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Cansaço – Álvaro Campos (Fernando Pessoa)

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

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Conciso

Voz que se cala:

Cansou de explicar o mar

A quem teme a água.

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Batismo

Céu desaba em mim,

Lava o rastro do medo:

Soberano ando.

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O inventário do silêncio

Os dias de espera
Me prepararam
Para os dias
De nunca mais.

Dias que o tempo levou
E que o vento não mais traz.

Há um silêncio novo na casa,
Que a longa espera ensinou,
O tempo, que antes era brasa,
Cinza mansa se tornou.

Não é o fim da estrada que vejo,
Mas o fim de um modo de andar.
Guardo no peito o meu amor e desejo,
Para em silêncio observar.

São os dias de nunca mais ser o mesmo,
Para que a verdade possa, enfim, chegar.

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Talvez seja a hora

Talvez seja a hora

De dar um tempo

(definitivo)

Das redes sociais

Das vitrines sociais

E ver apenas o que chega até mim

Não mais através de telas

Mas através dos meus próprios olhos

Estes sim, definitivos.

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Onde te colocas

Ao lado de teus algozes,

És nada além de um condenado.

Ao lado dos que te amam,

És o elixir da felicidade.

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Aos borbotões

Bem sabes

Que meus versos são teus

Assim como sabes

Que teus desejos são meus.

As palavras –

E nem só as palavras –

Jorram aos borbotões.

Poemas eu escrevo

Quando tu me afogas

Em teus desejos:

És-me pura fascinação.

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Coisas todas

Algumas coisas não são

Até porque seriam

Se tivessem que ter sido.

E isso basta:

É resposta

É verdade

É.

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Boleto

Querem escolher o que ouço.

Querem escolher o que falo.

Querem escolher para onde vou.

Querem escolher de onde eu vim.

Querem escolher quem devo amar.

Querem escolher quem devo odiar.

Grato, ofereci um boleto:

Ninguém quis.

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Portas e janelas abertas

Deixarei as portas e as janelas abertas

Para teu amor adentrar se assim desejar.

Deixarei as portas e as janelas abertas

Para teu amor partir se assim desejar.

Mas sobretudo deixarei as portas e as janelas abertas

Para teu amor permanecer se assim desejar.

Porque amor só é amor assim:

Liberdade de ir e vir,

Liberdade para ficar.