Avatar de Desconhecido

Herança

Ninguém fala dos minutos.

Eles partem discretamente, como moedas esquecidas no fundo dos bolsos.

Talvez porque o tempo seja a herança mais estranha:

recebemo-la aos poucos, enquanto a desperdiçamos sem perceber.

Uma manhã.

Uma conversa.

Um café.

Outra conversa.

Uma tarde qualquer.

E então um dia percebemos:

a vida não levou os anos.

Levou os instantes.

Tudo pode regressar.

Uma estação.

Uma casa.

Certos caminhos.

Mas nunca o minuto exato em que o mundo esteve em nossas mãos.

E quando enfim compreendemos,

já é tarde para guardar o que só existia enquanto passava.

Tarde para a tarde.

Tarde para o minuto.

Tarde para mais outra conversa.

Tarde para aquilo que pensávamos que estaria sempre ali.

Avatar de Desconhecido

Sexta-feira

Sexta dá um aceno,

o café sorri pra mim:

planos de fuga.

Avatar de Desconhecido

No mesmíssimo mar

Olho para as amendoeiras:

Há quantos anos estão aqui?

Ainda o mesmo mar.

.

Na calçada os amigos passam,

Um senhor vende seus livros,

Sempre o mesmo mar.

.

Uma conversa apressada,

Um café com broa quente,

Outra vez o mesmo mar.

.

Aonde se esconde a novidade?

Só sei que continuo a buscá-la

No mesmíssimo mar.

Avatar de Desconhecido

Castelo

Demorei uma vida inteira para entender que castelo não é um lugar, mas um sentimento.

Castelo é onde eu me sinto bem.

Castelo é abrigo, é refúgio, é colo, é convite, é café, é bolo de milho, carinho.

Castelo é onde o mal e os problemas continuam existindo, mas parecem menores diante da sua autoriade imponente e tenacidade resoluta.

Castelo é onde eu posso dormir de olhos fechados.

Castelo é onde eu posso falar sem ser julgado e posso ouvir para acolher.

Castelo é poder ser, viver e deixar viver.

Castelo é onde eu posso ser eu, e sendo eu, ser castelo na vida de quem eu amo.

Castelo é saber e sentir que há quem me ame.

Castelo é amar e ser amado.

Castelo é em comunhão com a vida e comigo mesmo, viver.

Ilha da Boa Viagem – Niterói/RJ
Avatar de Desconhecido

Mais um domingo

Mais um domingo.

Mais protetor solar.

Mais uma caminhada na praia.

Mais uma água de coco.

Mais uma roda de amigos.

Mais uma cerveja gelada.

Mais uma empada de camarão.

Mais risadas.

Mais um café.

Mais um bombom de chocolate.

Mais doçura.

Mais fé.

Mais gratidão.

Mais um domingo –

E é tão bom estar vivo! –

Se Deus quiser,

Outros tantos domingos virão.

Ilha da Boa Viagem – Niterói/RJ
Avatar de Desconhecido

Pingado? Não, obrigado

Tomou só um café

E foi com fé

Nunca quis uma vida café com leite.

Avatar de Desconhecido

Amargos e doces

E não é que a vida é assim?

Dias amargos.

Dias doces.

Seriam amargos os dias amargos

Não fosse o doçura dos dias doces?

Seriam doces os dias doces

Não fosse o amargor dos dias amargos?

O contraste me faz sentir vivo.

É assim que vivo minha vida.

É assim que me aproximo de outras vidas.

Dias amargos e dias doces,

Porque a vida é assim

Tanto para você

Quanto para mim.

Banoffee com espresso duplo
Avatar de Desconhecido

Bom dia!!! :)

Bom dia!!! 🙂

É só isso (tudo) mesmo. 🙂🙂🙂

Avatar de Desconhecido

Erva-doce

O cheiro da broa de milho
O café sem pressa
Os vizinhos sempre bem-vindos
Era assim quando eu era menino
E acreditava em coisas à beça

O café agora é espresso
Os vizinhos? Desconheço
A porta da rua sempre trancada
A broa de milho é da padaria
E a violência é a notícia do dia

Saudades da época em que eu achava
Que tinha tempo a perder
Do avô, da avó, dos tios, dos primos
Da sensação de não correr perigo
De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

E nesse instante –
Agora! –
Enquanto meus pensamentos vão
Para um passado distante
O tempo parou de seguir adiante
E para mim voltou

É que eu ainda sou o menino
Que se inebria
Quando sente o cheio de erva-doce
E que queria que a vida fosse
Sempre uma tarde de domingo.

dill
Avatar de Desconhecido

Todos os dias! :)