O nome dela era Rosa, e foi para os braços de Deus no sábado, dia 5 de Julho, aos 81 anos.
Apesar de termos passado os últimos anos afastados, nunca me esqueci do amor que dela recebi. Ela foi muito importante e presente na minha infância e na minha adolescência. Nunca me esquecerei de todas as coisas que ela fez por mim. Será para sempre minha Tia Rosinha, irmã da minha mãe.
O futuro caminha a passos largos. Sempre. Não há lágrima ou lamento que faça voltar o tempo perdido. Queria ter passado mais tempo com ela. Vou carregar essa lacuna comigo até o fim dos meus dias. Coisas (lamentáveis e difíceis de entender) da vida.
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há.” – Legião Urbana
Vai com Deus, minha tia. Obrigado por tudo. Seja recebida na casa de Deus com toda a glória que você sempre mereceu.
Se não sentires vontade de falar comigo quando Morfeu te devolve ao mundo ou mesmo quando ele se prepara para novamente receber-te, vai-te embora.
Se as músicas que ouvimos tantas e tantas vezes juntos não te remetem aos inúmeros pequenos e grandes momentos que vivemos juntos, vai-te embora.
Se a calor do sol que esquenta a tua pele não fizer com que te lembres de todas as loucuras que já vivemos na cama (e em outros lugares também), vai-te embora.
Se os aromas e gostos que tanto nos diziam não forem capazes de fazer com sintas frio na barriga ou arrepios na pele, vai-te embora.
Se eu não estiver na lista daqueles que surgem na tua mente quando estás com um problema ou simplesmente porque precisas desabafar, vai-te embora.
Talvez eu implore para que fiques. Vai me doer, vai me fazer sangrar, mas insisto: vai-te embora.
Porque há muito mais no mundo esperando por mim. Eu sei que há, pois já passei por isso antes. Talvez passe por isso novamente. Eu não sei. Só vai-te embora, porque é chegada a minha hora e a nossa hora morreu de inanição.
Mas acima de tudo, vai-te embora, porque não preciso da tua pena. Não preciso da tua misericórdia. Não preciso da tua caridade, porque sei que ainda que eu caia, jamais ficarei no chão. A verdade não é capaz de me matar. Nunca será.
E se assim for, vai-te embora, porque a tua presença impede o milagre do porvir e de tudo que preciso para viver e me sentir vivo.
Eu quero tudo e quero muito. E quero agora, porque eu vivo e sou o agora.
E agora, vai-te embora. Sem demora. Há pressa diante do que a vida ainda tem para mim.
Quando você me disse adeus, insisti para que ficasse. Eu te amava de forma tão profunda que imaginar a minha vida sem você doía no meu corpo, na minha alma.
Você não deixou de ser uma pessoa maravilhosa por conta disso. É certo que fiquei com um vazio imenso por conta da sua partida repentina, mas seria justo que você ficasse por conta do meu vazio, possivelmente para se sentir vazia também?
O amor aceita a vontade do outro. O amor aceita que as coisas mudem. E hoje, quando me falam de você de você e sei que está bem, sorrio. Era isso que eu queria para você: felicidade!
Que você esteja e seja muito feliz. Sempre! Aceitar e viver o seu adeus foi apenas mais uma das inúmeras maneiras que encontrei de dizer “eu te amo”.
Você me deixou sem chão. Não entendi o que aconteceu. Acho que ainda não entendo. Desisti de entender.
Fiquei esperando uma explicação que nunca veio. No fundo, bem no fundo mesmo, eu tinha a esperança de que algo mudasse, de que algo acontecesse. Nada mudou. Nada aconteceu. A esperança morreu, caducou.
Você me deixou sem chão e durante muitos dias eu tive a sensação de que estava caindo, caindo, e caindo… Até que me dei conta de que mesmo sem chão, mesmo caindo, ainda havia o céu, e em um sopro de lucidez, decidi que faria do céu o meu chão.
Para minha surpresa, parei de cair. Comecei a flutuar nas nuvens das possibilidades, do infinito. O sol lambeu meu rosto e secou minhas lágrimas. Abri o sorriso imenso que trago comigo desde menino. Senti o vento tocando os meus cabelos (o mesmo vento que toca os seus cabelos), e disse um último adeus para a vida e para a realidade que não são mais minhas.
Você me deixou sem chão e com isso eu aprendi a olhar para o céu e a sentir o céu em minha vida. Experimente! É uma sensação incrível!
Obrigado por tudo. Pelo bom e pelo ruim. Vou cuidar da minha vida e flutuar por aí. Adeus.
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