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Vinte e um anos sem meu pai

Hoje encontrei as abotoaduras do meu pai.

Procurei por elas — não sei bem por quê, ou talvez saiba — e lá estavam, guardadas, esperando. Segurei-as na mão e, por um instante, ele estava ali comigo: o terno bem cortado, a gravata no lugar certo, o perfume Van Cleef que anunciava sua chegada antes mesmo de ele entrar na sala. Meu pai saía assim, todas as manhãs, arrumado como quem respeita o próprio trabalho e quem vai encontrar.

Essa é a cena que mais me volta quando penso nele: um homem que se vestia bem porque se importava — com o trabalho, com a família, com a própria palavra. Um homem honesto, trabalhador, de uma retidão que não se media em grandes gestos, mas na constância de todos os dias.

Faz vinte e um anos que ele se foi. E ainda assim, hoje, segurando essas abotoaduras, foi como se fosse ontem. O tempo passa e muda tudo à sua volta — menos isso. Menos a lembrança de um pai que, sem precisar dizer muito, ensinou o que significa ser um homem íntegro.

Onde quer que você esteja, pai: ainda uso o que você me deixou. Não as abotoaduras — o exemplo.

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