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Porta entreaberta

I.

Chamam de fraqueza
o que é só cuidado com o irreversível.

Decidir é perder:
toda escolha é um luto
pelo que não foi.

O indeciso não é quem não sabe.
É quem sabe demais
o peso do que vai deixar.

Por isso a lingueta aponta para fora
e não procura o batente.
A porta guarda os dois mundos
o quanto pode,
até que o vento
decida por ela.


II.

A porta não escolheu.
Ficou.

E enquanto ficava
a ferrugem escolheu por ela:
comeu o metal devagar,
sem pressa e sem dúvida.

O que não decide
também é decidido,
pelo tempo,
que nunca pergunta.


III.

A chave ficou
do lado de dentro.

O tempo enferruja,
desgasta, decide,

mas não gira chaves.

Isso
ainda é com alguém.

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Obedeça à sinalização

O inconformismo

Que tantas vezes me bateu à porta

Fez-me bater na porta

Até eu bater a porta

Para nunca mais abri-la.

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Erva-doce

O cheiro da broa de milho
O café sem pressa
Os vizinhos sempre bem-vindos
Era assim quando eu era menino
E acreditava em coisas à beça

O café agora é espresso
Os vizinhos? Desconheço
A porta da rua sempre trancada
A broa de milho é da padaria
E a violência é a notícia do dia

Saudades da época em que eu achava
Que tinha tempo a perder
Do avô, da avó, dos tios, dos primos
Da sensação de não correr perigo
De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

E nesse instante –
Agora! –
Enquanto meus pensamentos vão
Para um passado distante
O tempo parou de seguir adiante
E para mim voltou

É que eu ainda sou o menino
Que se inebria
Quando sente o cheio de erva-doce
E que queria que a vida fosse
Sempre uma tarde de domingo.

dill
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Definitivamente

Nem tudo foi como eu esperava.

Nem tudo foi como eu sentia que seria.

Nem tudo foi;

Muita coisa ficou.

 

Mas aquela esperança que eu tinha,

Que hoje acredito ser só minha,

Aos poucos vai se enfraquecendo,

Dissipando-se na ausência repetida,

No silêncio descomedido,

Na falta de razão ou sentido

E ainda assim,

Aparentemente decidida.

 

Mas eu aprendi a respeitar,

Pois nunca amei só por amar.

Era algo maior que eu…

E não era só por mim,

E só faz sentido se for assim.

 

Tudo foi por nós.

 

Tudo.

Tudo.

Tudo.

 

Sei e sinto que ainda somos,

Mas o que eu posso fazer agora

Além de desejar que você esteja feliz?

 

Eu não tenho a chave da porta

Que você fechou por dentro.

E mesmo que a tivesse,

Por nós ela só se abrirá realmente

Se você definitivamente abri-la.

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