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Teu abraço

Há um lugar onde o mundo perde a pressa.

Não é uma cidade. Não é uma casa. Não é um sonho.

É teu abraço.

Quando me recolhes entre os teus braços, o tempo parece esquecer seu ofício. As horas deixam de correr e tudo o que existe é o calor da tua pele junto à minha, o perfume que reconheço de olhos fechados e a certeza silenciosa de que nada me falta.

Poucas pessoas sabem o que é amar alguém a ponto de encontrar paz apenas na sua proximidade.

Eu sei.

Porque existe uma felicidade que mora no som da tua voz, outra no brilho dos teus olhos, mas a mais bonita de todas mora no instante em que me abraças.

Nesse momento, não existe passado. Não existe futuro.

Existe simplesmente o milagre de estar contigo.

Teu abraço tem a delicadeza das coisas que curam sem prometer cura. Ele não apaga as cicatrizes da vida, mas faz com que eu me esqueça delas por alguns instantes. E, enquanto repouso junto a ti, sinto que todos os caminhos que percorri me trouxeram exatamente para ti.

Porque é isso que encontro em teu abraço.

Não apenas carinho.

Não apenas desejo.

Mas a rara e bela combinação dos dois.

A ternura que acalma e a paixão que incendeia.

A paz de quem chegou em casa e a vertigem de quem continua apaixonado.

Em teus braços, não preciso escolher entre abrigo e fogo.

Encontro ambos.

Pertencimento.

E talvez amar seja exatamente isso: passar a vida inteira procurando um lugar onde a alma possa descansar e, um dia, descobrir que esse lugar tem o nome da pessoa amada.

O teu nome.

E o teu abraço.

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Os acolhimentos que nunca recebemos

Há acolhimentos que não perdemos. Porque nunca os tivemos.

Durante muito tempo, pensei que a falta fosse apenas a ausência de algumas pessoas. Hoje acredito que, muitas vezes, o que nos acompanha pela vida não é a saudade de alguém, mas a saudade de algo que nunca chegou a existir. Um elogio que nunca veio. Um pedido de desculpas. Um abraço depois de um dia difícil. Uma simples frase que dissesse: “Você não precisa enfrentar isso sozinho.” Em vez disso, aprendemos a seguir em frente. A suportar. A nos endurecer. Como viajantes que atravessam o inverno por tanto tempo que passam a acreditar que o frio é a condição natural da existência.

Talvez por isso a falta de acolhimento seja tão difícil de reconhecer. Porque ela nem sempre se apresenta como abandono. Às vezes se apresenta como comparação. Como expectativa. Como desaprovação constante. Como a sensação de que quem somos nunca é suficiente e de que seríamos mais amados se fôssemos outra pessoa. Há pessoas que crescem ouvindo quem deveriam ser, com quem deveriam se parecer, qual caminho teria sido melhor seguir. Às vezes a comparação acontece com irmãos. Às vezes com parentes. Às vezes com uma imagem idealizada de sucesso que ninguém consegue alcançar.

E pouco a pouco passamos a acreditar que existe algo errado em quem realmente somos. Não porque nos falte valor, mas porque fomos medidos por uma régua que jamais teve a intenção de nos compreender. Uma forma de rejeição particularmente silenciosa, que não nos diz abertamente que somos indesejados. Apenas nos faz acreditar que seríamos mais amados se fôssemos, de alguma forma, outra pessoa.

Talvez por isso tantas pessoas carreguem um sentimento persistente de inadequação. Não porque tenham fracassado, mas porque passaram anos tentando corresponder a expectativas que nunca foram suas. Existe uma solidão particular em viver sob esse tipo de pressão. A solidão de sentir que cada escolha precisa ser justificada. Que cada desejo precisa ser defendido. Que cada tentativa de autonomia será recebida como erro, ameaça ou ingratidão. E talvez uma das formas mais dolorosas de falta de acolhimento seja justamente esta: a sensação de que precisamos nos tornar outra pessoa para merecer amor.

Gostamos de acreditar que o amor está garantido pelos vínculos de sangue, mas nem sempre é assim. Algumas pessoas encontram na família o primeiro lugar de segurança. Outras encontram o primeiro lugar onde aprendem a medir palavras, esconder desejos, justificar escolhas e pedir licença para serem quem são. Há vínculos que parecem abrigo vistos de fora, mas que, por dentro, podem ser lugares de crítica, culpa, cobrança e diminuição.

Durante muito tempo, tentei separar amor de acolhimento. Tentei acreditar que uma coisa podia existir sem a outra. Talvez pudesse. Talvez, em alguma medida, ainda possa. Mas houve momentos em que essa distinção deixou de ser suficiente. Porque, quando alguém passa anos ouvindo que suas escolhas são ruins, que seus caminhos não prestam, que seus afetos são inadequados, que sua autonomia é uma ameaça e que sua própria forma de existir parece sempre errada, chega uma hora em que a pergunta deixa de ser apenas: “Por que não me acolhem?”. E passa a ser outra, muito mais dolorosa: “Será que me amam?”.

Essa talvez seja uma das dores mais difíceis de admitir. Porque há uma culpa quase automática em formular essa pergunta. Como se reconhecer a ferida fosse uma forma de traição. Mas existem experiências que nos conduzem até ela. Quando o olhar que deveria nos confirmar no mundo passa a nos fazer duvidar do próprio valor, a dúvida sobre o amor deixa de ser uma acusação e passa a ser uma consequência. Nem todo laço familiar é sinônimo de segurança. Às vezes, ele representa exatamente o contrário: o primeiro lugar onde aprendemos a nos defender. Pode haver sangue. Pode haver história. Pode haver convivência. Pode haver cuidado. Mas nada disso garante acolhimento. Fato é que nem toda família consegue ser lar.

Com o tempo, a falta de acolhimento produz um efeito curioso. Deixamos de procurá-lo onde ele poderia ser encontrado e passamos a buscá-lo justamente onde ele nunca esteve. Procuramos compreensão em quem nos julga. Procuramos validação em quem nos diminui. Procuramos carinho em quem oferece apenas migalhas. Procuramos abrigo em lugares onde sempre chove. Talvez porque exista dentro de nós uma esperança antiga e persistente: a esperança de que, desta vez, a porta se abra. De que, finalmente, alguém nos ofereça aquilo que tantas vezes nos foi negado. Mas algumas portas não foram feitas para acolher. E insistir diante delas não transforma sua natureza.

Existe ainda outra armadilha silenciosa. Muitas vezes não buscamos acolhimento em quem nos acolhe, mas em quem nos feriu. Como se uma parte de nós acreditasse que, se conseguirmos finalmente ser compreendidos por quem nos julgou, valorizados por quem nos diminuiu ou amados por quem nos fez duvidar do próprio valor, então todas as feridas anteriores serão corrigidas. Mas raramente funciona assim. O passado não se reescreve quando uma porta fechada finalmente se abre. E insistir nessa busca pode nos impedir de perceber os braços que já estavam e permanecem estendidos ao nosso redor.

Há pessoas que nos fazem sentir maiores. Há outras que nos fazem passar a vida tentando provar que merecemos ocupar um espaço ao seu lado. A diferença entre uma coisa e outra nem sempre é percebida de imediato. Às vezes passamos anos confundindo amor com aprovação, afeto com aceitação, acolhimento com a eterna tentativa de conquistar o direito de sermos quem já somos. Há pessoas que passam tanto tempo tentando merecer acolhimento que esquecem uma verdade simples: acolhimento não é prêmio. Não deveria ser a recompensa por sermos fortes o suficiente, bons o suficiente ou úteis o suficiente. Acolhimento é aquilo que recebemos justamente nos momentos em que estamos feridos, machucados, incapazes de provar qualquer coisa.

Talvez por isso algumas feridas demorem tanto a cicatrizar. Não porque continuem abertas, mas porque insistimos em levá-las ao mesmo lugar onde nasceram, esperando que alguém as cure. Existe uma grande liberdade em compreender que nem todo acolhimento virá das pessoas das quais gostaríamos de recebê-lo. Alguns chegarão de amigos, de amores românticos, e de relações construídas com base no franco interesse, admiração e respeito mútuos. Outros de desconhecidos. Outros ainda nascerão dentro de nós mesmos, quando aprendermos a olhar para nossas próprias fragilidades com menos severidade e mais compaixão.

Os acolhimentos que nunca recebemos deixam marcas. Mas também deixam uma escolha: continuar mendigando abrigo em portas fechadas ou finalmente reconhecer as casas que já estavam abertas o tempo todo. E, às vezes, a mais importante delas é aquela que carregamos dentro de nós.

A busca começa a cessar quando descobrimos que aquilo que procurávamos nas mãos dos outros já existia, silenciosamente, dentro de nós.

Como diria Carl Jung:

“O privilégio de uma vida é tornar-se quem você realmente é.”

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As vidas que não vivemos

Às vezes me pergunto quem eu teria sido se tivesse seguido alguns caminhos até o fim.

Não por arrependimento. A essa altura da vida, aprendi que toda escolha carrega perdas inevitáveis. Mas há certas versões de nós mesmos que permanecem por perto, caminhando silenciosamente ao nosso lado, como sombras amistosas. Não nos assombram. Apenas nos lembram de que a vida poderia ter sido diferente.

Durante muitos anos, toquei violão clássico. Estudei com disciplina, investi tempo, sonhos e incontáveis horas diante das partituras. Houve um momento em que a possibilidade de me profissionalizar não parecia distante. Consigo imaginar aquele jovem seguindo por esse caminho, dedicando a vida aos palcos, aos estudos, à música. Em algum lugar da minha imaginação, ele existe. Talvez tenha envelhecido com os dedos marcados pelas cordas e uma coleção de concertos na memória.

Mas não fui eu quem viveu essa vida.

A vida que vivi foi outra.

E isso me faz pensar que somos habitados por versões de nós mesmos que nunca chegaram a nascer completamente. O professor que não fomos. O viajante que nunca embarcou. O escritor que demorou anos para começar a escrever. O homem que tomou um rumo quando poderia ter escolhido outro.

Durante muito tempo enxerguei essas vidas não vividas como renúncias. Hoje as vejo como testemunhas. Elas me lembram que a existência nunca foi um trilho único, mas uma rede infinita de possibilidades. A cada escolha, salvamos uma história e deixamos dezenas para trás.

Talvez seja por isso que, de tempos em tempos, eu me pegue imaginando esses outros “eus”. Não para desejar suas vidas. Nem para corrigir o passado. Apenas para reconhecer que todos eles contribuíram para quem sou hoje. Afinal, cada caminho abandonado ajudou a construir o caminho percorrido.

A maturidade me ensinou algo curioso: não é necessário viver todas as vidas para que elas tenham significado. Algumas existem apenas para nos mostrar que o mundo era maior do que imaginávamos e que, apesar disso, seguimos adiante.

Quando penso no músico que quase fui, não sinto tristeza. Sinto gratidão. Ele me ensinou disciplina, sensibilidade e beleza. Não desapareceu. Continua morando discretamente em mim, em cada melodia que ainda me comove, em cada acorde que meus dedos insistem em procurar depois de tantos anos.

Talvez seja assim com todos nós.

Carregamos dentro de nós uma pequena multidão de pessoas que quase existiram.

E, de alguma forma misteriosa, elas continuam nos acompanhando pela vida.

Como escreveu Viktor Frankl:

“O homem não é apenas o que é, mas também aquilo que poderia ter sido.” — Viktor Frankl

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As pequenas eternidades de um dia comum

A vida raramente acontece nos grandes momentos.

Quando olhamos para trás, imaginamos que foram as conquistas, as viagens ou as decisões importantes que nos transformaram. Mas a memória tem seus próprios critérios. Muitas vezes, guarda aquilo que parecia insignificante quando aconteceu.

Um café tomado sem pressa.

A luz da manhã atravessando uma janela.

Uma conversa qualquer que se prolongou além do necessário.

O vento movendo as folhas de uma árvore enquanto ninguém prestava atenção.

Há instantes assim que duram mais do que deveriam. Não permanecem no relógio, mas em nós. Passam em minutos, mas atravessam anos.

Talvez seja por isso que a felicidade seja tão difícil de reconhecer quando está presente. Ela raramente chega anunciando sua importância. Costuma vestir roupas comuns e se esconder em um dia aparentemente igual aos outros.

Só mais tarde percebemos.

Percebemos que aquele pôr do sol visto sem intenção foi único. Que aquela risada compartilhada jamais se repetirá exatamente da mesma forma. Que alguns abraços continuam nos aquecendo muito depois de terminados e que certos beijos permanecem vivos na memória.

A vida pode nos oferecer novos pôres do sol, novas risadas, novos abraços e novos beijos. Mas há momentos que pertencem tão profundamente ao instante em que aconteceram que nenhuma repetição consegue reproduzir o seu significado.

Não porque o que vem depois seja menor. Mas porque algumas experiências carregam consigo a beleza irrepetível de terem acontecido exatamente quando, onde e com quem aconteceram.

Podemos voltar a amar. Podemos voltar a ser felizes. Podemos voltar a encontrar abrigo em outros braços. Ainda assim, existem momentos cuja grandeza não se deixa substituir. Permanecem vivos dentro de nós como certas paisagens da infância: sabemos que existem outras tão belas quanto, mas nenhuma será exatamente aquela.

O tempo leva quase tudo.

Mas algumas manhãs, algumas palavras e alguns silêncios permanecem.

Não porque tenham sido extraordinários.

Mas porque, por um breve instante, tivemos a rara sensação de que nada faltava.

Como escreveu Fernando Pessoa:

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.”

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Inevitavelmente

O que nasce das tuas escolhas quando não há ninguém te observando?

Este é, inevitavelmente, quem tu és.

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Febril


há também tempestades em mim

não contidas —
apenas vivas
no que insiste em atravessar

teu eco rompe minhas madrugadas
sem aviso,
sem rumo,
sem descanso

e eu também permaneço desperto
mesmo quando o corpo cede

precipito, sim —
não por falta de ver,
mas por não caber em mim

entre fé e futuro
também me perco

e o repouso me escapa
pelas mesmas frestas
onde tua ausência insiste

te tenho em mim —
não como escolha,
mas como algo que fica e é

a falta de você
também me revira
também me atravessa

e me encontra
onde eu já não sabia existir

te querer em mim
arde igual

é febre,
é excesso,
é o que não se aquieta

e, no meio disso tudo,
eu não peço alívio

a nossa diferença?

eu tenho uma febre que aprendeu
a não pedir cura

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Mundo vasto

Teu mundo me abre:

perco-me para encontrar-te

onde já sou nós.

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Amar é aceitar perder

Há uma ilusão confortável que nos protege, mas também nos impede de viver: a ideia de que podemos amar sem nos expor de verdade.

Como se fosse possível sentir profundamente sem pagar o preço disso.

Não é.

O amor não entra em quem está inteiro demais, protegido demais, intacto demais.

Ele atravessa falhas. Ele exige fissuras. Ele pede risco.

E o risco é sempre o mesmo: perder.

Amar é abrir uma porta para dentro de si mesmo sabendo que alguém pode sair por ela.

Perder o outro. Perder a si mesmo. Perder o lugar. Perder aquilo que, por um instante, pareceu definitivo.

Amar é, inevitavelmente, aceitar essa possibilidade. É entrar sabendo que não há garantia.

É dizer “fica” sem poder impedir que alguém vá.

É oferecer o que há de mais verdadeiro sem saber se isso será cuidado ou deixado de lado.

E por isso há quem se paralise…

Não por falta de amor, mas por medo de sentir demais e depois ficar com o vazio.

Porque amar expõe. Amar vulnerabiliza. Amar retira as defesas que sustentam a ilusão de controle.

E, sem controle, surge o medo.

O medo de abandono. O medo de não ser escolhido. O medo de não ser suficiente.

Mas há uma verdade que, cedo ou tarde, se impõe: tudo que se protege demais deixa de acontecer.

Quem não se arrisca, não encontra.

Quem não se abre, não toca.

E o amor, quando fica só na intenção, não passa de uma ideia bonita.

Ali, nada vive.

Eu aceito isso hoje com mais clareza: posso ser deixado, posso não ser escolhido, posso sentir falta.

Mas também sei que, sem atravessar esse risco, nada acontece de verdade.

Viver sem que algo verdadeiro aconteça é, no fundo, uma forma silenciosa de ausência.

Prefiro o risco.

Prefiro o encontro que pode terminar ao vazio de nunca ter começado.

Porque, no fim, amar não é garantir permanência.

É ter coragem suficiente para não impedir que algo real exista, mesmo sabendo que pode não durar.

Amar é abrir uma porta para dentro de si mesmo sabendo que alguém pode sair por ela.

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Sem memória do escuro

O sol não pergunta:
apenas retorna.

Mesmo depois
de noites mais densas,
ele atravessa o horizonte
sem memória do escuro.

Há algo nisso.

Não promessa,
não certeza:
apenas o fim
daquilo que se repetia
e ainda se encerra.

A luz toca
onde ainda não havia forma
e, sem aviso,
desenha caminhos improváveis.

Não é milagre.

É possibilidade.

E basta.

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Perene

Faz de mim tua fundação,

Teu alicerce.

Constrói em mim teu abrigo,

Teu refúgio.

És parte de mim,

Assim como já sou parte de ti.

Também és minha fundação,

Meu alicerce,

Meu abrigo e refúgio.

E para que não restem dúvidas:

Eu só faço sentido

Quando moras em mim.