Avatar de Desconhecido

Ela nem desconfia

Cinco e quarenta e cinco —
a cidade ainda dorme,
só eu e o café.
A luz nem desconfia
do que farei com ela.

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Cartografia

Amo como os faróis:

não prendem navios,
não seguram o mar,
apenas permanecem acesos.

Alguns barcos passam.
Outros ficam.

Mas a luz
não aprende a ser menos luz
por causa disso.

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Brilho que arde

Força que me invade,

luz que rompe o escuro,

pulso desperto.

No choque dos nossos mundos,

meu brilho arde mais forte.

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Exaustão

Conto os pequenos

gestos como quem procura

estrelas no mar.

Hoje já não busco luz,

só desejo descansar os olhos.

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A pessoa por detrás da tempestade

Hoje conversei com uma pessoa que não encontrava havia algum tempo.

Não fisicamente. Nem em fotografias. Nem nas lembranças.

Encontrei na voz.

As vezes a vida é injusta. Acumula cobranças, perdas, preocupações e dias difceis sobre os ombros de alguém até que a própria pessoa passe a acreditar que se resume àquilo que está enfrentando.

Mas ninguém é apenas os seus dias difceis.

Ninguém é apenas a conta que não fecha, a batalha em andamento ou o problema que insiste em não se resolver

Existem pessoas que são maiores do que as circunstâncias que atravessam.

Hoje me lembrei disso.

Enquanto ela falava sobre o próprio trabalho, ouvi novamente o entusiasmo, a curiosidade e a alegria que sempre admirei.

A capacidade de se deixar tocar pelas coisas que dão sentido aos dias.

Foi bom ouvir aquela voz.

Foi bom perceber que algumas presencas permanecem conosco mesmo quando a distância, o tempo ou os problemas tentam escondê-las.

Há pessoas que nunca desaparecem completamente.

Às vezes apenas ficam atrás das nuvens por um tempo.

E hoje, por alguns minutos, o céu se abriu.

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Abrigo e luz

Um gesto de afeto

atravessa o dia cinzento:

abrigo e luz.

Há gestos que mudam vidas

sem saber que o fizeram.

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Luz

Depois da chama,

permanece a claridade.

Nada se perde.

Nos teus braços descubro

que o amor também ilumina.

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A persistência dos mortos

Estrelas mortas nos iluminam,
e sua luz tardia corta a noite
como feridas que nunca fecham.

O céu carrega cadáveres brilhantes,
memórias queimadas que ainda ardem,
ecos de explosões que o universo
não conseguiu esquecer.

Caminhamos sob clarões fantasmas,
banhados por aquilo que já não vive,
guiados por rastros que não escolhemos.

E cada raio que nos toca
é um aviso silencioso:
a luz também se corrompe,
e mesmo assim persiste.

Porque nada desaparece por completo:
nem o que amamos, nem o que tememos.

Somos feitos de luz antiga,
de sombras que não confessamos,
de histórias que morreram,
mas continuam nos seguindo.

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Comigo

Caminho por ruas que se dividem em silêncio

Cada uma acenando com promessas que não decifro

Às vezes penso que escolhi

Mas o vento muda e me confunde de novo

Há uma porta que brilha, outra que guarda sombra

E ambas parecem chamar meu nome

Fico parado no meio, aturdido

Como quem teme perder o que não viveu

Como quem teme viver o que não poderia ser perdido

O horizonte se dobra em dois

E eu sigo tentando ouvir qual parte dele respira comigo.

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Até

Eu te prometo:

.

.

.

.

.

.

.

Tudo isso.

Até o dia que eu morrer.