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Onde não fui dito

Eu vi:
um gesto simples, público, permitido.
E entendi, enfim,
o que você nunca disse.

Não era sobre o mundo.
Nem sobre os outros.
Nem sobre tempo.

Era sobre mim.

Sobre o lugar que eu não tinha.

Porque estar ao seu lado
exigiria algo que nunca veio:
um nome,
um lugar à luz,
um gesto que dissesse –
sem esforço –
“é ele.”

E o que mais dói
não é a ausência da declaração,
mas o fato de que
ela nunca foi sequer pensada.

Passei tanto tempo
tentando caber nisso…

Fazendo mais,
dizendo melhor,
oferecendo o que eu tinha
e o que nem tinha direito de dar,
como se fosse possível,
em algum ponto,
me tornar visível.

Mas não era sobre esforço.

Nunca foi.

Eu me perdi
tentando provar algo
que já era meu.

E hoje eu sei,
com uma clareza que chega tarde:
eu era suficiente.

Só não era para você.

E há algo profundamente injusto nisso:
ser abrigo
sem ter casa.

Ser chamado quando falta
e ignorado quando sobra.

Existir nas sombras
de uma história
que nunca pôde me ter inteiro.

Você sabia.
Em algum nível, sempre soube.

E ainda assim,
esperava de mim segurança
num terreno onde
o chão nunca foi firme.

Tudo o que eu quis –
e não foi pouco, mas também não foi demais –
foi o direito simples
de existir ao seu lado.

Não como exceção.
Não como pausa.
Mas como escolha.

E isso
você nunca me deu.

Então eu fico com o que resta:
não a ausência,
não só a saudade,
mas a certeza dura
de que o amor
não sustenta
aquilo que não é assumido.

E o que mais lamento,
não é o fim.

É nunca ter tido, de fato,
um início verdadeiro.

Porque, no fim,
o que você me tirou
não foi apenas você.

Foi a chance
de ser, ao seu lado,
aquilo que eu sei que sou:

Inteiro.

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Ainda assim (2)

Força não é sustentar a aparência.

É deixar cair,

e, ainda assim,

existir.

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Coisas todas

Algumas coisas não são

Até porque seriam

Se tivessem que ter sido.

E isso basta:

É resposta

É verdade

É.

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Bora viver!

Já tive mais cabelo, mas também já tive mais medos. A idade vem com seus prós e seus contras.

Somos ensinados desde cedo a pertencer, o que esconde muitas vezes as ginásticas e malabarismos que precisamos fazer para sermos aceitos, pois a aceitação dos outros é pré-requisito para o pertencimento.

A família, a igreja, a escola, o time, a visão política. Quantos sacrifícios feitos em nome do pertencer?

E se ao invés de pertencer, decidirmos apenas ser? Um ato de coragem, de bravura, que não vem sem dor ou mesmo sem despedidas. Entretanto, a vida me ensinou que quando somos, sabemos que tudo que nos resta é verdadeiramente nosso, e isso se chama liberdade, independência.

Sejamos, então, e se calhar de pertencermos, ótimo. Caso contrário, paciência. Bora viver!

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Germinando

E se as lágrimas forem necessárias para fazer a vida germinar?

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Dias

Escolher-te-ei todos os dias

Até que chegue o fim dos meus dias

Porque quando não estás em meus dias

É como se dias não houvesse.

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Guarda-me

Guarda-me dentro de ti

Porque é só dentro de ti

Que eu (r)ex(s)isto.

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Alma limpa

Havia algo de despretencioso
No silêncio dos meus lábios
Nas batidas compassadas
No meu coração

Havia algo de belo
Na ausência das rimas
Na calmaria dos gestos
Nos meus pés no chão

Havia algo de precioso
Nas páginas dos livros
Nos filmes introspectivos
Na profunda reflexão

Havia algo de singelo
Nas brisa suave
Nos sonhos risonhos
No incondicional perdão

Havia algo
De novo
De novo
Eu havia.