Avatar de Desconhecido

Talvez nem seja coleira

Há um tipo de amor que se parece com vício: não porque a droga seja a outra pessoa, mas porque o corpo aprende a esperar uma dose — uma mensagem, um “bom dia”, uma prova de que ainda se existe aos olhos de alguém. E quando a dose atrasa, o corpo entra em abstinência, mesmo que a mente saiba que não deveria.

Eu me pergunto, ultimamente, se o que chamamos de entrega não é, às vezes, apenas medo disfarçado de generosidade. Dou-me inteiro não porque sobra amor, mas porque falta em mim a coragem de ficar quieto e ver o que o outro faz quando eu não faço nada. Tomo a iniciativa cem vezes porque tenho pavor do silêncio — e chamo isso de cuidado, quando às vezes é apenas o adiamento de uma pergunta que temo responder: e se, deixado livre, o outro simplesmente não vier?

Toda dependência precisa de uma boa história para se sustentar. A minha é generosa comigo: digo que é amor, digo que é lealdade, digo que “as coisas vão se resolver”. Raramente digo, em voz alta, que talvez eu esteja apenas repetindo um gesto antigo — o de me abaixar para caber onde talvez nem fosse necessário me abaixar, onde eu talvez já caiba naturalmente.

Há uma diferença entre esperar e ficar refém da espera. Esperar é um ato livre: eu escolho, sabendo que posso parar de escolher a qualquer momento. Ficar refém é quando a espera escolhe por mim — quando já não sei separar o que sinto do que passei a sentir, de tanto repetir, toda vez que o silêncio dura demais.

Talvez eu esteja enxergando coleira onde existe apenas uma circunstância que eu ainda não consigo ver inteira. Não sei se a dependência que eu nomeio aqui é sobre o que realmente está acontecendo, ou sobre a história que eu preciso contar pra dar sentido ao silêncio.

E, no entanto, há algo de verdadeiro que não quero descartar só porque talvez seja algum tipo de dependência. O desejo de amar, de proximidade, de ser reconhecido, de construir algo com alguém — isso não é patologia, é apenas humano. O erro não está em querer.

Talvez a pergunta certa não seja “como faço para que o outro me escolha”, mas “que tipo de vida eu construo enquanto espero uma resposta que não depende de mim”. Porque enquanto isso — eu continuo existindo. Há um corpo que precisa se mover, dormir, comer direito, rir sem segunda intenção. Há uma mente que sonha, que planeja, e que ama.

Fico devendo, a mim mesmo, a coragem de afrouxá-la — se é que ela existe.

Avatar de Desconhecido

Entre a pele e a memória

I. A promessa

Nos teus lábios há
promessas que o silêncio
jamais desmentiu.
E eu sigo descobrindo
novos caminhos em ti.


II. O segredo

Teu nome repousa
na curva dos meus desejos
como um segredo.
Quanto mais tento esquecê-lo,
mais se aproxima de mim.


III. A espera

A noite demora.
Mas tua ausência desperta
o que adormece.
Há amores que insistem
em florescer no escuro.


IV. A falta

Não é só desejo.
É reconhecer teu corpo
na própria falta.
Como quem toca uma música
mesmo sem ouvir o som.


V. A permanência

Era só um olhar.
Mas trouxe de volta a chama
que eu conhecia.
Há desejos que não morrem,
apenas aprendem a esperar.


Avatar de Desconhecido

Com frio

As pequenas esperanças 
ainda vivem — encolhidas — 
no fundo da gaveta de meias, 

tremendo de frio, 
convencidas de que foram deixadas 
para depois. 

Não dormem por vontade, 
mas porque alguém as embalou 
num sono sem sonho, 

hipnotizadas 
pelo peso dos dias. 

Essas esperanças — 
que já ocuparam a casa inteira — 
agora encolhem, 
desaparecem devagar, 
como quem aprende 
a não pedir mais nada.

Avatar de Desconhecido

Mar aberto

Os ventos mudaram.

Mas ventos sempre mudam.

O que pesa não é a mudança dos céus, nem a dança imprevisível das nuvens.

O que pesa é o esforço das minhas mãos.

Ando cansado de ajustar minhas velas, cansado de reaprender rotas, de chamar de esperança aquilo que tantas vezes foi apenas espera.

Talvez não seja a mudança dos ventos que me esgote,

mas sim navegar sozinho.

Avatar de Desconhecido

Entre

Portas abertas,

o vento traz teu perfume,

tarde vazia.

No limiar da espera,

meu coração se inclina.

Avatar de Desconhecido

O inventário do silêncio

Os dias de espera
Me prepararam
Para os dias
De nunca mais.

Dias que o tempo levou
E que o vento não mais traz.

Há um silêncio novo na casa,
Que a longa espera ensinou,
O tempo, que antes era brasa,
Cinza mansa se tornou.

Não é o fim da estrada que vejo,
Mas o fim de um modo de andar.
Guardo no peito o meu amor e desejo,
Para em silêncio observar.

São os dias de nunca mais ser o mesmo,
Para que a verdade possa, enfim, chegar.

Avatar de Desconhecido

Ponto de exclamação

Ainda estou aqui

A te esperar

No nosso lugar

Na nossa casa

No nosso chão.

.

Não mudei nada de lugar

Ainda estou aqui

A te esperar

No mesmo ponto

Na mesma estação.

.

A saudade é calvário

Mas teu amor é corolário

Da minha existência

E sim, há paciência

Assim como há sofreguidão.

.

Segura na minha mão

Porque quero e preciso

Dos teus abraços e beijos

Do cheiro da tua nuca

Das batidas do teu coração.

.

Ainda estou aqui

A te esperar

Porque é teu este meu lugar

E chego a salivar

Com este amor que é tudo

(ponto de exclamação!)

Avatar de Desconhecido

Molheira

Eu estou em casa,

Sentado à mesa,

Esperando você chegar.

As taças, o saca-rolhas,

Aquele vinho que você gosta,

Milhares de risadas,

Queijo parmesão.

Eu estou em casa,

Sentado à mesa,

Meu coração em uma baixela,

Meu sangue na molheira –

Vivo –

Borbulhando.

Avatar de Desconhecido

Estrela (2)

Como uma estrela

A me iluminar

Que mesmo depois de morta

Continua a brilhar

Como uma estrela

Que viveu para me guiar

E eu sigo esperando

Você ressuscitar.

Avatar de Desconhecido

6 – Preguiça

Já fui do céu

Ao inferno

E do inferno

Ao céu

Muitas e muitas vezes

Sempre dei tudo de mim

 

Sempre tive aquela sensação

De que devia e precisava fazer mais

De que precisava ir atrás

Chegava até a esquecer de mim

 

E eu amava…

E como amava!

 

De dia ou de noite

Ao fim de tarde

E eu tentava fazer tudo perfeito

Tudo direito

Simples assim:

Só para nos ver sorrir

 

Eu lutava…

E como eu lutava!

 

Superava obstáculos

De toda e qualquer natureza

Eu queria a verdade

Pela nossa cumplicidade

Pela nossa reciprocidade

Eu lutava por nós

Por você e por mim

 

Até o dia que me percebi um Don Quixote

E aí eu tive preguiça, sim

Talvez eu esteja só cansado

Mas por via das dúvidas

Vou esperar sentado.

792-esperar-nao-e-perder-tempo--A-Frase--

1 – Gula

2 – Avareza

3 – Luxúria

4 – Ira

5 – Inveja

6 – Preguiça

7 – Orgulho