Há quem passe.
Ela marca.
Não pede licença ao espaço:
é o espaço que se ajeita
quando ela chega.
Amorosa, sem ser frágil.
Sensível, sem se desfazer.
Profunda como quem já desceu
ao fundo de si
e voltou trazendo luz.
Implica, provoca, ri.
A inteligência dela
não cabe quieta.
Promete pouco.
Cumpre tudo.
A palavra dela tem peso de chão.
É cheia de planos,
de ideias que não param,
de projetos que nascem uns dos outros —
transborda vida
como quem tem demais pra caber
num corpo só.
Hoje ela se olha
como quem reencontra uma velha conhecida
e descobre que nunca a conheceu
e gosta do que vê.
Não está voltando a ser quem era.
Está chegando, pela primeira vez,
a quem sempre foi.
Tem algo de mágico nisso:
uma mulher que se cura
e cura o ar a sua volta.
E nem precisa usar tudo o que tem.
O pouco dela
já é mais do que o muito de quase todo mundo.
Ela intimida.
E é por isso que desperta.
Potência não pede permissão:
acontece,
e o resto do mundo
que se ajuste.
Arquivo da tag: presença
Perene
Há pessoas que passam
por nossa vida,
e há aquelas que permanecem.
Não porque estejam sempre perto,
mas porque encontram um lugar
que o tempo não consegue alcançar.
Foi assim.
Não uma resposta,
mas uma pergunta.
Não uma estrada,
mas uma direção.
Durante anos,
entre aproximações e silêncios,
entre conversas longas
e despedidas apressadas,
foi desenhando a própria presença
num território que nunca pertenceu
inteiramente ao sim
nem inteiramente ao não.
Há quem ame no conforto das certezas,
Mas existem amores
que habitam as entrelinhas.
Vivem do que foi dito,
do que não foi dito,
do que quase aconteceu
e do que permaneceu esperando.
E talvez seja por isso
que algumas presenças continuem ecoando.
Não pela perfeição.
Não pela facilidade.
Mas porque certas pessoas
nos obrigam a olhar para dentro.
A descobrir a coragem,
a vulnerabilidade,
a esperança,
e até as feridas
que fingíamos não possuir.
São como aquelas estrelas
que nem sempre enxergamos.
Algumas noites desaparecem
atrás das nuvens.
Mas continuam lá.
Distantes.
Presentes.
Inalcançáveis às vezes.
E, ainda assim,
parte da paisagem.
Talvez um dia
os caminhos finalmente se encontrem.
Talvez não.
A vida nem sempre revela seus planos
no tempo que gostaríamos.
Mas existem presenças
que desafiam o passar dos anos.
Não desaparecem.
Não se tornam lembrança.
Permanecem.
Entre os dias comuns,
nas palavras guardadas,
nos reencontros inesperados,
nas histórias que ainda procuram
a própria forma de existir.
E algumas histórias,
por mais longas que sejam as pausas,
recusam-se a terminar.
Não porque pertençam ao passado,
mas porque continuam habitando
o horizonte.
Como o mar visto de longe:
nem sempre ao alcance das mãos,
mas sempre presente aos olhos.
E enquanto houver horizonte,
haverá caminho.
E enquanto houver caminho,
nenhuma página precisará ser
a última.

Eu não soube desfazer teus medos
Trouxe abrigo, mas havia tempestades que moravam antes de mim.
Acendi luzes, mas algumas sombras conheciam a casa melhor do que eu.
Aprendi que certos abismos não se abrem entre duas pessoas.
Já estavam lá.
Existem.
São.
E há feridas que não cedem apenas porque foram amadas, acolhidas, lambidas.
Ainda assim, sigo acreditando na força dos braços que tentam acolhê-las.
Em braços leais que acreditam, ainda que também precisem de cura.
Braços que se estendem não por obrigação, mas por afeto.
Que permanecem não por dever, mas por amor.

Campo não atingido
Não foi falta de gesto.
Nem ausência.
Houve palavra.
Houve tempo.
Houve um corpo inteiro
se inclinando na direção de alguém.
Como estar diante do outro,
com tudo o que se é,
e ainda assim
não atravessar o seu campo de visão.
Então, você avança,
tenta consertar o que não se deixa ajustar.
Afina a linguagem,
oferece mais tempo,
mais escuta,
mais disponibilidade do que havia lugar.
Você chega mais perto.
E é aí
que o tudo se desfaz.
Não há respostas —
apenas retornos tortos,
como quem não sustenta o peso
do que recebe.
Você se estende,
e o excesso, nesse ponto,
já não é mais presença:
é exposição.
Não é a ausência que apaga alguém,
é o transbordo
no lugar que nada contém.
Você fala,
fica,
insiste…
E não alcança.
Não por erro.
Não por falta.
Mas porque, do outro lado,
não há superfície
onde o que você é repouse.
Dói
com uma precisão que não grita.
Porque o amor ficou,
mas sem lugar.
E é então que algo muda de eixo.
Não há recuo.
Não há escolha limpa.
Há um reconhecimento duro:
continuar
já não é cuidar;
é se entregar ao apagamento.
Mas há um limite:
nítido, ainda que invisível,
que o outro não vê.
E não é distração.
Não é atraso.
É limite.
E permanecer
é participar
da própria ausência.
Então, ir embora acontece.
Não como gesto forte.
Não como ruptura.
Mas como quem retira o próprio reflexo
de um espelho
que não devolve mais imagem.
E o mais difícil
é saber
que o amor não acabou.
Mas dizer, mesmo assim:
não fico
onde não posso existir.

Topografia do Ausente
Não é o amor que acaba primeiro.
Ele fica.
Como um móvel esquecido
numa casa que ainda guarda calor,
mas que já não sustenta presença.
O que se perde antes
é a delicadeza de reconhecer o outro
como território, como extensão:
um mapa mínimo, íntimo,
que se dobra, se fecha,
e deixa de ser lido.
É esquecido.
De repente, você fala
e a sua voz não pousa.
Paira.
Não há queda, nem choque,
só um deslocamento lento das coisas,
como se o mundo, exausto,
desaprendesse o equilíbrio de dois.
O amor, então, persiste
por debaixo,
quase brasa sob cinza.
Mas amar sozinho
é um silêncio com memória:
isso pesa, dói.
Há um instante — quase cego —
em que você se percebe menor,
ajustando arestas,
apagando excessos,
pisando em ovos
para caber no resto.
E é ali,
nesse quase nada,
que algo insiste:
não é orgulho,
não é dor nem fúria:
é precisão.
Uma lembrança exata
de quem você é quando inteiro.
E isso não se negocia.
Ir embora
não rompe o que houve:
expõe a falta do que sustentava.
Porque há amores que continuam
mesmo depois de esquecidos
no corpo do outro,
mas nenhum atravessa o tempo
sem o mínimo gesto
de reconhecimento.
Então você fecha a porta devagar,
como quem ainda alinha os objetos
antes de sair.
(não se quebra o que fica)
E depois, sem anúncio,
já em outra paisagem,
o corpo se refaz:
aprende de novo o espaço,
a medida,
o direito simples
de existir inteiro.
E, pouco a pouco,
sem que se perceba,
o mundo volta a oferecer passagem.
Não é o mesmo gesto.
Não é o mesmo nome.
É apenas isso:
alguém que sustenta o olhar
– e fica.
E ali,
sem esforço,
o encontro acontece.

Quase igual
O tempo desloca o que parecia ficar,
quase sem aviso, altera o sentir.
O que antes cabia começa a não estar,
sem que se nomeie o gesto de partir.
Há gestos que já não encontram lugar,
palavras que soam sem o mesmo tom.
O que antes vibrava aprende a calar,
e a antiga presença recua no som.
Mas algo persiste sem buscar lugar,
um traço difuso que insiste em seguir.
Não volta ao que foi nem deixa de estar,
apenas se inclina ao que é existir.

Sakura
Sob a flor de cerejeira,
o tempo não pesa: flutua.
As pétalas caem sem drama,
como quem aceita partir
antes mesmo de ficar.
E ali, entre um sopro e outro,
você existia:
leve,
inteira,
quase impossível de nomear.
Havia algo no seu olhar
que não pedia futuro: apenas presença.
Como as sakuras:
breves,
delicadas,
inesquecíveis não por durarem,
mas por acontecerem.
E eu,
entre a queda de uma pétala
e o silêncio seguinte,
entendi:
Alguns encontros
não são feitos para permanecer,
mas para florescer dentro.

Qualquer lugar
Vou sair um pouco.
Vou até um lugar diferente.
Sei lá…
Qualquer lugar,
Onde o simples fato de eu lá estar,
Não me faça lembrar da gente.

Escolhas
Se algum dia o prazer da minha ausência falar mais baixo do que a dor da minha presença, lembre-se disso: a escolha foi toda tua.

P.S. 16
Acredita que acordei com a nítida sensação de que você iria me ligar ou mesmo aparecer na porta da minha casa?
