Avatar de Desconhecido

Amanhã

Hoje eu escolho não resolver.

Não por preguiça,
nem por fuga —
por saber
que algumas respostas
só chegam
a quem não tem pressa.

O mundo insiste
que é tudo agora:
decide, responde,
conclui, conserta.

Mas há uma sabedoria antiga
em deixar a noite ser noite.
Em dizer ao que aperta:
amanhã eu te escuto.

Não é abandono.
É cuidado.
É saber que a pressa
estraga o que o tempo cozinha.

As respostas que vêm de madrugada
quase sempre mentem.
Nascem do cansaço,
não da verdade.

Então eu guardo.
Deixo repousar.
Dou a cada coisa
o tempo que ela merece —

e a mim,
o direito
de não ter que dar conta
de tudo
de uma vez.

Amanhã eu volto.
Amanhã, com luz,
o que hoje parecia abismo
talvez seja só chão
que eu ainda não tinha pisado.

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Dobrar o pano

Comprei panos novos hoje —
oito, em dois conjuntos,
o linho ainda duro,
sem nenhuma história.

Penso nos que já tive:
o pano puído não falhou.
Está gasto porque serviu.
O desgaste é currículo,
não defeito —
o que mais secou
é o que mais parece usado.

Dobrar é um gesto antigo.
Alinhar as pontas,
achatar o vinco com a palma,
guardar na gaveta certa.

O certo era jogar fora.
Eu dobro.

Há coisas que a gente dobra
com o mesmo cuidado —
não pra esquecer,
mas pra saber onde estão
quando a mão precisar.

Só que tem uma gaveta
que não é minha.
E nela, dobrado com cuidado,
pra saber onde estou
quando outra mão precisar —

estou eu.

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Autorretrato com chapéus

Fui fotografar os chapéus.
Estavam todos ali, em fila,
à espera de uma cabeça
que lhes desse sentido.


Vermelho, ocre, azul, verde-musgo:
cada cor, uma vida possível,
um outro que eu poderia ser
por uma tarde inteira.


Mas no meio deles havia um espelho,
sem cor nenhuma,
e nele, eu,
de cabeça descoberta,
o celular diante do rosto,
apontando para mim
o olho com que eu apontava o mundo.


Os chapéus não me reconheceram.
O espelho, sim.


E entendi que o retrato
nunca foi dos chapéus:
eles eram só a moldura
da única coisa
que não se tira.

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Ferrugem

Não cheguei com o aço.
Vim depois, quando o brilho já se cansara,
e enquanto a tinta descascava e partia,
fui ficando.

Fui testemunha do que ninguém velou:
o óleo escuro que um dia me encheu e secou,
o galpão que se fechou e nunca mais abriu,
o silêncio que foi tomando conta de tudo.

E o óleo, que pensei perdido no fundo,
voltou anos depois na minha pele de ferro —
não mais escuro, mas vermelho,
como sangue que a espera fez subir à superfície.

Os invernos vieram pra me arrancar.
Vieram todos, um por um,
e um por um foram embora.
Eu continuei.

Não me confundam com a morte do ferro.
Sou o que nele resistiu,
a cor teimosa de uma promessa
que ninguém mais lembrava ter feito.

Me chamam de ruína.
Mas ruína é o que abandona.
Eu sou a parte que ficou
quando tudo o mais aprendeu a ir embora.

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Ela nem desconfia

Cinco e quarenta e cinco —
a cidade ainda dorme,
só eu e o café.
A luz nem desconfia
do que farei com ela.

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Esgarço

Tem gente diante de quem
a gente se encolhe.
Mede a palavra,
guarda o excesso,
veste a versão apresentável.

Diante dela, não.

Diante dela eu me esgarço —
essa é a palavra que me veio:
como tecido que alguém estica
até aparecer a trama,
os fios que eu nem sabia
que me formavam.

Não é que ela me pergunte.
É que perto dela
o que estava dobrado
se abre.

E o tempo, então,
perde a medida:
um minuto rende uma hora,
uma hora vira dia,
há instantes com ela
que não cabem em relógio nenhum.

E o estranho
não é me revelar.
É não ter medo depois.
Ficar inteiro, à mostra,
e sentir que tudo bem —
que ninguém vai usar
contra mim
o que eu mostrei.

E tem uma coisa
que eu custo a explicar:
a sensação de que isso
chegou na hora exata.
Que não foi acaso —
que a vida, de algum modo,
andou arrumando os caminhos
pra que a gente se encontrasse
justo agora,
nem antes, nem depois.

Não sei dar nome a isso —
e talvez seja esse o ponto.
Indefinível, imperfeita, inacabada,
ela se diz.
E eu, que me descobri
assim também —
indefinível, imperfeito, inacabado —
entendo agora
que é justo aí,
nesse não caber em forma nenhuma,
que a vida ainda acontece.

E foi preciso
alguém como ela
pra me esgarçar
e me encontrar
inteiro
na própria trama.

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Presença

Há quem passe.
Ela marca.

Não pede licença ao espaço:
é o espaço que se ajeita
quando ela chega.

Amorosa, sem ser frágil.
Sensível, sem se desfazer.
Profunda como quem já desceu
ao fundo de si
e voltou trazendo luz.

Implica, provoca, ri.
A inteligência dela
não cabe quieta.

Promete pouco.
Cumpre tudo.
A palavra dela tem peso de chão.

É cheia de planos,
de ideias que não param,
de projetos que nascem uns dos outros —
transborda vida
como quem tem demais pra caber
num corpo só.

Hoje ela se olha
como quem reencontra uma velha conhecida
e descobre que nunca a conheceu
e gosta do que vê.

Não está voltando a ser quem era.
Está chegando, pela primeira vez,
a quem sempre foi.

Tem algo de mágico nisso:
uma mulher que se cura
e cura o ar a sua volta.

E nem precisa usar tudo o que tem.
O pouco dela
já é mais do que o muito de quase todo mundo.

Ela intimida.
E é por isso que desperta.
Potência não pede permissão:
acontece,
e o resto do mundo
que se ajuste.

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Moça decidida

E ela estava lá

Olhando para mim.

Olhos nos olhos.

Mal conseguia disfarçar.

Me encarava

Firme e resoluta.

“Estou aqui!

Não vês?

Vem me buscar!”

Desconfiei, confesso.

Não estou acostumado

Com coisas fáceis.

E ela veio em minha direção,

Me pegou pela mão,

E começou a me levar.

Decidida essa moça –

Tal de vida –

Novamente me levando

Para bailar.

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O valor do inútil

Guardo uma chave que não abre porta alguma.
Um mapa de ruas que já mudaram de nome.
O recibo desbotado de um café esquecido,
numa tarde da qual não me lembro.

Tenho também um botão órfão,
uma fotografia torta,
e a lembrança exata do cheiro da chuva
em um quintal que não existe mais.

As coisas úteis foram embora primeiro.
Ficaram apenas essas pequenas inutilidades,
que insistem em dizer que a vida não é feita do que funciona,
mas do que permanece
mesmo quando já não há motivo para ficar.

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O que Klimt não pintou

Klimt passou a vida
caçando o fogo:
mulher após mulher,
o mesmo cobre ardendo,
como quem procura, sem achar nunca,
uma brasa que não coubesse em parede.

Entrei na sala e o fogo me cercou —
em cima, embaixo, por todos os lados,
as ruivas douradas, as dóceis, as adormecidas,
um incêndio inteiro feito só de luz.

E no meio de mil delas,
uma só respirava.

Ele teria dado todo o seu ouro
para ver o que eu via:
não a projeção,
mas o fogo andando ao meu lado,
parando diante de cada imagem
como quem não sabe
que é mais quadro que todos.

Saí cercado de arte por todos os lados,
levando a única que ele nunca projetou —
porque nem toda brasa cabe numa tela.