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A primeira onda da manhã – Parte III da Trilogia O Ritmo da Água

Antes que o dia encontre seu rumo,
o mar já está desperto.

A primeira onda chega sem alarde,
toca a areia
e volta para a água
como quem apenas cumpre seu ofício.

Não traz respostas.
Não desfaz ausências.
Não corrige o que passou.

Ainda assim, vem.

O horizonte se ilumina devagar,
o vento muda de direção,
e as gaivotas retomam seus círculos sobre o mar.

Tudo parece dizer a mesma coisa:

comece.

Mesmo sem certezas.
Mesmo sem entender todos os silêncios.
Mesmo carregando perguntas que ficaram pelo caminho.

Porque a manhã não exige explicações.
Pede apenas presença.

E eu também sigo adiante,

como a primeira onda do dia,

que não precisa ser maior que as outras

para lembrar ao mundo

que o mar continua.

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Depois da maré – Parte II da trilogia O Ritmo da Água

Às vezes o mar não responde.
A onda chega, recua, desaparece,
como se levasse consigo a pergunta.

Fico olhando a linha do horizonte,
esse lugar onde o céu e a água
parecem conversar sem palavras.

Há uma calma estranha nisso.
Não a calma de quem sabe,
mas a de quem aprende a não exigir.

Então percebo que o mar
nunca guardou minhas respostas.
Guardou apenas o movimento.

E talvez seja suficiente.

Porque a água segue seu caminho,
o vento segue o seu,
e o dia continua abrindo espaço para a luz.

E eu também,
como quem descobre que viver
é caminhar junto das marés,
sem precisar decifrar cada silêncio.

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O silêncio entre as ondas – Parte I da trilogia O Ritmo da Água

No intervalo entre uma onda e outra,
o mundo parece guardar um segredo.
É um sopro breve, quase invisível,
onde o mar recolhe a própria voz
para depois devolvê-la em espuma.

Nesse silêncio, tudo escuta:
a areia, o vento, até o céu.
E eu também —
como quem espera uma resposta
que só existe no ritmo da água.

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O canto silencioso

Peço licença para escutar o teu mar,
não como quem grita ou tenta domar,
mas como quem senta em silêncio na areia,
atento ao sussurro que a maré incendeia.

Sei que guardas o segredo mais antigo do mundo,
relevo macio onde minha boca encontra rumo.
Como quem encosta o ouvido em uma concha rara,
quero escutar a melodia que em ti se prepara.

Não busco o ruído, nem a pressa do vento,
quero decifrar o teu mais sutil movimento.
E ver a maré subir, inundando a conversa,
na medida em que a nossa fala se versa.

Quero aprender a ler tua partitura molhada,
dedilhar o ritmo da nota guardada,
para que a tua voz, antes tímida e contida,
encontre em meus lábios a rima da vida.

Diz-me, em sussurros de carne e maré,
quem tu és quando o mundo te deixa de pé?
Estou aqui, paciente, sem pressa e sem voz,
pronto para ouvir o que nasce de nós.

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Mar aberto

Os ventos mudaram.

Mas ventos sempre mudam.

O que pesa não é a mudança dos céus, nem a dança imprevisível das nuvens.

O que pesa é o esforço das minhas mãos.

Ando cansado de ajustar minhas velas, cansado de reaprender rotas, de chamar de esperança aquilo que tantas vezes foi apenas espera.

Talvez não seja a mudança dos ventos que me esgote,

mas sim navegar sozinho.

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Mais perto

chuva na praia –

o horizonte se dissolve

.

o mar se aproxima do mundo

e o mundo, de mim

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O mesmo céu

I. A garça

O vento esculpe a crista da maré,
desenha formas que o sal logo desfaz.
A garça fita o que o tempo quer,
no mergulho exato de um instante em paz.

Não há ontem na curva do horizonte,
nem promessas no vôo do gavião.
A vida é o jorro que brota da fonte,
sem pedir licença ou explicação.

O mundo gira em sua luz de cobre,
alheio ao passo de quem o quer medir.
A beleza é livre, o olhar é nobre,
no simples mistério de apenas existir.


II. O gavião

O vento sustenta o risco no céu,
abre no azul um traço fugaz.
O gavião não pesa o seu papel,
segue no fluxo que nunca se desfaz.

Lá embaixo, a garça detém o instante,
na linha exata de mergulhar.
O alto se move, livre e distante,
sem ponto fixo que o faça parar.

O mundo se alarga no que se descobre,
alheio ao gesto de quem quer medir.
A beleza é vasta, o silêncio é nobre,
no livre impulso de apenas seguir.


III. O mesmo céu

O horizonte sustenta o que é vão,
onde o longe e o perto se desfaz.
Não há medida na extensão,
nem forma fixa no que se refaz.

A garça encontra o ponto do ar,
no gesto exato de mergulhar.
O gavião não se prende ao passar,
no amplo curso de apenas voar.

O mundo respira no mesmo cobre,
sem escolher ficar ou partir.
A beleza é livre, o silêncio é nobre,
no mesmo acordo de apenas existir.

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No mesmíssimo mar

Olho para as amendoeiras:

Há quantos anos estão aqui?

Ainda o mesmo mar.

.

Na calçada os amigos passam,

Um senhor vende seus livros,

Sempre o mesmo mar.

.

Uma conversa apressada,

Um café com broa quente,

Outra vez o mesmo mar.

.

Aonde se esconde a novidade?

Só sei que continuo a buscá-la

No mesmíssimo mar.

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Deságua

Fé na corrente:

o rio não escolhe o mar,

mas nele chega.

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Conciso

Voz que se cala:

Cansou de explicar o mar

A quem teme a água.