Avatar de Desconhecido

Não é o tecido

Não é o tecido.
Não é a transparência.
Não é a cor escolhida
nem o desenho discreto das linhas.

É a memória que a acompanha,
o gesto de quem a escolhe,
a vida que lhe dá forma,
a pele que lhe empresta significado.

Há objetos que apenas cobrem,
e outros que guardam silêncios.

Não pelo que mostram,
mas pelo que lembram
e por tudo o que ainda fazem imaginar.

Como uma fotografia
cuja beleza nunca esteve no papel,

mas na luz
que permaneceu dentro dela.

Uma silhueta vista de relance.
Um certo ângulo.
Uma perspectiva que existe apenas
para aquele olhar.

Mas algumas experiências
se recusam a ficar apenas no passado.

Continuam vivas.

Não como recordação,
mas como presença.

Como algo que ainda inspira conversas,
desperta sorrisos
e sugere novos capítulos.

Na troca de olhares
que diz mais do que as palavras.

Na deliciosa cumplicidade
de uma cena conhecida,

cujo encanto nunca dependeu
da novidade.

Como um desfile já aplaudido
antes mesmo de começar,

não pela surpresa,

mas pela alegria antecipada
de vê-lo acontecer outra vez.

Entre olhares, sorrisos

e suspiros
que já conhecem o caminho.

E talvez porque exista

uma espécie de entendimento silencioso:

o prazer de ser admirada
e a felicidade de admirar.

Como se a beleza encontrasse seu sentido

justamente no encontro

entre o prazer de encantar

e a felicidade
de se deixar encantar.

Porque a beleza, às vezes,

não mora nas coisas.

Mora naquilo
que elas tornam possível.

Uma memória.
Uma fotografia.
Uma silhueta atravessada pela luz.

Mora nos instantes
que já aconteceram

e, mesmo assim,

continuam apontando para a frente.

Nos planos feitos entre sorrisos.

Na expectativa tranquila
de viver novamente
o que foi tão bom.

Porque algumas histórias

não pedem para ser repetidas.

Pedem para continuar.

E talvez seja isso:

não o tecido,

não a transparência,

nem mesmo a pele.

Mas aquilo que permanece
entre duas pessoas

e transforma uma experiência feliz

no início
do próximo capítulo.

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Acelerador e freio

Desejo é acelerador —
arde, mira o fim, esquece o meio.
Sabedoria é freio,
mas também é mão no volante:
sabe não só parar,
sabe conter o anseio.

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Brilho que arde

Força que me invade,

luz que rompe o escuro,

pulso desperto.

No choque dos nossos mundos,

meu brilho arde mais forte.

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O Olho de Vidro

O foco manual desliza lento,
ajusta a linha, prende o momento.
O clique mecânico corta o ar,
faz o instante se eternizar.

Olhar que revela o que o peito esconde,
na luz direta onde o corpo responde.
A lente captura o foco e o desejo,
a lingerie escorre a cada lampejo.

Filme de prata, grão e calor,
gotas que vertem do próprio amor.
O enquadramento prende a pele e a renda,
um jogo eterno que se desvenda.

A câmera guarda o que a mente criou:
o instante exato que o corpo entregou.

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Chama despida

Teu lábio quente na minha pele desliza,
Desperta o fogo que queima o lençol,
Teu sussurro suave é como a brisa,
Que nos consome antes do pôr do sol.

Minhas mãos te buscam nas sombras escuras,
No compasso lento de uma respiração,
Nossas bocas provam texturas puras,
Na urgência extrema da nossa atração.

O suor brilha no escuro do quarto,
Nesse ritmo louco que nos conduz,
De cada traço teu eu nunca me farto,
Sendo teu corpo minha única luz.

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Teu abraço

Há um lugar onde o mundo perde a pressa.

Não é uma cidade. Não é uma casa. Não é um sonho.

É teu abraço.

Quando me recolhes entre os teus braços, o tempo parece esquecer seu ofício. As horas deixam de correr e tudo o que existe é o calor da tua pele junto à minha, o perfume que reconheço de olhos fechados e a certeza silenciosa de que nada me falta.

Poucas pessoas sabem o que é amar alguém a ponto de encontrar paz apenas na sua proximidade.

Eu sei.

Porque existe uma felicidade que mora no som da tua voz, outra no brilho dos teus olhos, mas a mais bonita de todas mora no instante em que me abraças.

Nesse momento, não existe passado. Não existe futuro.

Existe simplesmente o milagre de estar contigo.

Teu abraço tem a delicadeza das coisas que curam sem prometer cura. Ele não apaga as cicatrizes da vida, mas faz com que eu me esqueça delas por alguns instantes. E, enquanto repouso junto a ti, sinto que todos os caminhos que percorri me trouxeram exatamente para ti.

Porque é isso que encontro em teu abraço.

Não apenas carinho.

Não apenas desejo.

Mas a rara e bela combinação dos dois.

A ternura que acalma e a paixão que incendeia.

A paz de quem chegou em casa e a vertigem de quem continua apaixonado.

Em teus braços, não preciso escolher entre abrigo e fogo.

Encontro ambos.

Pertencimento.

E talvez amar seja exatamente isso: passar a vida inteira procurando um lugar onde a alma possa descansar e, um dia, descobrir que esse lugar tem o nome da pessoa amada.

O teu nome.

E o teu abraço.

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Entre a pele e a memória

I. A promessa

Nos teus lábios há
promessas que o silêncio
jamais desmentiu.
E eu sigo descobrindo
novos caminhos em ti.


II. O segredo

Teu nome repousa
na curva dos meus desejos
como um segredo.
Quanto mais tento esquecê-lo,
mais se aproxima de mim.


III. A espera

A noite demora.
Mas tua ausência desperta
o que adormece.
Há amores que insistem
em florescer no escuro.


IV. A falta

Não é só desejo.
É reconhecer teu corpo
na própria falta.
Como quem toca uma música
mesmo sem ouvir o som.


V. A permanência

Era só um olhar.
Mas trouxe de volta a chama
que eu conhecia.
Há desejos que não morrem,
apenas aprendem a esperar.


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Sashimi

Não tenho culpa
de te seguir com os olhos,
enquanto você repousa
do outro lado da mesa.

Tua boca pede,
teu perfume invade,
teu pescoço puxa,
teu silêncio cobra:
tudo em ti pulsa.

Você entrega tudo no olhar.

Desejo cru.

E nenhum de nós dois sabe —
ou quer —
fugir disso.

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O canto silencioso

Peço licença para escutar o teu mar,
não como quem grita ou tenta domar,
mas como quem senta em silêncio na areia,
atento ao sussurro que a maré incendeia.

Sei que guardas o segredo mais antigo do mundo,
relevo macio onde minha boca encontra rumo.
Como quem encosta o ouvido em uma concha rara,
quero escutar a melodia que em ti se prepara.

Não busco o ruído, nem a pressa do vento,
quero decifrar o teu mais sutil movimento.
E ver a maré subir, inundando a conversa,
na medida em que a nossa fala se versa.

Quero aprender a ler tua partitura molhada,
dedilhar o ritmo da nota guardada,
para que a tua voz, antes tímida e contida,
encontre em meus lábios a rima da vida.

Diz-me, em sussurros de carne e maré,
quem tu és quando o mundo te deixa de pé?
Estou aqui, paciente, sem pressa e sem voz,
pronto para ouvir o que nasce de nós.

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Lado a lado

Já não é chama.

Nem claridade apenas.

É companhia.

Teu passo ao lado do meu,

e o mundo encontra abrigo.