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Porta entreaberta

I.

Chamam de fraqueza
o que é só cuidado com o irreversível.

Decidir é perder:
toda escolha é um luto
pelo que não foi.

O indeciso não é quem não sabe.
É quem sabe demais
o peso do que vai deixar.

Por isso a lingueta aponta para fora
e não procura o batente.
A porta guarda os dois mundos
o quanto pode,
até que o vento
decida por ela.


II.

A porta não escolheu.
Ficou.

E enquanto ficava
a ferrugem escolheu por ela:
comeu o metal devagar,
sem pressa e sem dúvida.

O que não decide
também é decidido,
pelo tempo,
que nunca pergunta.


III.

A chave ficou
do lado de dentro.

O tempo enferruja,
desgasta, decide,

mas não gira chaves.

Isso
ainda é com alguém.