Ninguém fala dos minutos.
Eles partem discretamente, como moedas esquecidas no fundo dos bolsos.
Talvez porque o tempo seja a herança mais estranha:
recebemo-la aos poucos, enquanto a desperdiçamos sem perceber.
Uma manhã.
Uma conversa.
Um café.
Outra conversa.
Uma tarde qualquer.
E então um dia percebemos:
a vida não levou os anos.
Levou os instantes.
Tudo pode regressar.
Uma estação.
Uma casa.
Certos caminhos.
Mas nunca o minuto exato em que o mundo esteve em nossas mãos.
E quando enfim compreendemos,
já é tarde para guardar o que só existia enquanto passava.
Tarde para a tarde.
Tarde para o minuto.
Tarde para mais outra conversa.
Tarde para aquilo que pensávamos que estaria sempre ali.
