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Reencontro

Há um prazer de viver que eu não sentia há um bom tempo, e que voltou — devagar, sem aviso, como essas coisas costumam voltar. Não é euforia. É mais parecido com reconhecer o próprio rosto depois de um tempo evitando o espelho.

Volto ao corpo. O exercício físico deixou de ser obrigação e virou o prazer simples de sentir o esforço, o suor como prova de que ainda estou inteiro, capaz de algo que não serve a mais ninguém além de mim.

Volto à música: violão e guitarra, os dois, dedos reaprendendo o que um dia sabiam de cor. Volto à fotografia, não pela câmera, mas pelo olhar: pessoas, paisagens, a tentativa de ver mais fundo no que os olhos já veem todo dia. Volto à palavra: aos versos sobre os temas mais variados, ao prazer gratuito de escrever porque escrever é necessário, é terapêutico.

Volto também aos livros da faculdade, mas com outros olhos. Releio Marx, releio Adam Smith, atravesso o espectro inteiro sem escolher lado. Porque conhecimento, para mim, sempre foi isso: não a parte que confirma o que já penso, mas o todo, de onde se extrai o melhor de cada visão. Leio filosofia, psicologia, macroeconomia, geopolítica, pelo puro prazer de entender.

E há uma surpresa boa no trabalho: atuar em áreas que nunca tinha explorado antes está me ensinando mais sobre mim do que sobre a profissão em si. Há um ganho que não é só técnico. É o valor simples de produzir, executar, ver uma coisa pronta que antes só existia como ideia.

Mas talvez o mais importante não seja nenhuma dessas coisas isoladamente. É tentar estar mais presente no que já está acontecendo — no lugar onde estou, na conversa que tenho, na tarefa que faço, nas pessoas que cruzam meu caminho. Aprender mais com o cotidiano em vez de atravessá-lo distraído. Melhorar a maneira como me relaciono com o mundo, não por técnica, mas por atenção.

Nenhuma dessas coisas, sozinha, seria reencontro. Juntas, feitas com presença, começam a parecer com isso: eu, de volta a mim mesmo, depois de um tempo ausente.

Sinto falta destas partes de mim há tempos. E, aos poucos, estou voltando.

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Germinando

E se as lágrimas forem necessárias para fazer a vida germinar?

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Teu néctar

Saudei a vida feito um borboleta

Que se liberta de sua crisálida

Por nela não caber mais.

.

Cresci e não foi fácil.

Crescer nunca é fácil.

Crescer pinica e faz chorar.

.

Mas agora, posso voar

E ver lá de cima

Como são pequeninas

As antes coisas grandes da vida

Que em mim também já não cabem mais.

.

Agora, conto com o vento

Estou pelo voo sedento:

Ei de te achar

E voarei até ti

Para do teu néctar degustar.

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Crescer

Por pura vaidade, não reconhece a perda.

Luta batalhas que não fazem mais sentido.

Chama a atenção para as suas causas irrelevantes –

Todas elas –

Irrelevantes para o mundo; o mundo que não é só dele.

Distorce, trama, difama, manipula,

Pois não tem a coragem de se olhar no espelho.

E ali, bem no meio da poça de sangue

Que se formou dos cortes que fez a si mesmo,

Prosta-se feito criança que espera a saída do escola.

Quer rever seu pai, sua mãe.

Quer que eles lhe digam que vai ficar tudo bem.

Quer se rever criança e poder ser criança.

Mas isso não é mais possível: a criança precisa morrer.

O bebê que ainda é precisa desfraldar.

Precisa sepultar partes suas em definitivo para ser.

Precisa viver o luto que é crescer.

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Temporário

Eu sou
O que está por detrás
Das portas que não abro
O que não encaro
Nas janelas que embaço
As músicas que não escuto
Os petiscos que não degusto
Os vinhos que não abro
As conversas que não tenho
Os sentimentos que ignoro
E tudo mais que disfarço

Eu estou
Sem sede
Sem fome
Entalado
Mofado
Abismado
Atordoado
Disperso
Possesso
Compresso
Inconfesso
Puto!
E mais nada

Eu estou
O reverso
Eu estou
Ao contrário
E diante
Desse corolário
Eu estou morto
Mas esse óbito –
Valha-me, Deus! –
É temporário.