I.
Quando eu era menino, acreditava que os adultos estavam prontos. Que em algum momento, entre a escola e o primeiro emprego, alguém concluía a gente, como quem dá a última demão de verniz numa peça de marcenaria, e dali em diante restava apenas habitar aquilo que já estava feito. Os adultos sabiam. Os adultos tinham chegado.
Aos catorze anos escrevi meu primeiro poema achando que um dia escreveria o definitivo. Aquele depois do qual não seria preciso escrever mais nada. Quarenta anos depois, continuo escrevendo. O definitivo não veio. E só agora começo a desconfiar que ele nunca viria, não por falta de talento ou de tempo, mas porque ele simplesmente não existe.
II.
Chamo de abismo adulto o momento em que essa desconfiança vira certeza.
Não é o abismo da morte, nem o da perda, embora os dois morem perto. É outra coisa, mais silenciosa e talvez mais vertiginosa: a descoberta de que o acabamento não existe. De que ninguém chega. De que os adultos que eu admirava quando menino estavam, todos eles, improvisando, remendando, recomeçando, exatamente como eu agora. A vida não é uma obra a ser concluída. É um rascunho permanente, e ninguém vai passar a limpo.
Quem cai nesse abismo sente primeiro o desamparo. Se não há chegada, para que serviu a caminhada? Se nada fica pronto, o que se faz com tudo que foi construído pela metade? O chão some. E por um tempo a gente se debate, tentando agarrar alguma garantia, qualquer uma, que devolva a ilusão de que um dia as coisas vão se assentar de vez.
Eu quis essa garantia. Quis muito. Não tenho.
III.
Foi aí que encontrei uma palavra que eu não conhecia: wabi-sabi.
Os japoneses levaram séculos lapidando uma ideia que o Ocidente costuma tratar como defeito. Segundo ela, existem três verdades sobre todas as coisas: nada dura, nada está terminado, nada é perfeito. E em vez de lamentar isso, eles fizeram disso uma estética. Uma forma de beleza.
Wabi é a beleza do simples, do modesto, de uma solidão que não é abandono, mas recolhimento. Sabi é a beleza do que o tempo tocou: a pátina no metal, a madeira gasta pelo uso, a pedra coberta de musgo. Juntas, as duas palavras dizem que aquilo que envelhece, se desgasta e permanece incompleto não é uma versão piorada do que era novo. É outra coisa. Às vezes, uma coisa mais verdadeira.
No Japão do século XVI, os senhores da guerra exibiam seu poder em cerimônias do chá servidas em porcelanas chinesas raras e caríssimas. Toyotomi Hideyoshi, o homem mais poderoso do país, chegou a mandar construir uma sala de chá inteiramente revestida de ouro. E foi justamente o mestre do chá a seu serviço, Sen no Rikyū, quem levou a cerimônia na direção oposta: salas minúsculas, de porta baixa, onde todos precisavam se curvar para entrar, e tigelas rústicas, irregulares, moldadas à mão. Para Rikyū, a ostentação afastava as pessoas daquilo que importava, o encontro, o instante, a presença de quem está ali. A tigela perfeita fala de si mesma. A tigela imperfeita deixa espaço para quem bebe.
Li isso e pensei no violão encostado no canto da minha sala, com a madeira marcada por todas as fases da minha vida. Ele nunca foi tão bonito quanto agora.
IV.
Há uma técnica que nasce dessa mesma sensibilidade: o kintsugi. Conta-se que, no século XV, o xogum Ashikaga Yoshimasa mandou consertar na China uma tigela de chá quebrada, e ela voltou presa por grampos de metal, feia, funcional. Os artesãos japoneses procuraram outro caminho. A rachadura passou a ser preenchida com laca e pó de ouro. A cicatriz virou o traço mais luminoso da peça.
Eu conhecia a técnica há tempos. O que eu não tinha entendido era a filosofia por trás dela, e ela muda tudo.
Porque o ouro não apaga a quebra. O ouro é a quebra admitida. A peça reparada com kintsugi não finge que nunca caiu, ela diz exatamente onde caiu, e com que força, e por quais caminhos a fratura correu. Ela passa a carregar a própria história no corpo. E é justamente por isso que ganha valor.
Passei boa parte da vida fazendo o contrário. Escondendo trincas. Colando por dentro, com cola transparente, para que ninguém visse, nem eu. E descobri, tarde, que nem toda quebra é um estrondo. Algumas são fissuras finas, quase invisíveis, que se acumulam ao longo dos anos sem que a gente perceba, até que um dia a peça já não segura água e a gente não sabe dizer quando foi que ela rachou.
Só agora começo a entender que o trabalho da maturidade é outro: parar de esconder as fissuras e começar a enchê-las de ouro. Não para exibi-las, mas para honrá-las. Elas são o mapa do que eu vivi.
V.
O abismo adulto, visto por essa lente, deixa de ser apenas queda.
Se nada dura, então tudo que existe é precioso agora, não depois. No século XVIII, o estudioso Motoori Norinaga deu nome a esse sentimento: mono no aware, a comoção diante da passagem das coisas. É por isso que os japoneses celebram a cerejeira, que floresce por poucos dias. Ninguém faria festa sob uma árvore de flores eternas. É a queda das pétalas que torna a florada insuportavelmente bonita. A impermanência não rouba o valor das coisas. Ela é a fonte desse valor.
Se nada está terminado, então eu também não estou. E isso, que antes me parecia uma sentença, começa a soar como uma promessa. Ainda há em mim versos que não escrevi, lugares que não vi, formas de viver que não conheci. O inacabamento não é só falta. É também espaço.
Se nada é perfeito, então posso parar de esperar de mim, e dos outros, uma perfeição que nunca esteve disponível. Posso olhar para os meus erros sem a crueldade de quem acreditava que existia um jeito certo e completo de viver, e que eu falhei em encontrá-lo. Não havia esse jeito. Havia só a tentativa, e a tentativa sempre foi suficiente.
VI.
Paul Valéry, poeta francês, escreveu que uma obra nunca é concluída, apenas abandonada. Passei quarenta anos escrevendo sem conhecer essa frase. Quando a encontrei, há pouco, ela não me ensinou nada novo, apenas deu nome ao que eu sempre soube na prática: que isso não fala de poesia. Fala de tudo.
Nenhuma fase da vida é concluída. Ela é deixada para trás, ainda cheia de pontas soltas, de frases que poderiam ter sido melhores, de gestos que ficaram pela metade. E a gente segue, não porque terminou, mas porque é preciso seguir.
Isso exige uma coragem específica, que não é a coragem de lutar, mas a de soltar. De aceitar que algumas coisas vão ficar incompletas para sempre, e que isso não as torna menos verdadeiras. De entender que o sentido de um gesto não depende de como ele termina. Que o valor está no próprio traço, e não no ponto final.
VII.
Eu sou um homem inacabado.
Tenho cinquenta e quatro anos e ainda erro, ainda recomeço, ainda aprendo. Carrego trincas que demorei a enxergar e outras que ainda nem sei que tenho. Minha vida tem a pátina do uso, a madeira gasta nos lugares onde mais toquei, o ouro ainda fresco em algumas fraturas recentes.
E hoje, pela primeira vez, consigo olhar para tudo isso e enxergar beleza. Não apesar das rachaduras, mas por causa delas. Porque é delas que vem a única coisa que nenhuma peça nova, lisa e perfeita jamais terá: uma história. A minha. Os meus caminhos de fratura não se repetem em mais ninguém, e é isso que me torna belo de um jeito que só eu posso ser. Não a beleza do que está pronto, mas a de quem foi vivido.
Não preciso ficar pronto. Nunca vou ficar pronto.
E isso não me dá medo.
Me dá um estranho sossego. E, agora, também um estranho orgulho.
