Avatar de Desconhecido

O tempo decide

Entre dois destinos,

o coração hesita:

o tempo decide.

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Kintsukuroi

Não é o mesmo,

mas nas linhas de ouro

permanece.

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Kintsugi

Houve um tempo
em que o coração cedeu
sem barulho.

Não foi um rompimento abrupto:
foi desgaste,
pressão contínua,
até que algo se partiu por dentro.

E ali ficaram as marcas:
fibras abertas,
fendas expostas,
memórias que não se escondem.

Eu poderia ter coberto com silêncio,
negar a queda,
seguir como se nada tivesse sido.

Mas escolhi outro caminho.

Recolhi os fragmentos –
um a um –
com as mãos que ainda tremiam,
sem negar o que quebrou.

E então compreendi:
não era para esconder as fissuras.

Era para preenchê-las.

Com ouro.

Não para disfarçar a queda,
mas para torná-la parte do que sustenta.

Cada rachadura
recebeu aquilo que ainda havia de melhor em mim:

Presença.

Verdade.

Consciência.

O que antes era ruptura
se tornou desenho,
obra de arte.

Não sou mais o que fui –
ainda bem –
porque o que hoje existe
não é remendo.

É construção.

Há valor onde houve queda.
Há brilho onde houve dor.

E o que um dia foi frágil,
agora se sustenta
com algo que não existia antes de se partir.

Hoje, quando olho,
não vejo o que quebrou.

Vejo ouro.

Vejo permanência.

Vejo um coração
que não voltou ao que era,
e que, ainda assim,
se sustenta.

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O ar frio da espera

A distância não é feita de quilômetros. Ela é feita de silêncios que pesam, de chamadas que não acontecem, de mãos que se estendem no escuro, encontrando apenas o ar frio da espera.

Dizem que o tempo cura, mas o tempo longe de quem ama é um auditor impiedoso: mostra que a cada instante distante, uma fibra da alma se rompe.

A distância machuca – não por afastar o corpo, mas por obrigar a conviver com o fantasma de quem escolheu ficar onde não se alcança.

Quando o caminho se torna longo demais, o coração aprende, por sobrevivência, a parar de bater na porta de quem fez da distância o seu lugar.

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Contador de estrelas

Escrevi e continuo escrevendo,

Muitas vezes, não mais no papel –

Nas nuvens e no céu –

Testemunhas das minhas andanças.

.

E eu que já fui criança –

E queria continuar sendo, confesso –

Me deparo com a rudeza da vida adulta,

Com a falta de esperança.

.

Aonde foram parar os sonhos

De um menino então risonho,

Que pensava que algodão doce

Era pedaço de nuvem?

.

Aonde foi parar o que eu nunca fui,

Mas que queria continuar sendo:

Um futuro farto de boas lembranças,

Um homem com o coração menos duro?

.

Valha-me, Deus, tudo é pranto!

Aonde foi parar o encanto

Do contador de histórias e de estrelas,

Que achava que viver era seguro?

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A esperar

Olho para o mar

E no horizonte,

Vejo o ir e vir das embarcações.

Não vejo a que eu espero.

Não vejo a que sempre estive a esperar.

.

Olho para o mar novamente.

Desta vez com os olhos marejados.

A saudade escorre pelo meu rosto,

Pelo meu peito, até meus pés,

E me deixa de joelhos.

.

Seguro um punhado de areia

E o deixo escorrer por entre meus dedos.

Sou ampulheta viva

E a minha vida

Por mim está a passar.

.

Olho para o mar mais uma vez.

Quem sabe, talvez?

Entre motivos e porquês,

Há um coração que pulsa alto,

Esperando o amor aportar.

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Antecipado

Fiz o combinado:

Amei-te para sempre.

.

Nos dias de chuva,

Nos dias ensolarados,

Nos dias nublados,

Nos dias que ainda não chegaram.

.

Sim, amor antecipado.

Por que esperar para amar,

Se esperar para amar

É amar atrasado?

.

Amei-te hoje,

Amei-te amanhã,

Como amei-te no passado.

.

Tempos verbais não tem voz no amor:

Meu coração foi desde sempre por ti antecipado.

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Fora de estação

Não fosse o sol tímido

E a brisa fresca

Lambendo a minha face

Eu nem saberia que é inverno.

Porque no meu coração

É sempre verão

E nele habita aquecido

Tudo que me é eterno.

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Abusado e insolente

Teu segredo

Se revelou de forma veemente

Quando gritou o teu coração

E tentou ignora-lo a tua mente

 

Não seria de mais valor

Ou talvez mais prudente

Deixares de fingir que é dor

O amor que deveras sente?

 

Ah! O amor…

Essa coisa insistente

Que não pede por favor

E que torna o completo carente!

 

Ah! O amor…

Do qual tu foges bravamente

Mesmo sabendo que não há vida

Quando parte de ti está ausente

 

Ah! O amor…

Não, não estás doente

Já que és tão racional

Que reconheças: estás impotente!

 

Ah! O amor…

Que te rendas a este insistente

Que subjuga-te a seus caprichos

Não se trata de mero acidente

 

E que fique claro que sua existência

Não depende do teu aceite

O amor é o amor

Abusado e insolente.

ta1

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Olhos do coração

O não sempre traz consigo

A esperança de que dias melhores virão,

Pois a vida sempre será farta e bela

Quando vista pelos olhos do coração.