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O que precisa ser

Havia um rio entre a tua dor e a minha visão,
E eu julgava conhecer o que não podia ver;
Faltava à ponte a firmeza da comunicação,
Faltava coragem para tudo esclarecer.

Eu via apenas a margem, não a profundidade,
Você guardava correntes difíceis de revelar;
E, entre silêncio, ruído e vulnerabilidade,
Perdíamos caminhos que só o diálogo podia mostrar.

Mas quando a verdade encontrou voz para nascer,
E a escuta trocou o julgamento pela atenção,
Descobri que amar é primeiro tentar entender,
Antes de procurar respostas ou explicação.

Nenhuma alma se revela sem a coragem de dizer,
Nem existe amor sem compreensão.

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Entre o que foi dito

Não fomos feitos apenas das coisas que acertamos.

Há marcas em minhas mãos que vieram das tuas ausências, e talvez haja em ti cicatrizes deixadas pelas minhas.

Durante muito tempo contamos as perdas como quem recolhe cacos de uma casa depois da tempestade, sem perceber que também éramos parte dos escombros.

Eu te perdoo pelos caminhos em que te perdeste.

E peço perdão pelos caminhos em que me perdi.

Não porque a dor não tenha existido, nem porque o passado possa ser refeito.

Mas porque descobri que carregar culpa demais é outra forma de continuar preso ao que já passou.

Talvez amar, às vezes, seja deixar de procurar culpados.

E apenas reconhecer que houve duas pessoas tentando sobreviver com os recursos que tinham.

Que o reenconro venha sem tribunais.

E que que permaneça a delicadeza de saber

que fomos imperfeitos, sim,

mas nunca indiferentes.

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Eu não soube desfazer teus medos

Trouxe abrigo, mas havia tempestades que moravam antes de mim.

Acendi luzes, mas algumas sombras conheciam a casa melhor do que eu.

Aprendi que certos abismos não se abrem entre duas pessoas.

Já estavam lá.

Existem.

São.

E há feridas que não cedem apenas porque foram amadas, acolhidas, lambidas.

Ainda assim, sigo acreditando na força dos braços que tentam acolhê-las.

Em braços leais que acreditam, ainda que também precisem de cura.

Braços que se estendem não por obrigação, mas por afeto.

Que permanecem não por dever, mas por amor.

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Ainda

Talvez eu ainda não saiba
atravessar tudo isso
como poderia.

Há momentos em que peso
quando bastava
tocar mais leve.

E, se é assim,
eu sinto muito.

Não como culpa,
mas como quem percebe
que a dor também desvia
o gesto
e silencia.

Mesmo assim,
há algo em mim
que não se move.

Eu te quero
com verdade.

Estou contigo,
inteiro no que sou,
o que não significa
que eu não possa ser mais.

Há algo entre nós
que não se divide,
não se explica,
não se oferece ao mundo.

A verdade,
essa que não precisa ser dita:

é nossa.

E de mais ninguém.

E, por isso,
não há espaço
para o que vem de fora,
nem para o que tenta ocupar
o que nunca foi seu lugar.

Há o que é nosso.

E isso
permanece

intocável.

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Aquilo que permanece – Parte 1/3

O que falta também ocupa lugar.

I. Lado Ausente

Olhei para o seu lado da cama.

Você estava —
como sempre fica
tudo o que em mim
ainda insiste.

Estendi a mão.
Nada toquei.

O vazio
não recua.


II. Vestígio

A posição do travesseiro
ainda guarda
um gesto antigo.

Nada ali se move.

E, ainda assim,
algo se repete.


III. Medida

O colchão sabe
onde você esteve.

Eu
já não alcanço.


IV. Forma

Não havia você,
mas o espaço
seguia com a sua forma.

Respirei fundo.

O ar não traz de volta
o que insiste em faltar.


V. Interrupção

Fechei os olhos.

Ali,
você sem falha
estava.

Abri.

E tudo desaba
sem ruído.


VI. Limite

A noite deita ao meu lado
sem tentar substituir.

Ela sabe
o que não é.


VII. Verdade

A cama fria
não mente.

Ela não lembra,
não tenta,
não inventa.

É mais honesta
que a memória.


Aquilo que permanece – Parte 1/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 2/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 3/3 | Agora Babou

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O inventário do silêncio

Os dias de espera
Me prepararam
Para os dias
De nunca mais.

Dias que o tempo levou
E que o vento não mais traz.

Há um silêncio novo na casa,
Que a longa espera ensinou,
O tempo, que antes era brasa,
Cinza mansa se tornou.

Não é o fim da estrada que vejo,
Mas o fim de um modo de andar.
Guardo no peito o meu amor e desejo,
Para em silêncio observar.

São os dias de nunca mais ser o mesmo,
Para que a verdade possa, enfim, chegar.

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No silêncio

foi no silêncio

que eu disse

só assim você me ouviu

tal como se fosse

tua própria voz

gritando

tudo

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Só repare

Repare em mim

Em você

Em nós

Na gente

No que você sente

Por conta de existirmos.

.

Não deixe

Para nos sentir

Na saudade

Porque ela ensina e revela

Mas é professora arrastada

Que geralmente chega muito tarde.

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Ciências Humanas não são senso comum!

No Brasil de hoje, está em curso um preconceito muito grande com relação as Ciências Humanas de uma forma geral, sendo isso relativamente fácil de ser explicado.

Há uma definição na página da UFMG que achei brilhante:

“Em casa, nas ruas, nos ônibus, na escola, no trabalho, no mundo virtual. Em todos os lugares, os seres humanos estabelecem relações entre si, sejam elas de amizade, afeto ou poder. Mas quem é capaz de compreendê-las? As Ciências Humanas procuram ir fundo naquilo que é mais peculiar em nós e talvez, por isso, mais difícil de ser desvendado: a nossa humanidade. Filosofia, Psicologia, Ciências Sociais, História e Pedagogia. Quem escolhe trilhar um desses caminhos deve se desfazer de preconceitos e não se contentar com o óbvio.”

Copiado hoje, no dia 08/05/2019, desta página. O autor do texto é Vinícius Luiz.

O próprio texto já explica o desafio: como essas ciências tratam de fatos do nosso dia-a-dia, é muito fácil para os desavisados acreditar que se trata apenas de senso comum, e por se tratar de senso comum, é algo raso e de fácil compreensão. Grave engano. Gravíssimo!

Vou citar um exemplo da minha área (sou formado em Ciências Econmômicas, que é uma Ciência Humana). Tenho lido com frequência que, para aumentar a arrecadação do governo, é preciso aumentar impostos. Parece algo sensato, não? Diminuir gastos e privilégios completamente desnecessários deveria ser mais óbvio ainda (mas vamos deixar isso para outro post). Então, apresento-vos a Curva de Laffer:

laffer

Essa curva é bem elementar para quem fez o curso de Economia, e basicamente (e de forma bem simplificada) quer dizer que há um ponto ótimo em que a carga tributária arrecada o máximo que é possível sem prejudicar a atividade econômica. Trocando em miúdos, ao contrário do que se pode esperar como leigo, aumentar os impostos pode realmente diminuir a arrecadação do governo, até mesmo ao ponto de não haver arrecadação (e nem produção). Maiores detalhes podem ser encontrados nesta página.

Percebem o dilema? As discussões nas redes sociais, por exemplo, baseiam-se, em sua grande maioria, no senso comum. E como falta ao brasileiro (especialmente!!!) a humildade para perceber que há mais sobre um determinado assunto do que ele consegue perceber, dão-se os embates improdutivos e que só servem para dividir ainda mais a sociedade.

Muitos dizem: “Tales de Mileto não era formado em Filosofia! Aristóteles e Platão também não! Nem Descartes!” Pois é… Mas estes foram mais do que isso: foram as pedras angulares do que conhecemos sobre Filosofia nos dias de hoje. Muito foi contruído em cima do que eles disseram, e para entender essa base de conhecimento e discutir com propriedade é necessário SIM fazer uma faculdade (ou ser um autodidata minimamente sério, sob pena de ser cooptado pelo seu próprio entendimento, pelo senso comum).

Não vou entrar na questão que envolve aqueles que se utilizam da ciência para justificar as suas ideologias. Essa é outra questão completamente fora do que quero cobrir aqui, mas agrava ainda mais a percepção leiga de que não há um mínimo conjunto de regras ou conhecimento sobre o qual os “escolados” se apoiem diante de uma discussão.

Sem mais delongas, espero ter conseguido cumprir o meu objetivo. Fiquem atentos ao que é dito apenas com o intuito de politizar ou minimizar os mais variados campos de conhecimento da humanidade. Não chegamos até onde estamos somente através da Matemática, por exemplo. O bom mesmo é falarmos do que entendemos, reservando a nós mesmos sempre o direito de termos a nossa própria opinião, desde que sejamos capazes de entender as nossas limitações. Para maiores detalhes, sugiro pesquisar sobre Episteme e Doxa.

Comentários? Por favor! 🙂

—

Pulicado originalmente em 8 de Maio de 2019.

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Besteira

Te amo neste fim de noite

Neste meio fio

Neste precipício

Nesta ribanceira.

Te amo contando trocados

Pedindo fiado

Engolindo poeira.

Tanto faz!

Porque tu és este amor

Que jorra de teu peito

E me fecunda por inteiro.

Te amo porque é o que sei fazer

É o que me faz ser quem sou

E o resto é pura besteira.