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A geografia da infância

Às vezes penso que a infância não foi um tempo. Foi um lugar. Não um lugar que possa ser encontrado em um mapa, mas um território que continuo carregando dentro de mim. Quando volto às ruas onde cresci, encontro as mesmas esquinas, os mesmos muros, algumas das mesmas árvores. Reconheço as formas, mas não as distâncias. Tudo parece menor do que lembro. A rua que parecia interminável termina em poucos passos. A árvore que alcançava o céu já não parece tão alta. O terreno onde cabiam aventuras inteiras hoje não ocupa mais do que um olhar distraído.

Durante muito tempo achei que a memória estivesse me enganando. Hoje penso o contrário. Talvez aqueles lugares fossem realmente maiores. Não por causa de suas dimensões, mas por causa daquilo que eu era quando os habitava. A infância ampliava o mundo. Cada esquina escondia uma descoberta, cada portão guardava um mistério, cada tarde parecia longa o suficiente para que algo extraordinário acontecesse. Eu não sabia, naquela época, que a vida era feita também de despedidas, de limites e de ausências. O futuro era uma paisagem distante e infinita, e talvez por isso cada dia carregasse uma promessa.

Com o passar dos anos, percebi que a geografia da infância nunca foi feita apenas de ruas e casas. Era feita de sensações. O cheiro da chuva chegando antes que as primeiras gotas caíssem. A luz dourada do fim da tarde entrando pela janela. O barulho de uma bicicleta passando na rua. A certeza tranquila de que alguém nos chamaria para jantar quando o céu escurecesse. Essas eram as verdadeiras coordenadas daquele “país”.

Talvez seja por isso que sentimos tanta saudade da infância. Não porque os lugares desapareceram, mas porque deixamos de olhar para eles com os mesmos olhos. Voltamos às ruas, às fotografias e às lembranças, mas aquilo que procuramos não está mais ali. A infância não habitava os lugares. Habitava o olhar. E esse olhar, embora ainda seja meu, já conhece demais o peso do tempo para enxergar o mundo da mesma maneira.

Ainda assim, gosto de acreditar que uma parte daquele menino continua vivendo dentro de mim. É ele quem, de vez em quando, me faz parar diante de um pôr do sol. É ele quem encontra beleza em uma manhã comum ou se surpreende com coisas que os adultos aprendem a ignorar. Talvez crescer não signifique deixar a infância para trás, mas aprender a carregá-la conosco. Não como quem tenta voltar, mas como quem reconhece que alguns lugares jamais desaparecem por completo. Apenas deixam de existir no mundo para continuar existindo na memória.

Como escreveu Antoine de Saint-Exupéry:

“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso.”

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Medos insepultos

O tempo me ensinou

Que para certas coisas

O tempo não passou

E que ainda carrego comigo

Coisas da minha infância.

.

Ainda busco a aprovação –

E muitas vezes o perdão –

Quando me comporto como adulto.

.

Mas há em mim perdão:

Perdoo a mim mesmo.

.

Sou a minha própria consolação

Quem diz o sim ou diz o não

Para os meus medos insepultos.

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Muito eu vi(vi)

Eu vi a birra da criança

Eu vi a alegria dos bate-bate

Eu vi os escorregadores e os balanços

Eu vi os cachorros rolando na grama

Eu vi o senhor e seus passarinhos

Eu vi as flores e as cutias

Eu vi o casal se beijando ardentemente

Eu vi o pipoqueiro e seu carrinho

Eu vi o coreto e a igreja matriz

Eu vi o moço que vendia balas e balões

Eu vi o lago e os peixinhos.

E ali, bem ali

Bem no meio daquele campo

Eu revivi a minha infância

Cheio de saudades de quem deste mundo

Já se foi sem mim.

Campo de São Bento – Niterói/RJ
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O bem aquece a vida

No Centro de Niterói/RJ, durante a década de 1970, meu avô saía de casa aflito todas as vezes que chovia e ventava muito forte. Ele saía com uma caixa de papelão nas mãos, e um dia me chamou para ir com ele (para o desespero da minha mãe, pois eu era muito novo).

Fomos em direção à casa que abrigava a prefeitura na época, que era completamente cercada por árvores enormes. Diante delas, vi meu avô se abaixando e recolhendo o que pareciam ser pequenos frutos das árvores. Não eram. Eram pequenos pardais desfalecidos por conta da tempestade.

Então, já com a caixa cheia dos pequenos pássaros, meu avô voltou para casa, cobriu a caixa com um cobertor e a colocou no forno, em temperatura bem baixa e com a porta aberta. Instantes depois, meu avô retirou a caixa do forno e eu comecei a ouvir inúmeros e intensos piados. Quando a chuva passou, meu avô retirou o cobertor de cima da caixa, bem perto da janela da cozinha, e dezenas de passarinhos fortes e aquecidos, voaram pela janela em direção ao infinito, em direção à vida.

Aprendi ali com meu avô, bem cedo, que mesmo sem que um pardal lembrasse do meu avô ou se mostrasse minimamente grato a ele, o prazer de ver os pardais voltarem a voar significava para ele absolutamente tudo. Ele praticava o bem e o bem era a sua própria recompensa. Era evidente nos seus olhos e no sorriso que esbanjava para si mesmo.

Que nossos corações e nossas atitudes sejam como a caixa, o cobertor e o forno do meu avô. E que possamos fazer o bem sem esperar nada de ninguém, na certeza de que ver o outro se levantar diante de uma dificuldade é um dos mais sublimes experiências que podemos ter na vida.

Saudades de ti, Afonso Fonseca, meu adorável e inesquecível avô. Obrigado por ter me ensinado tantas e tantas vezes o que verdadeiramente vale a pena na vida.

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Vim trazer verdades 42

Não há a menor possibilidade de haver amor incondicional entre um casal. Simplesmente não há. Amor incondicional é “amor de mãe”. O filho pode ser ou fazer a besteira que for que a mãe continua amando.

“Ain… Eu amo fulano(a) incondicionalmente!”

MENTIRA! Você aceita traição, por exemplo? Aceita se doar para uma pessoa sem que ela seja minimamente grata? Aceita amar sem reciprocidade, sem cumplicidade? Tenho certeza que não, e por definição isso é amor condicional: você ama sob determinadas condições e limites.

Aliás, ouso dizer que amor incondicional entre casais é algo patológico. Alguém com toda certeza está fazendo o papel de mãe. Em alguns casos, ambos estão, ao ponto de se manifestar entre eles uma verdadeira relação simbiótica.

Isso não é saudável. Isso tem a ver com o passado, com a infância. Procure ajuda profissional se for o caso. Você merece mais do que aceitar qualquer coisa vinda do outro em nome de um suposto “amor incondicional”. Onde estão a sua autoestima e amor próprio? Quais são os seus valores mais fundamentais? Quem você é de verdade? Será que você não está abrindo mão de si mesmo por conta do outro? É um preço muito alto a ser pago, e com certeza a conta vai chegar um dia.

Pense nisso. Não destrua a sua vida para agradar os outros.

P.S.: Qual a primeira coisa que a mãe se pergunta quando vê que o filho fez uma besteira? “Onde foi que eu errei???” O nome disso? Culpa. O erro do outro é sua culpa? Saia desse círculo vicioso!

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Amo feito uma criança

Todos os dias

Faço escolhas

Dos mais variados tipos

A vida é minha

E as consequências de minhas escolhas

Também

 

Por isso

Ando em busca de sorrisos

Inteiros

Verdadeiros

Em busca de certezas

De atitudes

Não de dúvidas

 

Em busca do que agora sou

E não mais do quem eu era

Em busca do imperecível

Do não descartável

Do que não possa ser apagado

Do que deixa rastros

Do que não se esconda

Do que escolha ficar

Do que nem pense em ir

Do infinito

 

Eis que o pejo da experiência

Cobra e recobra seu preço:

Amo com a pureza de uma criança

Mas viver de brincadeira

Só se for em uma outra vida

Já foi-se

Infelizmente

A minha infância.

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