Avatar de Desconhecido

Pequena metafísica doméstica

Ninguém sabe por que as chaves se perdem.

Talvez não se percam.

Talvez esperem o momento em que a casa silencia para escapar das gavetas e procurar fechaduras que nunca encontraram.

As cadeiras envelhecem.

Os braços de madeira ficam lisos onde tantas mãos se apoiaram.

As paredes esquecem. Guardam apenas manchas claras nos lugares onde antes havia quadros.

As xícaras conservam pequenos segredos na meia-lua escura do café esquecido no fundo.

Os livros acumulam poeira como quem coleciona invernos.

E nós atravessamos tudo isso imaginando que somos diferentes.

Mas, às vezes, encontro uma fotografia antiga ou um bilhete esquecido entre páginas

e percebo que também sou uma coisa deixada no mundo,

tentando compreender o motivo de estar aqui

antes de me tornar mais uma lembrança em alguma gaveta.

Avatar de Desconhecido

No mesmíssimo mar

Olho para as amendoeiras:

Há quantos anos estão aqui?

Ainda o mesmo mar.

.

Na calçada os amigos passam,

Um senhor vende seus livros,

Sempre o mesmo mar.

.

Uma conversa apressada,

Um café com broa quente,

Outra vez o mesmo mar.

.

Aonde se esconde a novidade?

Só sei que continuo a buscá-la

No mesmíssimo mar.

Avatar de Desconhecido

Nunca se deu conta

Nutria grande paixão
Por livros

E ela lia
Lia
Lia
Lia…

Ora chorava
Ora sorria

Dia após dia
Dia e noite
Noite e dia

Nunca se deu conta
De que era um livro
Escrito com seu sangue
Com sua caligrafia –

Letras
Palavras
Frases
Parágrafos
Capítulos
Que de seus dedos
Escorriam –

E que eu queria
Minuciosamente
Vagarosamente
Lê-la.