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Campo não atingido

Não foi falta de gesto.
Nem ausência.

Houve palavra.
Houve tempo.
Houve um corpo inteiro
se inclinando na direção de alguém.

Como estar diante do outro,
com tudo o que se é,
e ainda assim
não atravessar o seu campo de visão.

Então, você avança,
tenta consertar o que não se deixa ajustar.

Afina a linguagem,
oferece mais tempo,
mais escuta,
mais disponibilidade do que havia lugar.

Você chega mais perto.

E é aí
que o tudo se desfaz.

Não há respostas —
apenas retornos tortos,
como quem não sustenta o peso
do que recebe.

Você se estende,
e o excesso, nesse ponto,
já não é mais presença:
é exposição.

Não é a ausência que apaga alguém,
é o transbordo
no lugar que nada contém.

Você fala,
fica,
insiste…

E não alcança.

Não por erro.
Não por falta.

Mas porque, do outro lado,
não há superfície
onde o que você é repouse.

Dói
com uma precisão que não grita.

Porque o amor ficou,
mas sem lugar.

E é então que algo muda de eixo.

Não há recuo.
Não há escolha limpa.

Há um reconhecimento duro:
continuar
já não é cuidar;
é se entregar ao apagamento.

Mas há um limite:
nítido, ainda que invisível,
que o outro não vê.

E não é distração.
Não é atraso.

É limite.

E permanecer
é participar
da própria ausência.

Então, ir embora acontece.

Não como gesto forte.
Não como ruptura.

Mas como quem retira o próprio reflexo
de um espelho
que não devolve mais imagem.

E o mais difícil
é saber
que o amor não acabou.

Mas dizer, mesmo assim:
não fico
onde não posso existir.

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Topografia do Ausente

Não é o amor que acaba primeiro.

Ele fica.

Como um móvel esquecido
numa casa que ainda guarda calor,
mas que já não sustenta presença.

O que se perde antes
é a delicadeza de reconhecer o outro
como território, como extensão:
um mapa mínimo, íntimo,
que se dobra, se fecha,
e deixa de ser lido.

É esquecido.

De repente, você fala
e a sua voz não pousa.

Paira.

Não há queda, nem choque,
só um deslocamento lento das coisas,
como se o mundo, exausto,
desaprendesse o equilíbrio de dois.

O amor, então, persiste
por debaixo,
quase brasa sob cinza.
Mas amar sozinho
é um silêncio com memória:
isso pesa, dói.

Há um instante — quase cego —
em que você se percebe menor,
ajustando arestas,
apagando excessos,
pisando em ovos
para caber no resto.

E é ali,
nesse quase nada,
que algo insiste:
não é orgulho,
não é dor nem fúria:
é precisão.
Uma lembrança exata
de quem você é quando inteiro.

E isso não se negocia.

Ir embora
não rompe o que houve:
expõe a falta do que sustentava.

Porque há amores que continuam
mesmo depois de esquecidos
no corpo do outro,
mas nenhum atravessa o tempo
sem o mínimo gesto
de reconhecimento.

Então você fecha a porta devagar,
como quem ainda alinha os objetos
antes de sair.

(não se quebra o que fica)

E depois, sem anúncio,
já em outra paisagem,
o corpo se refaz:
aprende de novo o espaço,
a medida,
o direito simples
de existir inteiro.

E, pouco a pouco,
sem que se perceba,
o mundo volta a oferecer passagem.

Não é o mesmo gesto.
Não é o mesmo nome.

É apenas isso:
alguém que sustenta o olhar
– e fica.

E ali,
sem esforço,
o encontro acontece.

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Ainda assim

Alguns dias são muito difíceis.

A dor não vem leve.
Ela pesa.
O corpo sente antes mesmo do pensamento conseguir se organizar.
O peito aperta.
O ar falha.
Há momentos em que tudo parece próximo de parar.

E surge a pergunta:
“O que eu fiz para merecer isso? Aonde foi que eu errei?”

Há momentos em que eu gostaria de ser o culpado —
inteiramente responsável —
apenas para ter o que mudar,
para ter por onde começar.

Mas nem sempre existe causa clara.

A dor não bate à porta.
Ela entra.
E ocupa.

Não há para onde ir.
Não há como evitar.
Não há argumento que alivie,
nem distração que alcance.

Resta apenas atravessar.

Atravessar com o que ainda resta de mim,
Com respeito e dignidade,
sem negar o que foi vivido,
sem diminuir o que senti.

Porque algumas dores não são pequenas.
Não são passageiras.
São daquelas que atravessam por inteiro —
corpo, memória, silêncio —
e por alguns instantes,
parecem não ter fim.

E ainda assim… a dor cede.

Não porque deixamos de sentir,
mas porque algo em nós aprende a suportar.

E quando ela cede,
já não somos mais os mesmos.

Talvez mais firmes.
Talvez mais conscientes.

Sobretudo, ainda de pé.
Ainda assim.

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De pé

Há quem passe pela estrada
como vento que não aprende o caminho.

Eu não.

Sou quem finca os pés no chão,
quem conhece o peso das próprias escolhas,
quem abre portas sabendo
que terá de habitá-las.

Não ofereço presença leve:
ofereço permanência.

Carrego na palavra
o mesmo gesto com que construo.

Se prometo abrigo,
levanto paredes.
Se digo “fica”,
preparo espaço.

Nem tudo que toquei ficou,
mas nada do que toquei
foi sem verdade.

E o que em mim permanece
não é o que passou:

É o homem que ficou de pé
quando era mais fácil
ir embora.

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Metalingus – Alter Bridge

Essa música é um soco na cara. Há mais para se fazer na vida do que reclamar do que poderia ter sido.

Sigamos em frente! Letra no vídeo.

P.S.: A banda é SENSACIONAL!

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Homens emocionados

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Como será?

Como será se você ficar desempregado?

Como será se você estiver triste?

Como será se você ficar doente?

Como será se você precisar de ajuda?

Como será se você precisar ser ouvido?

Como será quando você inexoravelmente envelhecer?

Como será?

E talvez os entraves da vida –

Permitidos por Deus –

Sejam apenas para mostrar

Quem pode até estar,

Mas nunca esteve de fato contigo.

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Cabelos brancos

A senhora esperava os carros pararem

Para que ela pudesse atravessar a rua.

Tantos carros –

Muitos carros! –

Nenhum deles a sentia.

A pressa deixava todos cegos.

Cegos que viam cabelos brancos,

Dificuldades nos movimentos,

E anos e mais anos e mais anos.

E a senhora ali,

Desnorteada,

Diante da ingratidão do mundo

Que ela mesma ajudou a construir.

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Detox da alma

A maioria das pessoas pensam que o perdão é algo que beneficia o agressor ou o algoz. E talvez beneficie mesmo, mas…

Como seria a sua vida sem perdoar o outro? Como ficaria o seu coração carregando uma espécie de mix de ódio e vingança? O quão pesada seria a sua vida se tivesse que carregar tudo isto para sempre?

Quando você perdoa, independentemente da sua religião, o que você está dizendo para o outro é o seguinte:

“Sabe aquela coisa suja que você quis deixar em minha vida? Sabe aquela necessidade que você tinha de me deixar para baixo? Lembra das fofocas e das mentiras? Eu não sou nada disso! Tudo isso não é meu e faço questão de devolver. Você está perdoado! Se não quiser ficar com estas coisas, jogue-as fora. Comigo é que não vão ficar.”

Perdoar é o detox da alma e contraria muitas vezes os interesses de quem fez você ficar mal. Vai que a pessoa sente prazer em ver você triste? Sim, isto existe!

Pense nisso. Não deixar o seu ofensor ou adversário dominar a sua vida ainda que à distância. E mais… Como você pode esperar que flores surjam dentro do seu coração quando ele ainda está repleto de lixo que sequer é seu?

Bônus: o perdão, ainda que não seja esta a sua intenção, pode ser encarado pelo outro como um golpe fatal de vingança. Afinal de contas, o perdão também é uma forma de dizer adeus.

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Vim trazer verdades 46

Ninguém precisa de permissão para ir embora da sua vida. As pessoas simplesmente vão quando acham que devem ir, e para aqueles com o mínimo de dignidade, a decisão do outro deve ser obrigatoriamente respeitada. Quer ir? Vai.

É claro que, nessas horas, a gente tenta se vender como a melhor criatura do mundo: “Você nunca vai encontrar alguém que te ame feito eu!” é uma das mais clássicas (e também uma das mais ridículas). O ponto é: será que as pessoa quer de fato alguém que a ame como você a ama? Desde quando você virou a personificação do amor? Só você sabe amar? E se ela achar a sua maneira de amar um saco?

Fato é que, quando alguém se vai, salvo algum acontecimento agudo (uma traição, por exemplo), a pessoa já estava pensando em ir há tempos, por mais que isso não estivesse claro para você. Por algum motivo, a pessoa já estava achando que não valia mais a pena, e calhou de ser naquele dia d, na hora h. Ela só colocou para fora o que já vinha sentindo. Não há muito a ser feito. Aliás, quanto menos for feito, melhor, mas isso já é assunto para outro texto…

Não adianta tentar argumentar. “Se você for embora, nem adianta me procurar depois!” Você realmente acha que a pessoa está indo embora pensando em te procurar depois? Ela quer mais é nunca mais olhar na sua cara! Pode ser algo transitório, passageiro? Pode. E se não for? Vai ficar esperando para sempre?

A vida é curta. Ao invés de ficar se matando tentando entender o que você fez de errado (quem disse que você fez algo de errado?), o negócio é aceitar a separação numa boa, na certeza de que da mesma maneira que aquela pessoa não te quer, há gente te querendo, muito embora essa seja a última coisa que esteja passando na sua cabeça nesse momento.

Para resumir: não meça o seu valor por conta de quem vai embora. Aceite. Faz parte da vida. Sofra, chore, tome um porre, mas levante-se. A vida continua. O que você tem a oferecer pode não ser o que uma pessoa quer, mas pode ser exatamente o que outra quer. Muitas vezes, é apenas uma questão de perspectiva.

Isso não quer dizer que você não tem o que melhorar enquanto pessoa. Tenho certeza que tem! Todo mundo tem! Por isso, use esse momento para fazer uma análise profunda dos seus erros e acertos durante o relacionamento. É uma oportunidade única de evolução e de aprimoramento pessoal.

A fila anda! Lembre-se sempre disso! E vai que nessa sua evolução, a tal da pessoa que te deixou resolve entrar na fila novamente? E se isso acontecer, apenas saiba que vocês não vão estar voltando. Vão estar recomeçando.

P.S.: Fim é fim! Tudo que vier depois disso é recomeço (novo começo, nada de “mais do mesmo”).