chuva na praia –
o horizonte se dissolve
.
o mar se aproxima do mundo
e o mundo, de mim

chuva na praia –
o horizonte se dissolve
.
o mar se aproxima do mundo
e o mundo, de mim

I. A garça
O vento esculpe a crista da maré,
desenha formas que o sal logo desfaz.
A garça fita o que o tempo quer,
no mergulho exato de um instante em paz.
Não há ontem na curva do horizonte,
nem promessas no vôo do gavião.
A vida é o jorro que brota da fonte,
sem pedir licença ou explicação.
O mundo gira em sua luz de cobre,
alheio ao passo de quem o quer medir.
A beleza é livre, o olhar é nobre,
no simples mistério de apenas existir.
II. O gavião
O vento sustenta o risco no céu,
abre no azul um traço fugaz.
O gavião não pesa o seu papel,
segue no fluxo que nunca se desfaz.
Lá embaixo, a garça detém o instante,
na linha exata de mergulhar.
O alto se move, livre e distante,
sem ponto fixo que o faça parar.
O mundo se alarga no que se descobre,
alheio ao gesto de quem quer medir.
A beleza é vasta, o silêncio é nobre,
no livre impulso de apenas seguir.
III. O mesmo céu
O horizonte sustenta o que é vão,
onde o longe e o perto se desfaz.
Não há medida na extensão,
nem forma fixa no que se refaz.
A garça encontra o ponto do ar,
no gesto exato de mergulhar.
O gavião não se prende ao passar,
no amplo curso de apenas voar.
O mundo respira no mesmo cobre,
sem escolher ficar ou partir.
A beleza é livre, o silêncio é nobre,
no mesmo acordo de apenas existir.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Mais um domingo.
Mais protetor solar.
Mais uma caminhada na praia.
Mais uma água de coco.
Mais uma roda de amigos.
Mais uma cerveja gelada.
Mais uma empada de camarão.
Mais risadas.
Mais um café.
Mais um bombom de chocolate.
Mais doçura.
Mais fé.
Mais gratidão.
Mais um domingo –
E é tão bom estar vivo! –
Se Deus quiser,
Outros tantos domingos virão.

Fica em Niterói, cidade do Estado do Rio de Janeiro, terra onde eu nasci. Leva esse nome por conta de um navio cargueiro que encalhou na praia. Maiores detalhes aqui.
Mas nem é esse o motivo desse post. Há tempos que eu não ia nessa praia, e no final de semana passado tive a chance de matar as saudades. Foi um reencontro, digamos assim. Deus me brindou com um dia lindo, que foi registrado em uma fotografia que mais parece uma pintura.

Ao fundo, o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor vistos de fora da Baía de Guanabara, de um ângulo pouco conhecido pelos cariocas (tecnicamente, niteroienses não são cariocas – são fluminenses). Aliás, dizem que a melhor coisa de Niterói é a vista para a cidade do Rio de Janeiro. Eu não concordo, mas também não discordo… Há como discordar vendo essa fotografia?
Era só isso mesmo. E na vitrola, não poderia ser outra música…
No calçadão da praia
Olhos nos olhos
Mãos e almas entrelaçadas
Excesso de tudo
Carência de nada
Completude de vida
Na acepção mais viva
Da viva palavra
Beijo sem igual
Abraço transcendental
Todo o resto virou pouco
E virou tudo
O que era pouco mais que o nada
A declaração de amor
A entrega irrestrita
Os sorrisos que declaram
Muito mais do que as bocas falam
E o mar a olhar
O júbilo que nos faz levitar
Nosso amor é a pimenta da terra
Que tempera na medida certa
Que faz rir
E faz chorar
Plenitude do ser
Do viver
Do querer estar.

Havia uma pequena escada
Bem ali, no meio do nada
E nela sonhos se fizeram sonhos
Não mais só nossos
Mas de quem por lá passava
Era evidente
Contundente
Surpreendente
Deliciosamente nosso…
Teu e meu –
Do universo também! –
Em ínfimas frações de duas vidas inteiras
De tudo aconteceu
Eternizou-se
Perfumou o mundo de alegria
Transformou tudo em flores
Inspirou outros com seus amores
Criou novas cores e sabores
Insuflou até os mais tímidos corações
Cobriu de amor e salvou vidas
Havia uma pequena escada
E para nós ela só mostrava
Como podem ser inesquecíveis
Esses pequenos momentos incríveis
De duas almas completamente enamoradas.

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