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Vinte e um anos sem meu pai

Hoje encontrei as abotoaduras do meu pai.

Procurei por elas — não sei bem por quê, ou talvez saiba — e lá estavam, guardadas, esperando. Segurei-as na mão e, por um instante, ele estava ali comigo: o terno bem cortado, a gravata no lugar certo, o perfume Van Cleef que anunciava sua chegada antes mesmo de ele entrar na sala. Meu pai saía assim, todas as manhãs, arrumado como quem respeita o próprio trabalho e quem vai encontrar.

Essa é a cena que mais me volta quando penso nele: um homem que se vestia bem porque se importava — com o trabalho, com a família, com a própria palavra. Um homem honesto, trabalhador, de uma retidão que não se media em grandes gestos, mas na constância de todos os dias.

Faz vinte e um anos que ele se foi. E ainda assim, hoje, segurando essas abotoaduras, foi como se fosse ontem. O tempo passa e muda tudo à sua volta — menos isso. Menos a lembrança de um pai que, sem precisar dizer muito, ensinou o que significa ser um homem íntegro.

Onde quer que você esteja, pai: ainda uso o que você me deixou. Não as abotoaduras — o exemplo.

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Vó Maria

O café quente desperta lembrança,
cheiro que abraça, que nunca cansa.
No bolo de fubá, dourado e amigo,
mora o carinho que guardo comigo.

Minha avó sorria com olhos de luar,
mãos que sabiam cuidar e acalmar.
Cada fatia que ela me oferecia
era um pedaço de paz no meio do dia.

Hoje o aroma insiste em voltar,
como quem sabe onde quero morar.
Entre o café e o fubá da memória,
a saudade borda de novo a história.

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Lágrimas de sangue

Há um rio entre nós que não deságua e que inunda nossos rostos com lágrimas de sangue.

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Por nós

Me mostra aquelas poesias

Que você escrevia

Quando o nosso amor

Escorria pelos seus dedos

…

Me fala do tempo

Em que éramos três:

Nós

Você e eu

…

Me fala das fotografias

Onde tudo que a gente queria

Era perpetuar

Todo e qualquer instante

…

E hoje, que tudo temos

Que tudo podemos

Me fala do nosso amor

Como se não fosse algo distante

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Suplício

na madrugada

a saudade é açoite –

insistente

insolente

inclemente –

que quase mata

e nunca morre

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Here Forever – Revolution Saints

Aquele momento em que a saudade está batendo forte em meu peito, e um amigo manda uma música incrível que diz tudo que você gostaria de dizer…

Te amo, meu irmão! Para sempre! Tenho certeza de que você olha por mim aí de cima.

There is no reason to watch you go
It’s just a dream you’re dreaming on
Where is that sparkle into your eyes
I just want you to hear

My silent cry when I’m alone
A distant storm you hear so far
I need to feel you from above
I don’t know where I do belong

You’ll stay here forever
And watch over me and my life
You’re gonna stay here on my side
Cradling me from above
I’ll hold you in my dreams
I’ll cry to the sun and the rain
You’re gonna hold my hand that trembles
I lost my gamble with God

The sand of time won’t let you fade
Your memories of joys and laughs
If you believe that every prayer
Can turn a stone into life

You’ll stay here forever
And watch over me and my life
You’re gonna stay here on my side
Cradling me from above
I’ll hold you in my dreams
I’ll cry to the sun and the rain
You’re gonna hold my hand that trembles
I lost my gamble with God

I need you close more than you know
More than I can say
Please don’t forget the love we shared

You’ll stay here forever
I’ll hold you in my dreams
I’ll cry to the sun and the rain
You’re gonna hold my hand that trembles
I lost my gamble with God

There is no reason to watch you go
It’s just a dream you’re dreaming on

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Erva-doce

O cheiro da broa de milho
O café sem pressa
Os vizinhos sempre bem-vindos
Era assim quando eu era menino
E acreditava em coisas à beça

O café agora é espresso
Os vizinhos? Desconheço
A porta da rua sempre trancada
A broa de milho é da padaria
E a violência é a notícia do dia

Saudades da época em que eu achava
Que tinha tempo a perder
Do avô, da avó, dos tios, dos primos
Da sensação de não correr perigo
De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

E nesse instante –
Agora! –
Enquanto meus pensamentos vão
Para um passado distante
O tempo parou de seguir adiante
E para mim voltou

É que eu ainda sou o menino
Que se inebria
Quando sente o cheio de erva-doce
E que queria que a vida fosse
Sempre uma tarde de domingo.

dill
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És tudo que me cinge

Hoje
Meu amor, minha vida
Calhou de me dar a vontade
De escrever uma despedida
Que depois de duas garrafas de vinho
Parece-me a única avenida
Ainda que seja um beco sem saída
Ou trilhos que levam-me ao nada

Há tempos não ouço de ti
Há tempos não toco tua pele
Há tempos não sei de nós
Há tempos…
E parece-me toda uma vida
Dada com os burros n’água

E nesse turbilhão de saudades
Nessas pequenas e diárias eternidades
Por uma última vez
Venho aqui dizer que te amo
E que te amarei para sempre
Todos os dias
Até mesmo nos dias
Em que eu não amar-te-ei:
Dias que não existem

Ad infinitum
Esta, pois, é a minha vontade
Mantém-se a minha doce santidade
Na presença que não se materializa
E que me estrangula de tanta saudade
Esvai-se a minha sanidade
No perfume que deixaste
Em tudo por aqui
E que todos os dias
Pelo vento confirmas e trazes

Amor meu
Onde estão os olhos teus?
Que tanto me iluminavam
Que tanto me diziam
A tua voz que me sorria
O que sem dizer, dizias…

Eu não sei
E de tanto não saber
De mim mesmo estou farto

Dei-te meu mundo
Cada e todo segundo
O que em mim há de mais fecundo
De mais profundo
Se foi…
E sequer sei para onde
Eu mesmo me fui:
Meu destino é ignorado

Não sinto-me sozinho –
Por certo –
Estás sempre por perto! –
E em meu peito
O coração sempre aberto
Clama por teu nome
Que não repetirei aqui
Em memória do que não foi vivido
Em nome do respeito e do zelo
Que sempre nutri e nutro por ti

Hoje
Meu amor, minha vida
É só um dia qualquer
Onde eu homem
E tu que eras
Para ser minha mulher
Não se encontram
E nesse eterno não encontrar
Hoje, morri de saudades
E ainda assim estou aqui
Absorto em minhas flexuosidades

Erguerei outras taças
Farei outros brindes
Conhecerei outras pessoas
Mas, hoje
Tudo que me cinge
Tem o teu nome
E é em memória de ti
Por si
Em dó
Por todas as notas
Que por nós são
Uma única melodia
E só

E a minha faina
É todos os dias –
Mentir
E fingir que nunca –
Profunda e absolutamente –
Eu te conheci
Mas de fato conheço-te…
E conheço-te
Porque vivo-te
E de ti nunca me esqueci.

Praia de Icaraí – Niterói/RJ – Brasil
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Pigarro

Estive pensando
Em mim
Em você
Em nós
Nos nós
Na garganta –
Pigarro –
Difíceis
De engolir

Coisa pouca
Eu e você
Queijos e vinhos
Nenhuma roupa
Nenhuma pretensão
Mais nada
Mais ninguém

Eu estou bem

O dulçor
E o amargor
Da saudade
Me guarnecem
Me aquecem
Feito prece
O resto
É o resto
É o momento
No tempo
Em deixar
Por decidir.


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Não volto

Fui ali te buscar e

Sem pressa

Não adianta

Não volto.