Avatar de Desconhecido

Distante

Não deu tempo de olhar nos olhos,
de dizer se sim ou se não.

O coração parou no meio – sem saber.
E coube uma eternidade num único instante.

Não me foi dada escolha:
era aceitar ou desvanecer.

E a aquarela
que com calma pintei

Se tornou, de repente,
um quadro borrado,

distante.

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Topografia do Ausente

Não é o amor que acaba primeiro.

Ele fica.

Como um móvel esquecido
numa casa que ainda guarda calor,
mas que já não sustenta presença.

O que se perde antes
é a delicadeza de reconhecer o outro
como território, como extensão:
um mapa mínimo, íntimo,
que se dobra, se fecha,
e deixa de ser lido.

É esquecido.

De repente, você fala
e a sua voz não pousa.

Paira.

Não há queda, nem choque,
só um deslocamento lento das coisas,
como se o mundo, exausto,
desaprendesse o equilíbrio de dois.

O amor, então, persiste
por debaixo,
quase brasa sob cinza.
Mas amar sozinho
é um silêncio com memória:
isso pesa, dói.

Há um instante — quase cego —
em que você se percebe menor,
ajustando arestas,
apagando excessos,
pisando em ovos
para caber no resto.

E é ali,
nesse quase nada,
que algo insiste:
não é orgulho,
não é dor nem fúria:
é precisão.
Uma lembrança exata
de quem você é quando inteiro.

E isso não se negocia.

Ir embora
não rompe o que houve:
expõe a falta do que sustentava.

Porque há amores que continuam
mesmo depois de esquecidos
no corpo do outro,
mas nenhum atravessa o tempo
sem o mínimo gesto
de reconhecimento.

Então você fecha a porta devagar,
como quem ainda alinha os objetos
antes de sair.

(não se quebra o que fica)

E depois, sem anúncio,
já em outra paisagem,
o corpo se refaz:
aprende de novo o espaço,
a medida,
o direito simples
de existir inteiro.

E, pouco a pouco,
sem que se perceba,
o mundo volta a oferecer passagem.

Não é o mesmo gesto.
Não é o mesmo nome.

É apenas isso:
alguém que sustenta o olhar
– e fica.

E ali,
sem esforço,
o encontro acontece.

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Supondo que…

Se eu for embora

Ninguém vai perceber

Não sei se isso é uma maldição

Ou um super poder.

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Queria…

Talvez te querer um pouco menos.

Não por orgulho ou vaidade,

Mas porque tudo é motivo de saudade,

E quando estou a teu lado,

Já antecipo a dor do soco da despedida,

Que sempre é por demais dorida,

Ainda que seja um simples “Até mais tarde”.

.

Mas fato é que não há como te querer um pouco menos,

E todo e qualquer momento

É tempo de te querer um pouco mais.

Que sentido faz então eu querer

Algo do qual não sou capaz?

.

Queria… –

Será? –

Fato é que depois deste desabafo

Eu te quero ainda mais.

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No soro

Eu só te disse adeus porque foi isso que você me pediu. De resto, estou no soro para repor as lágrimas do que eu nunca quis.

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Agora

Se não sentires vontade de falar comigo quando Morfeu te devolve ao mundo ou mesmo quando ele se prepara para novamente receber-te, vai-te embora.

Se as músicas que ouvimos tantas e tantas vezes juntos não te remetem aos inúmeros pequenos e grandes momentos que vivemos juntos, vai-te embora.

Se a calor do sol que esquenta a tua pele não fizer com que te lembres de todas as loucuras que já vivemos na cama (e em outros lugares também), vai-te embora.

Se os aromas e gostos que tanto nos diziam não forem capazes de fazer com sintas frio na barriga ou arrepios na pele, vai-te embora.

Se eu não estiver na lista daqueles que surgem na tua mente quando estás com um problema ou simplesmente porque precisas desabafar, vai-te embora.

Talvez eu implore para que fiques. Vai me doer, vai me fazer sangrar, mas insisto: vai-te embora.

Porque há muito mais no mundo esperando por mim. Eu sei que há, pois já passei por isso antes. Talvez passe por isso novamente. Eu não sei. Só vai-te embora, porque é chegada a minha hora e a nossa hora morreu de inanição.

Mas acima de tudo, vai-te embora, porque não preciso da tua pena. Não preciso da tua misericórdia. Não preciso da tua caridade, porque sei que ainda que eu caia, jamais ficarei no chão. A verdade não é capaz de me matar. Nunca será.

E se assim for, vai-te embora, porque a tua presença impede o milagre do porvir e de tudo que preciso para viver e me sentir vivo.

Eu quero tudo e quero muito. E quero agora, porque eu vivo e sou o agora.

E agora, vai-te embora. Sem demora. Há pressa diante do que a vida ainda tem para mim.

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Miragens

Os ritos de passagem são necessários.

As lágrimas, o cansaço,

A tristeza, a exaustão,

A dor, a solidão…

Sentir um pouco de tudo vale.

Mas se são ritos de passagem,

É neles que se iniciam novas viagens.

Então, aproveite a paisagem:

É estrada sem retorno

Para longe de falecidas miragens.

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E assim foi

Não lembro

Não digo

Não divido

Não compartilho

Não planejo

Nada faço

Para que te sintas comigo

 

E ainda assim

Na ilusão de que tenho-te para sempre

Vivo essa vida doente

De ser tão independente

E de fato não estar bem sequer comigo

 

Não orbitas ao meu derredor

E sim, queres mais de nós

E eu sigo impassível

Querendo que seja inesquecível

O que faço de tudo para tornar perecível

 

A culpa não é tua, meu amor

 

Minha alma é muito sofrida

Minha vida muito dorida

E eu aquele sempre debochado sorriso de vida:

Eu não mais te amo.

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Adeus

Se tu leres o que escrevo,
Saberás que é para ti
Este polido e fiel recado,
Notório, mas nunca por mim revelado,
Escrito com o puro sangue
Que jorra de minha cruz sem peso.

Que se diga, portanto, toda verdade,
Este jugo ao qual me submeto,
Esta poesia que canto ardentemente,
No centro de qualquer esquecido coreto,
Faz de meu corpo sacro púlpito,
De onde todos meus pecados confesso.

E se com lágrimas profanas,
Minha dor eu manifesto,
Reservo-me o direito de querer,
Muito mais do que te quero,
Que todos os meus desvairados devaneios,
Por ti e em ti se encerrem.

Não te direi adeus jamais,
Um louco não carece de loucura,
Simplesmente peço que te vás,
E com tua empáfia procure algures,
Outro coração que possas empalar,
E que tua redenção, não obstante, procures.

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Morte

Deixo-te como herança

O meu sorriso

Ei-lo como na chegada

Este da despedida

 

O coração?

Não te preocupes

Apesar de não estar bem

Já há disgnóstico:

Ausência total de toda sorte

Também conhecida como

Morte.

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