Avatar de Desconhecido

Basta a mão

No canto, o violão descansa.

Parece quieto, mas não está vazio —
guarda na madeira tudo o que já foi.

As noites em que o toquei inteiro,
com os dedos doendo de tanto insistir.

As tardes de descaso,
um acorde solto e nada mais.

As alegrias que pediram música,
e as dores que também pediram.

Ele não escolhe, não julga, não esquece.
Só recebe o que ponho nele
e devolve em música.

Esteve comigo em cada travessia —
ora em silêncio, ora em som,
guardando ou devolvendo o que eu trazia.

Agora repousa.
Mas basta a mão
para que tudo volte a soar um dia.

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Entre a pele e a memória

I. A promessa

Nos teus lábios há
promessas que o silêncio
jamais desmentiu.
E eu sigo descobrindo
novos caminhos em ti.


II. O segredo

Teu nome repousa
na curva dos meus desejos
como um segredo.
Quanto mais tento esquecê-lo,
mais se aproxima de mim.


III. A espera

A noite demora.
Mas tua ausência desperta
o que adormece.
Há amores que insistem
em florescer no escuro.


IV. A falta

Não é só desejo.
É reconhecer teu corpo
na própria falta.
Como quem toca uma música
mesmo sem ouvir o som.


V. A permanência

Era só um olhar.
Mas trouxe de volta a chama
que eu conhecia.
Há desejos que não morrem,
apenas aprendem a esperar.


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Pegadas

Olhei para trás e vi minhas pegadas

Algumas um pouco borradas pelo tempo

Outras tantas ainda vivas apesar do tempo.

…

Pegadas que viraram poças

De sangue, suor

Esperma, lágrimas,

Vinho, saliva.

…

Cicatrizes

Momentos felizes

Pegadas que não se repetirão mais

Pegadas que nunca serão esquecidas.

…

Mas o que são estas minhas pegadas

Senão a minha própria vida?

A elas sou apegado

E eu sou desses

Que criam e vivem histórias

E minhas pegadas sempre serão

Ainda que depois da minha morte

A prova de que eu continuo vivo.

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Minha memória não anda boa…

Obrigado por me lembrar

De buscar na tua casa

O que eu propositadamente esqueci.

Não deixe na portaria –

Espere-me de porta aberta –

Pois vou subir.

Aproveita e peça uma pizza!

Pode até ser com catupiry.

O vinho eu levo, claro,

E já aviso que novamente vou esquecer

Alguma coisa por aí.

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Outro dia

Longe das palavras,
Longe das poesias,
Senti na minha boca
O cheiro
Que somente a ti
Pertencia.

Não me dei conta
Naquele momento,
Naquele lugar,
Que as águas
Que eu estava
A navegar
Eram de fato
De outra fantasia.

Até que ela me perguntou
Se dela eu no futuro
Me lembraria,
E foi aí que me lembrei
De que para ti
Também disse
Que não me esqueceria.

E na inocente sinceridade
Que a ti eu devia
Calei a sua boca
Como pude
Sem qualquer pudor,
Inibição,
Ou hipocrisia.

Talvez eu a ela
Ainda responda
Não hoje –
Defintivamente não hoje –
Posto que o seu mel
Da minha boca
Ainda escorria
Quando fui-me embora
Prometendo voltar
Amanhã
Ou qualquer outro dia.

Entre o esquecer
E o lembrar,
Minha boca
Permaneceu calada,
Mas chocou-me
Não ser mais teu
O cheiro que
Inebriava minha alma
E somente de ti
Verdadeiramente resplandecia.

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P.S. 18

Quando você me disse que tudo ficaria bem, eu acreditei.

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P.S. 16

Acredita que acordei com a nítida sensação de que você iria me ligar ou mesmo aparecer na porta da minha casa?

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De outro mundo

Há tantas poesias e tantas memórias,
Tantas histórias que fazem o fim
Não ter fim.

E eu tinha medo disso.
Medo de ser consumido pelo passado,
Pelas recordações,
Pelos momentos muito mais do que felizes
Que vivemos juntos.

Hoje, não mais.

Aprendi tanta coisa,
Experimentei tanta coisa,
Vivi tanta coisa boa,
Cresci tanto a teu lado…
Como posso ignorar isso?

O fim foi estranho –
Sabemos disso.
Foi um fim sem fim,
E assim, precisei criar um,
E nele você foi abduzida por ETs.

Talvez eles estejam fazendo experimentos
E estudando o seu DNA,
Mas os ETs gostaram tanto de você –
Feito eu –
Que decidiram não te devolver.
Eu também não devolveria,
Confesso.

Talvez você esteja me vendo de onde está,
Mas isso não importa.
A menos que os ETs tenham lavado sua memória,
Sei que lembra das coisas como eu me lembro,
E isso que é o importante:
Mesmo ausente, ser presente na vida de alguém.

Que os ETs cuidem bem de você.
Você merece e sim, eu sei:
Você não é mais do meu mundo.

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Duvidando

Não escrevo para ler
E lembrar no futuro
Escrevo para esquecer
Do agora
No agora

Cada gota de tinta
Cada rima
Cada verso
Cada estrofe
Fazem-me esquecer

Tudo é desabafo
Descarrego

Coisas que quis dizer
E não pude
Coisas que tentei entender
E não consegui
Coisas minhas –
Só minhas –
Palavras sobre mim
Palavras por mim

E no futuro
Ao reler o que escrevi
Tudo parecerá estranho –
Porque de mim
Serei um estranho –
Perdido
Nas minhas próprias memórias
Duvidando do meu passado
Por tê-lo documentado
E ainda assim
Não mais o sentir.

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Cinzeiro

Não te assustes, meu bem

Se um dia, ao acordares

Vires o meu lado em nossa cama

Frio e vazio

Fui-me

Precisei ir

 

Sem aviso formal

É fato

Mas vou-me por não me sentir útil

Vi minha vida por teu amor

Por nosso amor

Por nossos planos

Muitos, muitos anos

Ser rasgada a seco

Deixada ao vento

E com fome e frio

Perdida no tempo

Tudo feito e desfeito

Esforço impróprio

Vida pueril

Vida inútil

 

Mas declaro

Que fique claro

Que não sou algoz

E muito menos vítima

Mas eu sou fogo

Sou brasa

O combustível

O comburente

Sou a flecha

E o arqueiro

E não cigarro

Ou mero trago

Ou mesmo cinzas de qualquer cinzeiro

 

Aproveito a oportunidade

Para oferecer-te minhas sinceras desculpas

Não sei exatamente onde errei

Se foi por dar-me como me dei

Ou se foi por sonhar como sonhei

Fato é que agora sei

Que eram meus

E tão somente meus

Os nossos sonhos

E neles nos amávamos

E eu amava

Eu sempre amei

 

E na solidão agora desacompanhada

De minhas horas

Teu nome em minha memória

Saudade que condena e sufoca

Nevoeiro de lágrimas

Que derramam-se em um livro

De uma só página

Um resumo do nosso amor

“Acabou”

Era só fumaça

Mais nada.

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