Hoje conversei com uma pessoa que não encontrava havia algum tempo.
Não fisicamente. Nem em fotografias. Nem nas lembranças.
Encontrei na voz.
As vezes a vida é injusta. Acumula cobranças, perdas, preocupações e dias difceis sobre os ombros de alguém até que a própria pessoa passe a acreditar que se resume àquilo que está enfrentando.
Mas ninguém é apenas os seus dias difceis.
Ninguém é apenas a conta que não fecha, a batalha em andamento ou o problema que insiste em não se resolver
Existem pessoas que são maiores do que as circunstâncias que atravessam.
Hoje me lembrei disso.
Enquanto ela falava sobre o próprio trabalho, ouvi novamente o entusiasmo, a curiosidade e a alegria que sempre admirei.
A capacidade de se deixar tocar pelas coisas que dão sentido aos dias.
Foi bom ouvir aquela voz.
Foi bom perceber que algumas presencas permanecem conosco mesmo quando a distância, o tempo ou os problemas tentam escondê-las.
Há pessoas que nunca desaparecem completamente.
Às vezes apenas ficam atrás das nuvens por um tempo.
Como um móvel esquecido numa casa que ainda guarda calor, mas que já não sustenta presença.
O que se perde antes é a delicadeza de reconhecer o outro como território, como extensão: um mapa mínimo, íntimo, que se dobra, se fecha, e deixa de ser lido.
É esquecido.
De repente, você fala e a sua voz não pousa.
Paira.
Não há queda, nem choque, só um deslocamento lento das coisas, como se o mundo, exausto, desaprendesse o equilíbrio de dois.
O amor, então, persiste por debaixo, quase brasa sob cinza. Mas amar sozinho é um silêncio com memória: isso pesa, dói.
Há um instante — quase cego — em que você se percebe menor, ajustando arestas, apagando excessos, pisando em ovos para caber no resto.
E é ali, nesse quase nada, que algo insiste: não é orgulho, não é dor nem fúria: é precisão. Uma lembrança exata de quem você é quando inteiro.
E isso não se negocia.
Ir embora não rompe o que houve: expõe a falta do que sustentava.
Porque há amores que continuam mesmo depois de esquecidos no corpo do outro, mas nenhum atravessa o tempo sem o mínimo gesto de reconhecimento.
Então você fecha a porta devagar, como quem ainda alinha os objetos antes de sair.
(não se quebra o que fica)
E depois, sem anúncio, já em outra paisagem, o corpo se refaz: aprende de novo o espaço, a medida, o direito simples de existir inteiro.
E, pouco a pouco, sem que se perceba, o mundo volta a oferecer passagem.
Não é o mesmo gesto. Não é o mesmo nome.
É apenas isso: alguém que sustenta o olhar – e fica.
A dor não vem leve. Ela pesa. O corpo sente antes mesmo do pensamento conseguir se organizar. O peito aperta. O ar falha. Há momentos em que tudo parece próximo de parar.
E surge a pergunta: “O que eu fiz para merecer isso? Aonde foi que eu errei?”
Há momentos em que eu gostaria de ser o culpado — inteiramente responsável — apenas para ter o que mudar, para ter por onde começar.
Mas nem sempre existe causa clara.
A dor não bate à porta. Ela entra. E ocupa.
Não há para onde ir. Não há como evitar. Não há argumento que alivie, nem distração que alcance.
Resta apenas atravessar.
Atravessar com o que ainda resta de mim, Com respeito e dignidade, sem negar o que foi vivido, sem diminuir o que senti.
Porque algumas dores não são pequenas. Não são passageiras. São daquelas que atravessam por inteiro — corpo, memória, silêncio — e por alguns instantes, parecem não ter fim.
E ainda assim… a dor cede.
Não porque deixamos de sentir, mas porque algo em nós aprende a suportar.
Pais são referência. São carinho, cuidado, afeto, atenção. Tudo movido por um dos sentimentos mais nobre que existem: o amor parental.
Pais transmitem valores. São guia e bússola em se tratando do que é certo e do que é errado. São acolhimento e refúgio, mas são também responsáveis pela transmissão de valores e limites através da educação.
No livro “Podres de Mimados”, do psiquiatra Theodore Darlymple, o assunto é abordado de maneira direta a inequívoca.
A obra “argumenta que o excesso de sentimentalismo e a busca por gratificação imediata, especialmente em relação às crianças, estão destruindo a capacidade de discernimento e de reflexão crítica.
…
O autor critica a tendência de culpar o sistema e a sociedade em vez de assumir a responsabilidade individual, a incapacidade de tolerar a frustração e a busca constante por soluções fáceis.
Dalrymple argumenta que a cultura moderna, especialmente com a influência da mídia e do mundo digital, contribui para essa infantilização e para a dificuldade em lidar com a realidade.”
Fonte: Google Gemini (AI da Google)
Tal percepção coincide com as minhas observações empíricas. Crianças, adolescentes e jovens, sobretudo da Geração Z, se acham “donos do mundo”, porque são infantilizados pelos seus pais, que acreditam cada vez mais que o amor entre pais e filhos é algo transacional. Ou seja, pais e filhos fazem trocas entre si para manter o equilíbrio e uma boa convivência familiar.
Eu me lembro bem de como eram as refeições na minha casa quando eu era criança. Eu comia o que estava na mesa e pronto. Hoje em dia, vemos crianças, adolescentes e jovens agindo de maneira tirânica com o incentivo, consciente ou inconsciente, de seus próprios pais. “Não quer comer isso? Compra o que você quiser na rua.”
E o “afeto transacional” se estende até o infinito. Pais e mães se desdobram para “comprar” o “amor” de seus filhos, quer seja fazendo todas as suas vontades (seja lá quais forem) ou mesmo através do compra direta material. “Toma esse iPhone aqui, meu filho… A gente te ama.”
Por onde andam as frustrações as quais fui submetido?
“Você é muito novo para isso.”
“É o que tem para comer.”
“Isso é assunto entre seu pai e sua mãe.”
“Já te expliquei. É assim e ponto final.”
“Não vai e pronto.”
Nem de longe apoio o uso de violência física (acho abominável), mas pais não serem capazes de dizer não para os filhos ou impor a sua autoridade quando necessário? Como assim? Afinal de contas, quem são os pais e quem são os filhos?
Obviamente, sou favorável a um diálogo amplo entre pais e filhos, mas é preciso que a autoridade dos pais seja o fiel da balança, sob pena de termos (como já temos), toda uma geração que é incapaz de ouvir um não como resposta, o que a faz incapaz de lidar com qualquer tipo de frustração. E pior: é uma geração que se acha no direito de chantagear os pais quando as suas necessidades não são atendidas, o que nos leva de volta ao conceito de “amor transacional”.
Nem de longe escrevo este texto como um teórico ou especialista no assunto, mas escrevo com a autoridade de quem é pai. E escrevo porque quero alertar outros pais sobre a questão, na certeza de que bater de cinto não resolve, mas ser omisso e condescendente também não.
Precisamos criar adultos saudáveis e aptos para os desafios da vida. Precisamos permitir que nossos filhos lidem com as consequências de seus atos e omissões, escolhas e decisões. Precisamos permitir que nossos filhos se frustrem e se acostumem a lidar com isso, sob pena de criarmos adultos inaptos para viver em sociedade e estabelecer relacionamentos saudáveis.
A violência contra a mulher só existe quando há um corpo estendido no chão, inerte, sem vida. Antes disso, ainda que a mulher peça ajuda até mesmo para a família e para os amigos, tudo é exagero, feminismo, precipitação, imaturidade, má fé, vingança contra o parceiro, etc.
A violência contra a mulher faz parte do nosso cotidiano, e não há um único caso em que não tentem atribuir à mulher algum tipo de culpa por ser violentada psicologicamente, espancada, estuprada, e até mesmo morta.
Que a nossa sociedade deixe de ser hipócrita e assuma que é 100% machista. É menos feio do que passar pano para os homens que acham que tem direito de vida e de morte sobre as mulheres.
E aproveitando… Pensar em violência contra a mulher apenas quando ela é fisicamente agredida é de uma ignorância tremenda! E quando ela precisa abrir mão de seus sonhos, vontades e desejos? E quando o homem faz com que a mulher se torne financeiramente dependente dele para que não o largue? E os homens que colocam os filhos contra a mãe em uma tentativa covarde de manipulação? Essas e outras violências, aparentemente invisíveis ou mesmo não vistas propositadamente, doem tanto quanto uma dor física. E ainda assim a sociedade passa pano em tudo que acontece, usando até a Bíblia como argumento em favor dos homens.
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