O vento escolhe por ela
a próxima esquina.
Nem toda viagem precisa
saber para onde vai.
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Entre
Portas abertas,
o vento traz teu perfume,
tarde vazia.
No limiar da espera,
meu coração se inclina.

Sem amarras
Enquanto éramos só nós
Às vezes o vento entra pela casa
sem pedir explicação:
toca o vidro,
move a cortina,
e passa pela mesa
como se já soubesse o caminho.
.
O vinho ainda gelado,
a luz pousada no chão,
os passos que se entrelaçam,
e dançam no pulsar do coração.
.
Ali, tudo acontece sem nome,
sem definição –
e é por isso que acontece.
.
Mas, quando esse mesmo vento
encontra as janelas fechadas,
e as cortinas impedem
a entrada da luz,
a casa muda.
.
Os passos perdem o ritmo,
o ar pesa,
e o que antes fluía
começa a endurecer.
Porque, no encontro,
não cabia explicação alguma –
e nem precisava haver.
.
Era só isso:
duas almas
respirando
o mesmo ar,
sem precisar de nada
que os corpos não possam dizer.

Cinza
Se algum dia,
Nossas cores deixarem de ser nossas cores,
Todo o mundo ficará cinza.
Irão embora os sabores,
Os cheiros das flores,
Cinza. Tudo cinza.
E do cinza, das nossas cinzas,
Nem lembranças restarão,
Pois o vento há de levá-las
Para um futuro ermo
De onde nunca voltarão.

Anti-horário
O vento
Que lambe tua face
Sussurra em teus ouvidos
Palavras malditas
Que tu querias engolir.
.
Tua garganta seca
Tua mão molha
E em sentido anti-horário
Avançam do alto de Vênus
Os dedilhados do teu tormento.
.
Agita a tua batuta
Orquestra o teu ritmo –
Crescendo, crescendo! –
Enquanto teu rubor prepara
Um apoteótico encerramento.
.
Palavras malditas
Repetidas, sentidas
Não é o vento culpado
São teus ouvidos apurados
Revivendo mil momentos.

Mundo mudo
Mundo mudo
Mundo de agora
Me diz pelo vento
Que sopra lá fora
O dizer devido
Para esta hora
Quando foi embora
O aroma floral de outrora
Que exalava de dentro de mim.

O bem aquece a vida
No Centro de Niterói/RJ, durante a década de 1970, meu avô saía de casa aflito todas as vezes que chovia e ventava muito forte. Ele saía com uma caixa de papelão nas mãos, e um dia me chamou para ir com ele (para o desespero da minha mãe, pois eu era muito novo).
Fomos em direção à casa que abrigava a prefeitura na época, que era completamente cercada por árvores enormes. Diante delas, vi meu avô se abaixando e recolhendo o que pareciam ser pequenos frutos das árvores. Não eram. Eram pequenos pardais desfalecidos por conta da tempestade.
Então, já com a caixa cheia dos pequenos pássaros, meu avô voltou para casa, cobriu a caixa com um cobertor e a colocou no forno, em temperatura bem baixa e com a porta aberta. Instantes depois, meu avô retirou a caixa do forno e eu comecei a ouvir inúmeros e intensos piados. Quando a chuva passou, meu avô retirou o cobertor de cima da caixa, bem perto da janela da cozinha, e dezenas de passarinhos fortes e aquecidos, voaram pela janela em direção ao infinito, em direção à vida.
Aprendi ali com meu avô, bem cedo, que mesmo sem que um pardal lembrasse do meu avô ou se mostrasse minimamente grato a ele, o prazer de ver os pardais voltarem a voar significava para ele absolutamente tudo. Ele praticava o bem e o bem era a sua própria recompensa. Era evidente nos seus olhos e no sorriso que esbanjava para si mesmo.
Que nossos corações e nossas atitudes sejam como a caixa, o cobertor e o forno do meu avô. E que possamos fazer o bem sem esperar nada de ninguém, na certeza de que ver o outro se levantar diante de uma dificuldade é um dos mais sublimes experiências que podemos ter na vida.
Saudades de ti, Afonso Fonseca, meu adorável e inesquecível avô. Obrigado por ter me ensinado tantas e tantas vezes o que verdadeiramente vale a pena na vida.

Vitrificado
Fascinam-me os pássaros,
Flutuando ao lado da ponte
Sem precisar bater suas asas
À mercê da magia do vento.
Fascina-me a ponte
Que serve de refúgio aos pássaros
Imponente diante da paisagem
À mercê da magia do tempo.
Fascino-me eu comigo,
Diante dos pássaros e da ponte
Diante do vitrificado horizonte
À mercê de Deus adiante eu sigo.

Dias à frente
Dias lentos, vagarosos
Dias vividos, sentidos
Dias com sentido
Dias cheios de alento.
Dias em que o vento –
Sempre atento ao tempo –
Sussurra em meus ouvidos
Palavras maravilhosas:
“Não há mais perigo
Agora, é contigo
Siga em frente.”

