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Campo não atingido

Não foi falta de gesto.
Nem ausência.

Houve palavra.
Houve tempo.
Houve um corpo inteiro
se inclinando na direção de alguém.

Como estar diante do outro,
com tudo o que se é,
e ainda assim
não atravessar o seu campo de visão.

Então, você avança,
tenta consertar o que não se deixa ajustar.

Afina a linguagem,
oferece mais tempo,
mais escuta,
mais disponibilidade do que havia lugar.

Você chega mais perto.

E é aí
que o tudo se desfaz.

Não há respostas —
apenas retornos tortos,
como quem não sustenta o peso
do que recebe.

Você se estende,
e o excesso, nesse ponto,
já não é mais presença:
é exposição.

Não é a ausência que apaga alguém,
é o transbordo
no lugar que nada contém.

Você fala,
fica,
insiste…

E não alcança.

Não por erro.
Não por falta.

Mas porque, do outro lado,
não há superfície
onde o que você é repouse.

Dói
com uma precisão que não grita.

Porque o amor ficou,
mas sem lugar.

E é então que algo muda de eixo.

Não há recuo.
Não há escolha limpa.

Há um reconhecimento duro:
continuar
já não é cuidar;
é se entregar ao apagamento.

Mas há um limite:
nítido, ainda que invisível,
que o outro não vê.

E não é distração.
Não é atraso.

É limite.

E permanecer
é participar
da própria ausência.

Então, ir embora acontece.

Não como gesto forte.
Não como ruptura.

Mas como quem retira o próprio reflexo
de um espelho
que não devolve mais imagem.

E o mais difícil
é saber
que o amor não acabou.

Mas dizer, mesmo assim:
não fico
onde não posso existir.

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Aquilo que permanece – Parte 1/3

O que falta também ocupa lugar.

I. Lado Ausente

Olhei para o seu lado da cama.

Você estava —
como sempre fica
tudo o que em mim
ainda insiste.

Estendi a mão.
Nada toquei.

O vazio
não recua.


II. Vestígio

A posição do travesseiro
ainda guarda
um gesto antigo.

Nada ali se move.

E, ainda assim,
algo se repete.


III. Medida

O colchão sabe
onde você esteve.

Eu
já não alcanço.


IV. Forma

Não havia você,
mas o espaço
seguia com a sua forma.

Respirei fundo.

O ar não traz de volta
o que insiste em faltar.


V. Interrupção

Fechei os olhos.

Ali,
você sem falha
estava.

Abri.

E tudo desaba
sem ruído.


VI. Limite

A noite deita ao meu lado
sem tentar substituir.

Ela sabe
o que não é.


VII. Verdade

A cama fria
não mente.

Ela não lembra,
não tenta,
não inventa.

É mais honesta
que a memória.


Aquilo que permanece – Parte 1/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 2/3 | Agora Babou

Aquilo que permanece – Parte 3/3 | Agora Babou