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A pessoa por detrás da tempestade

Hoje conversei com uma pessoa que não encontrava havia algum tempo.

Não fisicamente. Nem em fotografias. Nem nas lembranças.

Encontrei na voz.

As vezes a vida é injusta. Acumula cobranças, perdas, preocupações e dias difceis sobre os ombros de alguém até que a própria pessoa passe a acreditar que se resume àquilo que está enfrentando.

Mas ninguém é apenas os seus dias difceis.

Ninguém é apenas a conta que não fecha, a batalha em andamento ou o problema que insiste em não se resolver

Existem pessoas que são maiores do que as circunstâncias que atravessam.

Hoje me lembrei disso.

Enquanto ela falava sobre o próprio trabalho, ouvi novamente o entusiasmo, a curiosidade e a alegria que sempre admirei.

A capacidade de se deixar tocar pelas coisas que dão sentido aos dias.

Foi bom ouvir aquela voz.

Foi bom perceber que algumas presencas permanecem conosco mesmo quando a distância, o tempo ou os problemas tentam escondê-las.

Há pessoas que nunca desaparecem completamente.

Às vezes apenas ficam atrás das nuvens por um tempo.

E hoje, por alguns minutos, o céu se abriu.

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Sempre

E se um dia a gente se desencontrar,
guarda uma coisa:

eu nunca fiz sexo com você.
eu sempre fiz amor.

em cada toque,
em cada proposta,
em toda e qualquer sacanagem —

sempre amor.

porque tudo isso
nasceu do mesmo lugar:

amor.

e isso eu nunca tinha vivido com ninguém.

guarda isso contigo,
mesmo que a gente se desencontre.

sempre amor.

sempre.

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Topografia do Ausente

Não é o amor que acaba primeiro.

Ele fica.

Como um móvel esquecido
numa casa que ainda guarda calor,
mas que já não sustenta presença.

O que se perde antes
é a delicadeza de reconhecer o outro
como território, como extensão:
um mapa mínimo, íntimo,
que se dobra, se fecha,
e deixa de ser lido.

É esquecido.

De repente, você fala
e a sua voz não pousa.

Paira.

Não há queda, nem choque,
só um deslocamento lento das coisas,
como se o mundo, exausto,
desaprendesse o equilíbrio de dois.

O amor, então, persiste
por debaixo,
quase brasa sob cinza.
Mas amar sozinho
é um silêncio com memória:
isso pesa, dói.

Há um instante — quase cego —
em que você se percebe menor,
ajustando arestas,
apagando excessos,
pisando em ovos
para caber no resto.

E é ali,
nesse quase nada,
que algo insiste:
não é orgulho,
não é dor nem fúria:
é precisão.
Uma lembrança exata
de quem você é quando inteiro.

E isso não se negocia.

Ir embora
não rompe o que houve:
expõe a falta do que sustentava.

Porque há amores que continuam
mesmo depois de esquecidos
no corpo do outro,
mas nenhum atravessa o tempo
sem o mínimo gesto
de reconhecimento.

Então você fecha a porta devagar,
como quem ainda alinha os objetos
antes de sair.

(não se quebra o que fica)

E depois, sem anúncio,
já em outra paisagem,
o corpo se refaz:
aprende de novo o espaço,
a medida,
o direito simples
de existir inteiro.

E, pouco a pouco,
sem que se perceba,
o mundo volta a oferecer passagem.

Não é o mesmo gesto.
Não é o mesmo nome.

É apenas isso:
alguém que sustenta o olhar
– e fica.

E ali,
sem esforço,
o encontro acontece.

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Ainda assim

Alguns dias são muito difíceis.

A dor não vem leve.
Ela pesa.
O corpo sente antes mesmo do pensamento conseguir se organizar.
O peito aperta.
O ar falha.
Há momentos em que tudo parece próximo de parar.

E surge a pergunta:
“O que eu fiz para merecer isso? Aonde foi que eu errei?”

Há momentos em que eu gostaria de ser o culpado —
inteiramente responsável —
apenas para ter o que mudar,
para ter por onde começar.

Mas nem sempre existe causa clara.

A dor não bate à porta.
Ela entra.
E ocupa.

Não há para onde ir.
Não há como evitar.
Não há argumento que alivie,
nem distração que alcance.

Resta apenas atravessar.

Atravessar com o que ainda resta de mim,
Com respeito e dignidade,
sem negar o que foi vivido,
sem diminuir o que senti.

Porque algumas dores não são pequenas.
Não são passageiras.
São daquelas que atravessam por inteiro —
corpo, memória, silêncio —
e por alguns instantes,
parecem não ter fim.

E ainda assim… a dor cede.

Não porque deixamos de sentir,
mas porque algo em nós aprende a suportar.

E quando ela cede,
já não somos mais os mesmos.

Talvez mais firmes.
Talvez mais conscientes.

Sobretudo, ainda de pé.
Ainda assim.

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Metalingus – Alter Bridge

Essa música é um soco na cara. Há mais para se fazer na vida do que reclamar do que poderia ter sido.

Sigamos em frente! Letra no vídeo.

P.S.: A banda é SENSACIONAL!

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Mimados, muito mimados

Pais são referência. São carinho, cuidado, afeto, atenção. Tudo movido por um dos sentimentos mais nobre que existem: o amor parental.

Pais transmitem valores. São guia e bússola em se tratando do que é certo e do que é errado. São acolhimento e refúgio, mas são também responsáveis pela transmissão de valores e limites através da educação.

No livro “Podres de Mimados”, do psiquiatra Theodore Darlymple, o assunto é abordado de maneira direta a inequívoca.

A obra “argumenta que o excesso de sentimentalismo e a busca por gratificação imediata, especialmente em relação às crianças, estão destruindo a capacidade de discernimento e de reflexão crítica.

O autor critica a tendência de culpar o sistema e a sociedade em vez de assumir a responsabilidade individual, a incapacidade de tolerar a frustração e a busca constante por soluções fáceis.

Dalrymple argumenta que a cultura moderna, especialmente com a influência da mídia e do mundo digital, contribui para essa infantilização e para a dificuldade em lidar com a realidade.”

Fonte: Google Gemini (AI da Google)

Tal percepção coincide com as minhas observações empíricas. Crianças, adolescentes e jovens, sobretudo da Geração Z, se acham “donos do mundo”, porque são infantilizados pelos seus pais, que acreditam cada vez mais que o amor entre pais e filhos é algo transacional. Ou seja, pais e filhos fazem trocas entre si para manter o equilíbrio e uma boa convivência familiar.

Eu me lembro bem de como eram as refeições na minha casa quando eu era criança. Eu comia o que estava na mesa e pronto. Hoje em dia, vemos crianças, adolescentes e jovens agindo de maneira tirânica com o incentivo, consciente ou inconsciente, de seus próprios pais. “Não quer comer isso? Compra o que você quiser na rua.”

E o “afeto transacional” se estende até o infinito. Pais e mães se desdobram para “comprar” o “amor” de seus filhos, quer seja fazendo todas as suas vontades (seja lá quais forem) ou mesmo através do compra direta material. “Toma esse iPhone aqui, meu filho… A gente te ama.”

Por onde andam as frustrações as quais fui submetido?

“Você é muito novo para isso.”

“É o que tem para comer.”

“Isso é assunto entre seu pai e sua mãe.”

“Já te expliquei. É assim e ponto final.”

“Não vai e pronto.”

Nem de longe apoio o uso de violência física (acho abominável), mas pais não serem capazes de dizer não para os filhos ou impor a sua autoridade quando necessário? Como assim? Afinal de contas, quem são os pais e quem são os filhos?

Obviamente, sou favorável a um diálogo amplo entre pais e filhos, mas é preciso que a autoridade dos pais seja o fiel da balança, sob pena de termos (como já temos), toda uma geração que é incapaz de ouvir um não como resposta, o que a faz incapaz de lidar com qualquer tipo de frustração. E pior: é uma geração que se acha no direito de chantagear os pais quando as suas necessidades não são atendidas, o que nos leva de volta ao conceito de “amor transacional”.

Nem de longe escrevo este texto como um teórico ou especialista no assunto, mas escrevo com a autoridade de quem é pai. E escrevo porque quero alertar outros pais sobre a questão, na certeza de que bater de cinto não resolve, mas ser omisso e condescendente também não.

Precisamos criar adultos saudáveis e aptos para os desafios da vida. Precisamos permitir que nossos filhos lidem com as consequências de seus atos e omissões, escolhas e decisões. Precisamos permitir que nossos filhos se frustrem e se acostumem a lidar com isso, sob pena de criarmos adultos inaptos para viver em sociedade e estabelecer relacionamentos saudáveis.

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Violência Doméstica

A violência contra a mulher só existe quando há um corpo estendido no chão, inerte, sem vida. Antes disso, ainda que a mulher peça ajuda até mesmo para a família e para os amigos, tudo é exagero, feminismo, precipitação, imaturidade, má fé, vingança contra o parceiro, etc.

A violência contra a mulher faz parte do nosso cotidiano, e não há um único caso em que não tentem atribuir à mulher algum tipo de culpa por ser violentada psicologicamente, espancada, estuprada, e até mesmo morta.

Que a nossa sociedade deixe de ser hipócrita e assuma que é 100% machista. É menos feio do que passar pano para os homens que acham que tem direito de vida e de morte sobre as mulheres.

E aproveitando… Pensar em violência contra a mulher apenas quando ela é fisicamente agredida é de uma ignorância tremenda! E quando ela precisa abrir mão de seus sonhos, vontades e desejos? E quando o homem faz com que a mulher se torne financeiramente dependente dele para que não o largue? E os homens que colocam os filhos contra a mãe em uma tentativa covarde de manipulação? Essas e outras violências, aparentemente invisíveis ou mesmo não vistas propositadamente, doem tanto quanto uma dor física. E ainda assim a sociedade passa pano em tudo que acontece, usando até a Bíblia como argumento em favor dos homens.

CHEGA!!! BASTA!!!

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Insanidade

Insanidade é acreditar
Que o outro é insano
Apenas porque
A insanidade do outro
É diferente da sua.

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P.S. 46

Que sejamos surdos diante de todos os “eu te amo” ditos da boca para fora.

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Cabelos brancos

A senhora esperava os carros pararem

Para que ela pudesse atravessar a rua.

Tantos carros –

Muitos carros! –

Nenhum deles a sentia.

A pressa deixava todos cegos.

Cegos que viam cabelos brancos,

Dificuldades nos movimentos,

E anos e mais anos e mais anos.

E a senhora ali,

Desnorteada,

Diante da ingratidão do mundo

Que ela mesma ajudou a construir.