Há um homem afogado
que aprendeu, por fim,
a nadar sozinho —
não pelas ondas que o empurram,
mas pela lembrança antiga
de que os braços que o seguram
sempre foram os seus.
Toda fortaleza tem um portão
que só abre por dentro,
uma fechadura sem chave alheia,
um muro que ergueu-se justamente
para que ninguém de fora
decidisse quando ele cai.
Todo náufrago carrega,
sem saber, o mapa
de uma ilha que é ele mesmo —
terra firme escondida
sob a própria pele encharcada,
esperando apenas
que ele pare de nadar em direção ao horizonte
e comece a nadar para dentro.
Nenhuma chama se atravessa
pelas mãos de outro —
o fogo se atravessa a sós,
e do outro lado
descobre-se que a proteção
era feita da própria pele,
mais forte do que se imaginava.