Avatar de Desconhecido

Pequena metafísica doméstica

Ninguém sabe por que as chaves se perdem.

Talvez não se percam.

Talvez esperem o momento em que a casa silencia para escapar das gavetas e procurar fechaduras que nunca encontraram.

As cadeiras envelhecem.

Os braços de madeira ficam lisos onde tantas mãos se apoiaram.

As paredes esquecem. Guardam apenas manchas claras nos lugares onde antes havia quadros.

As xícaras conservam pequenos segredos na meia-lua escura do café esquecido no fundo.

Os livros acumulam poeira como quem coleciona invernos.

E nós atravessamos tudo isso imaginando que somos diferentes.

Mas, às vezes, encontro uma fotografia antiga ou um bilhete esquecido entre páginas

e percebo que também sou uma coisa deixada no mundo,

tentando compreender o motivo de estar aqui

antes de me tornar mais uma lembrança em alguma gaveta.