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Podcast 06: Amor, Falta e Entrega

Pip: Agora Babou chegou esta semana com poesia que não pede licença — entra, ocupa, e recusa sair.

Mara: Os poemas cobrem território bem definido: a entrega total ao outro, a dor física da ausência, e as feridas que aprendem a se esconder. Vamos começar com o que acontece quando alguém se rende de vez.

Entrega e desejo

Pip: A pergunta que abre este bloco é simples e assustadora: o que acontece quando você para de se defender do amor?

Mara: "Rendição" responde sem hesitar — "há em mim essa entrega crua, exposta — um querer que não se contém, que não pede razão."

Pip: Sem razão, sem recuo, sem volta. A entrega descrita ali não é escolha — é reconhecimento de que a resistência já não faz sentido.

Mara: E o poema vai além: o outro não é abrigo, mas "mundo vasto onde me perco, onde me encontro." Esse é o mesmo território que "Mundo vasto" condensa em três linhas — perder-se para encontrar o nós.

Pip: "Febril" pega essa mesma febre e mostra o lado noturno: o eco que rompe madrugadas sem aviso, o corpo que cede mas a mente permanece desperta. É o mesmo amor, outra temperatura.

Mara: "Domingo, fim de tarde" traz o contraponto mais suave — o cheiro do outro no amanhecer, o beijo sem pressa, o tempo aprendendo a caminhar no ritmo do amor.

Pip: E então "Todos" brinda pelos dias inesquecíveis — inclusive os passados sem a pessoa amada. Memória como forma de posse.

Mara: "Até" fecha o ciclo com a promessa mais longa possível: tudo, até o dia da morte — e o que está no meio são só reticências. O silêncio faz o trabalho.

Pip: Quando o amor é assim absoluto, a ausência não some — ela muda de forma.

Ausência e saudade

Mara: Este bloco pergunta o que resta quando a presença vai embora — e a resposta não é vazio, é ardência.

Pip: "Ausência viva" não deixa dúvida: "tua falta arde pelas frestas da madrugada — meu corpo vigia."

Mara: Vigiar sem objeto. "Calor em suspenso" estende isso para uma cena inteira: o vinho intocado, o frio entrando devagar nos espaços onde havia cheiro e cor, e a pergunta que não se cala — por que precisa esfriar e ainda assim não acontecer?

Pip: "Distante" adiciona a dimensão do tempo perdido: não deu tempo de olhar nos olhos, e coube uma eternidade num único instante. A aquarela cuidadosamente pintada virou quadro borrado.

Mara: Ausência que arde, calor que não chega, distância que não se escolheu. O próximo passo é entender o que essas feridas fazem por dentro.

Feridas e vulnerabilidade

Pip: Há uma pergunta incômoda aqui: e se a superfície calma for exatamente onde a fratura é mais funda?

Mara: "Entre Ruídos" nomeia o mecanismo: "um cuidado que se traveste de zelo, mas que não ajuda — separa." Vozes que não chegam como palavra, chegam como desvio.

Pip: O dano invisível. "Quebrado" aprofunda isso — feridas que aprendem cedo a se esconder na pele aparentemente intacta, e quem aprende a sorrir onde mais arde.

Mara: "Ainda" responde com algo raro: não culpa, mas reconhecimento. Há momentos em que se pesa quando bastava tocar mais leve. E mesmo assim, o que é verdadeiro entre dois permanece intocável.

Pip: Três poemas, uma conclusão: o que não sangrou não está necessariamente inteiro.


Mara: Entrega sem defesa, ausência que arde, feridas que se escondem — o amor aqui nunca é simples.

Pip: Não. É febre, é vertigem, é queda — e ainda assim é onde se descansa. Semana que vem, mais Agora Babou.

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Até

Eu te prometo:

.

.

.

.

.

.

.

Tudo isso.

Até o dia que eu morrer.

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Calor em suspenso

o vinho repousa
intocado,
como se aguardasse
um gesto que não vem

o frio entra devagar,
sem anúncio,
ocupando os espaços
onde antes havia cheiro e cor

há uma distância
que não se explica

não está nas ruas,
nem no tempo

mas no que deixa
de chegar

e tudo continua:

a noite,
o inverno,
o silêncio –
o próprio vinho

como se fosse natural

como se tivesse de ser assim

e é nisso que algo falha

porque ainda há calor
em algum lugar

ainda há presença
no que não foi dito

e, ainda assim,

não se aproxima,
não se aconchega

por que precisa esfriar
e ainda assim não acontecer?

por que precisa ser no inverno,
justo quando é mais propício vinho?

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Distante

Não deu tempo de olhar nos olhos,
de dizer se sim ou se não.

O coração parou no meio – sem saber.
E coube uma eternidade num único instante.

Não me foi dada escolha:
era aceitar ou desvanecer.

E a aquarela
que com calma pintei

Se tornou, de repente,
um quadro borrado,

distante.

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Ainda

Talvez eu ainda não saiba
atravessar tudo isso
como poderia.

Há momentos em que peso
quando bastava
tocar mais leve.

E, se é assim,
eu sinto muito.

Não como culpa,
mas como quem percebe
que a dor também desvia
o gesto
e silencia.

Mesmo assim,
há algo em mim
que não se move.

Eu te quero
com verdade.

Estou contigo,
inteiro no que sou,
o que não significa
que eu não possa ser mais.

Há algo entre nós
que não se divide,
não se explica,
não se oferece ao mundo.

A verdade,
essa que não precisa ser dita:

é nossa.

E de mais ninguém.

E, por isso,
não há espaço
para o que vem de fora,
nem para o que tenta ocupar
o que nunca foi seu lugar.

Há o que é nosso.

E isso
permanece

intocável.

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Rendição

rendo-me também
ao que em você me encontra

sem defesa,
sem medida

teu sorriso me chama
pelo meu nome

e eu vou
inteiro

sem volta,
sem recuo

há em mim essa entrega
crua, exposta

um querer que não se contém,
que não pede razão

teus mistérios me tomam
teu mundo me envolve
me atravessa
me desarma
e eu me deixo
porque já não sei existir
onde tu não estejas

te tenho em mim
não como abrigo
mas como munso vasto
onde me perco
onde me encontro
onde já não sei me separar
de ti

te querer
é também febre de mim,
por mim

é excesso
é vertigem
é queda
e ainda assim
é onde descanso
do princípio
até o fim

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Febril


há também tempestades em mim

não contidas —
apenas vivas
no que insiste em atravessar

teu eco rompe minhas madrugadas
sem aviso,
sem rumo,
sem descanso

e eu também permaneço desperto
mesmo quando o corpo cede

precipito, sim —
não por falta de ver,
mas por não caber em mim

entre fé e futuro
também me perco

e o repouso me escapa
pelas mesmas frestas
onde tua ausência insiste

te tenho em mim —
não como escolha,
mas como algo que fica e é

a falta de você
também me revira
também me atravessa

e me encontra
onde eu já não sabia existir

te querer em mim
arde igual

é febre,
é excesso,
é o que não se aquieta

e, no meio disso tudo,
eu não peço alívio

a nossa diferença?

eu tenho uma febre que aprendeu
a não pedir cura

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Todos

Te brindo pelos dias inesquecíveis:

Os que passei contigo

E os que passei sem ti.

Pois tu és tudo que me lembro:

Das manchas no lençol

Às lágrimas que fingi sorrir.

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Quebrado

Há feridas que não aparecem,
e que parecem não precisar de cuidado imediato.

Aprendem cedo
a se esconder na pele —
aparentemente intacta.

E, por fora, tudo parece calmo.

É como se a vida tivesse sido leve
em alguns corpos.

Mas eu sei…

Ninguém atravessa o tempo
sem ser marcado.

Há dores que não deixam rastro,
porque nunca puderam sangrar —
mesmo quando era necessário.

Há quem aprenda cedo
a sorrir onde arde,
onde mais arde.

E a chamar de paz
o que na verdade é ausência de voz.

Não invejo mais as superfícies.

Desconfio delas.

E, às vezes,
é no que parece inteiro
que a fratura é mais funda.

Porque nem tudo que não dói
está, de fato, inteiro.

Me reconheço mais nos quebrados —
há neles uma honestidade
que não se esconde,
que marca.

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Entre Ruídos

Há vozes que não se mostram,
mas atravessam.

Agem nas sombras
de seus infortúnios.

Não chegam como palavra,
chegam como desvio.

Pequenos gestos,
dizeres à meia-luz.

Um cuidado que se traveste de zelo,
mas que não ajuda – separa.

E, sem que se veja,
algo se desorganiza

Laços temporariamente cedem.

Não pelo peso do tempo,
mas pelo que sussurra
fora do alcance.

E quando se percebe,
há distância
onde antes havia caminho.

Não por falta de presença,
mas por excesso de sombras
desconvidadas.

E, ainda assim,
o que é de verdade
não se desfaz:

Apenas atravessa o que tenta separá-lo.