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Ferrugem

Não cheguei com o aço.
Vim depois, quando o brilho já se cansara,
e enquanto a tinta descascava e partia,
fui ficando.

Fui testemunha do que ninguém velou:
o óleo escuro que um dia me encheu e secou,
o galpão que se fechou e nunca mais abriu,
o silêncio que foi tomando conta de tudo.

E o óleo, que pensei perdido no fundo,
voltou anos depois na minha pele de ferro —
não mais escuro, mas vermelho,
como sangue que a espera fez subir à superfície.

Os invernos vieram pra me arrancar.
Vieram todos, um por um,
e um por um foram embora.
Eu continuei.

Não me confundam com a morte do ferro.
Sou o que nele resistiu,
a cor teimosa de uma promessa
que ninguém mais lembrava ter feito.

Me chamam de ruína.
Mas ruína é o que abandona.
Eu sou a parte que ficou
quando tudo o mais aprendeu a ir embora.

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