Avatar de Desconhecido

A pessoa por detrás da tempestade

Hoje conversei com uma pessoa que não encontrava havia algum tempo.

Não fisicamente. Nem em fotografias. Nem nas lembranças.

Encontrei na voz.

As vezes a vida é injusta. Acumula cobranças, perdas, preocupações e dias difceis sobre os ombros de alguém até que a própria pessoa passe a acreditar que se resume àquilo que está enfrentando.

Mas ninguém é apenas os seus dias difceis.

Ninguém é apenas a conta que não fecha, a batalha em andamento ou o problema que insiste em não se resolver

Existem pessoas que são maiores do que as circunstâncias que atravessam.

Hoje me lembrei disso.

Enquanto ela falava sobre o próprio trabalho, ouvi novamente o entusiasmo, a curiosidade e a alegria que sempre admirei.

A capacidade de se deixar tocar pelas coisas que dão sentido aos dias.

Foi bom ouvir aquela voz.

Foi bom perceber que algumas presencas permanecem conosco mesmo quando a distância, o tempo ou os problemas tentam escondê-las.

Há pessoas que nunca desaparecem completamente.

Às vezes apenas ficam atrás das nuvens por um tempo.

E hoje, por alguns minutos, o céu se abriu.

Avatar de Desconhecido

Incêndio

Nos teus braços, chama.

Tudo em mim se incendeia.

O peito desperta.

Ali o amor se revela,

vasto como um céu em brasa.

Avatar de Desconhecido

O céu não me escolheu

O que faço com todo o meu desejo,
se ele cresce em mim como chama teimosa,
e o que eu quero, tão vivo e tão inteiro,
não me quer de volta, não me vê, não me nota?

O que faço com essa fome de encontro,
se o encontro é só miragem no deserto,
e cada passo que dou em sua direção
me deixa mais longe do que eu quero perto?

Talvez desejo seja isso:
um pássaro que insiste em voar
mesmo sabendo que o céu que escolheu
não o escolheu para amar.

E eu, que ardo, fico aqui,
entre o impulso e o silêncio,
tentando descobrir se é possível
despedir-se de um desejo
sem se despedir de si mesmo.

Avatar de Desconhecido

A persistência dos mortos

Estrelas mortas nos iluminam,
e sua luz tardia corta a noite
como feridas que nunca fecham.

O céu carrega cadáveres brilhantes,
memórias queimadas que ainda ardem,
ecos de explosões que o universo
não conseguiu esquecer.

Caminhamos sob clarões fantasmas,
banhados por aquilo que já não vive,
guiados por rastros que não escolhemos.

E cada raio que nos toca
é um aviso silencioso:
a luz também se corrompe,
e mesmo assim persiste.

Porque nada desaparece por completo:
nem o que amamos, nem o que tememos.

Somos feitos de luz antiga,
de sombras que não confessamos,
de histórias que morreram,
mas continuam nos seguindo.

Avatar de Desconhecido

O mesmo céu

I. A garça

O vento esculpe a crista da maré,
desenha formas que o sal logo desfaz.
A garça fita o que o tempo quer,
no mergulho exato de um instante em paz.

Não há ontem na curva do horizonte,
nem promessas no vôo do gavião.
A vida é o jorro que brota da fonte,
sem pedir licença ou explicação.

O mundo gira em sua luz de cobre,
alheio ao passo de quem o quer medir.
A beleza é livre, o olhar é nobre,
no simples mistério de apenas existir.


II. O gavião

O vento sustenta o risco no céu,
abre no azul um traço fugaz.
O gavião não pesa o seu papel,
segue no fluxo que nunca se desfaz.

Lá embaixo, a garça detém o instante,
na linha exata de mergulhar.
O alto se move, livre e distante,
sem ponto fixo que o faça parar.

O mundo se alarga no que se descobre,
alheio ao gesto de quem quer medir.
A beleza é vasta, o silêncio é nobre,
no livre impulso de apenas seguir.


III. O mesmo céu

O horizonte sustenta o que é vão,
onde o longe e o perto se desfaz.
Não há medida na extensão,
nem forma fixa no que se refaz.

A garça encontra o ponto do ar,
no gesto exato de mergulhar.
O gavião não se prende ao passar,
no amplo curso de apenas voar.

O mundo respira no mesmo cobre,
sem escolher ficar ou partir.
A beleza é livre, o silêncio é nobre,
no mesmo acordo de apenas existir.

Avatar de Desconhecido

Sem amarras

Céu sem amarras:

o que parte de mim

volta vento.

Avatar de Desconhecido

Flutuando por aí…

Você me deixou sem chão. Não entendi o que aconteceu. Acho que ainda não entendo. Desisti de entender.

Fiquei esperando uma explicação que nunca veio. No fundo, bem no fundo mesmo, eu tinha a esperança de que algo mudasse, de que algo acontecesse. Nada mudou. Nada aconteceu. A esperança morreu, caducou.

Você me deixou sem chão e durante muitos dias eu tive a sensação de que estava caindo, caindo, e caindo… Até que me dei conta de que mesmo sem chão, mesmo caindo, ainda havia o céu, e em um sopro de lucidez, decidi que faria do céu o meu chão.

Para minha surpresa, parei de cair. Comecei a flutuar nas nuvens das possibilidades, do infinito. O sol lambeu meu rosto e secou minhas lágrimas. Abri o sorriso imenso que trago comigo desde menino. Senti o vento tocando os meus cabelos (o mesmo vento que toca os seus cabelos), e disse um último adeus para a vida e para a realidade que não são mais minhas.

Você me deixou sem chão e com isso eu aprendi a olhar para o céu e a sentir o céu em minha vida. Experimente! É uma sensação incrível!

Obrigado por tudo. Pelo bom e pelo ruim. Vou cuidar da minha vida e flutuar por aí. Adeus.

Avatar de Desconhecido

Pegadas no céu

Eu até me via
Do teu lado no altar
Agradecendo a Deus por tudo
Indo de encontro ao mundo
Sem precisar sair do lugar

E os meus versos repetidos
Repeti-los-ia todos os dias
Porque não eram só versos
Eram orações e preces
Agradecimentos e euforias

Havia verdade nos fartos goles
Paixão nas inesquecíveis garfadas
Desejos confessos com os olhos
Declarações em todos os gestos
Afagos entre almas apaixonadas

E nas areias vida afora
Nas pegadas que deixamos no céu
Conversas que transbordam a memória
Muitas, todas inesquecíveis histórias
De um amor que foi tudo, menos vão.

Avatar de Desconhecido

Motivo

Sabe o que é…

É que o céu está azul…

E daí?

E daí, nada…

É que

Por você

Tudo é

De alguma forma

Motivo.

Avatar de Desconhecido

Succubus

Eu olho para o céu e vejo
No infinito a minha finitude
Perplexidade diante de coisas tão pequenas
Fraqueza, apesar de plena e total saúde.

Nas sombras eu me escondo aturdido
Quero ver o Sol, mas não quero luz
Cruel e real tua atordoante presença
Que mesmo sem ter cor, muito seduz.

Desejar-te é desafiar todas as barreiras
Vencer o tempo, fugir da cruz
Animalizado instinto, puro sentimento
Revelar meu carrasco, sem tirar seu capuz.

Deixar o fogo queimar a carne
Deixar a alma arder em torpor
Trocar o certo pelo incerto atraente
Trocar o vazio pelo anseio, impávido pavor.

Sucubus real, tangível e sedutor
Filha das trevas, suga o sangue de minhas feridas
Cospe em minha face, sem nenhum valor
Prossegue caminhando para sempre sem vida.

Eu olho para o céu e vejo
Fragmentos de mim, totalidade do teu ser
És agora mais forte que antes
Êxtase alucinante, não me perdoo por te querer.

E depois me calo,
O silêncio tem mais à dizer
Fria pele, passa-me teu calor
Já estou morto, muito antes de morrer.

succubus.jpg