Avatar de Desconhecido

Resposta


Perguntas se ocupas em mim
o espaço que preencho em ti.

Não sei medir afetos.

Mas sei que tua lembrança
atravessa meus dias sem pedir licença.

Sei que uma mensagem tua
é capaz de iluminar uma tarde inteira.

Sei que tua voz permanece
mesmo depois do silêncio.

Sei que teu perfume insiste
mesmo quando já não estás.

E sei que, entre os encontros
que a vida me ofereceu,
há poucos que habitam meus pensamentos
com tamanha delicadeza
e riqueza de detalhes.

E também sei que, entre as pessoas
que o tempo me trouxe,
há poucas cuja felicidade
importa tanto quanto a tua

Estás aqui.

Agora.

Nestes versos.

No mesmo convite,
que refiz e refaço,
em palavras e gestos,
todos os dias:

Tu és a resposta não só para a tua própria pergunta,
mas para todas que eu tinha antes de ti.

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Quase igual

O tempo desloca o que parecia ficar,
quase sem aviso, altera o sentir.
O que antes cabia começa a não estar,
sem que se nomeie o gesto de partir.

Há gestos que já não encontram lugar,
palavras que soam sem o mesmo tom.
O que antes vibrava aprende a calar,
e a antiga presença recua no som.

Mas algo persiste sem buscar lugar,
um traço difuso que insiste em seguir.
Não volta ao que foi nem deixa de estar,
apenas se inclina ao que é existir.

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Desvio

Dia sem promessa:

no meio do silêncio,

algo respirou.

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Sakura

Sob a flor de cerejeira,
o tempo não pesa: flutua.

As pétalas caem sem drama,
como quem aceita partir
antes mesmo de ficar.

E ali, entre um sopro e outro,
você existia:
leve,
inteira,
quase impossível de nomear.

Havia algo no seu olhar
que não pedia futuro: apenas presença.

Como as sakuras:
breves,
delicadas,
inesquecíveis não por durarem,
mas por acontecerem.

E eu,
entre a queda de uma pétala
e o silêncio seguinte,
entendi:

Alguns encontros
não são feitos para permanecer,
mas para florescer dentro.

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Multiversos

Cabe tudo:

o não dito

expande.

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Melífluo

Entre dois caminhos, eu paro –

o mundo segue, mas dentro de mim,

o tempo aprende a hesitar.

.

O silêncio cresce,

como um peso melífluo no peito,

sussurrando perguntas sem respostas.

.

E nesse intervalo incerto,

não saber também é um lugar

onde, aos poucos, eu existo.

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Renascer

Luz no silêncio,

ergue montanhas de afeto –

o peito renasce.

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O inventário do silêncio

Os dias de espera
Me prepararam
Para os dias
De nunca mais.

Dias que o tempo levou
E que o vento não mais traz.

Há um silêncio novo na casa,
Que a longa espera ensinou,
O tempo, que antes era brasa,
Cinza mansa se tornou.

Não é o fim da estrada que vejo,
Mas o fim de um modo de andar.
Guardo no peito o meu amor e desejo,
Para em silêncio observar.

São os dias de nunca mais ser o mesmo,
Para que a verdade possa, enfim, chegar.

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Cada poro

Não creias no meu não falar de amor.

Sufocado pela saudade,

Em silêncio,

Cada poro meu por ti grita.

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Madrugada

Nada madrugada,

Tudo cabe,

Tudo arde,

Tudo pulsa,

Certeza vira dúvida,

Dúvida vira silêncio.

.

Na madrugada,

Não há paz,

Não há lenitivo,

E tudo que é vivo

Ao vivo jaz,

Se faz de morto.

.

Na madrugada,

A febre piora –

A vida piora –

E o sangue jorra

Por sobre as memórias:

Beco sem saída.