Como um móvel esquecido numa casa que ainda guarda calor, mas que já não sustenta presença.
O que se perde antes é a delicadeza de reconhecer o outro como território, como extensão: um mapa mínimo, íntimo, que se dobra, se fecha, e deixa de ser lido.
É esquecido.
De repente, você fala e a sua voz não pousa.
Paira.
Não há queda, nem choque, só um deslocamento lento das coisas, como se o mundo, exausto, desaprendesse o equilíbrio de dois.
O amor, então, persiste por debaixo, quase brasa sob cinza. Mas amar sozinho é um silêncio com memória: isso pesa, dói.
Há um instante — quase cego — em que você se percebe menor, ajustando arestas, apagando excessos, pisando em ovos para caber no resto.
E é ali, nesse quase nada, que algo insiste: não é orgulho, não é dor nem fúria: é precisão. Uma lembrança exata de quem você é quando inteiro.
E isso não se negocia.
Ir embora não rompe o que houve: expõe a falta do que sustentava.
Porque há amores que continuam mesmo depois de esquecidos no corpo do outro, mas nenhum atravessa o tempo sem o mínimo gesto de reconhecimento.
Então você fecha a porta devagar, como quem ainda alinha os objetos antes de sair.
(não se quebra o que fica)
E depois, sem anúncio, já em outra paisagem, o corpo se refaz: aprende de novo o espaço, a medida, o direito simples de existir inteiro.
E, pouco a pouco, sem que se perceba, o mundo volta a oferecer passagem.
Não é o mesmo gesto. Não é o mesmo nome.
É apenas isso: alguém que sustenta o olhar – e fica.
Se não sentires vontade de falar comigo quando Morfeu te devolve ao mundo ou mesmo quando ele se prepara para novamente receber-te, vai-te embora.
Se as músicas que ouvimos tantas e tantas vezes juntos não te remetem aos inúmeros pequenos e grandes momentos que vivemos juntos, vai-te embora.
Se a calor do sol que esquenta a tua pele não fizer com que te lembres de todas as loucuras que já vivemos na cama (e em outros lugares também), vai-te embora.
Se os aromas e gostos que tanto nos diziam não forem capazes de fazer com sintas frio na barriga ou arrepios na pele, vai-te embora.
Se eu não estiver na lista daqueles que surgem na tua mente quando estás com um problema ou simplesmente porque precisas desabafar, vai-te embora.
Talvez eu implore para que fiques. Vai me doer, vai me fazer sangrar, mas insisto: vai-te embora.
Porque há muito mais no mundo esperando por mim. Eu sei que há, pois já passei por isso antes. Talvez passe por isso novamente. Eu não sei. Só vai-te embora, porque é chegada a minha hora e a nossa hora morreu de inanição.
Mas acima de tudo, vai-te embora, porque não preciso da tua pena. Não preciso da tua misericórdia. Não preciso da tua caridade, porque sei que ainda que eu caia, jamais ficarei no chão. A verdade não é capaz de me matar. Nunca será.
E se assim for, vai-te embora, porque a tua presença impede o milagre do porvir e de tudo que preciso para viver e me sentir vivo.
Eu quero tudo e quero muito. E quero agora, porque eu vivo e sou o agora.
E agora, vai-te embora. Sem demora. Há pressa diante do que a vida ainda tem para mim.
Se tu leres o que escrevo,
Saberás que é para ti
Este polido e fiel recado,
Notório, mas nunca por mim revelado,
Escrito com o puro sangue
Que jorra de minha cruz sem peso.
Que se diga, portanto, toda verdade,
Este jugo ao qual me submeto,
Esta poesia que canto ardentemente,
No centro de qualquer esquecido coreto,
Faz de meu corpo sacro púlpito,
De onde todos meus pecados confesso.
E se com lágrimas profanas,
Minha dor eu manifesto,
Reservo-me o direito de querer,
Muito mais do que te quero,
Que todos os meus desvairados devaneios,
Por ti e em ti se encerrem.
Não te direi adeus jamais,
Um louco não carece de loucura,
Simplesmente peço que te vás,
E com tua empáfia procure algures,
Outro coração que possas empalar,
E que tua redenção, não obstante, procures.
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