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Não vai

Vou embora.

Não porque o amor morreu, mas porque ficou sozinho. Porque uma casa não se sustenta quando só um dos lados faz o caminho.

Vou embora com as mãos ainda cheias de vontade. Ainda sabendo de cor tua voz, teus silêncios, e as pequenas coisas que ninguém mais sabe.

Há uma crueldade discreta em partir querendo ficar. Em fechar a porta olhando para trás.

Fui embora devagar, quase como quem se perde de propósito.

A cada passo, deixava uma última chance sobre o caminho.

Porque partir, às vezes, é também uma pergunta.

E eu queria que você respondesse.

Queria ouvir teu coração atravessar a distância e dizer:

não vai.

Mas vieram apenas os ruídos da noite,

e então compreendi:

existem despedidas que acontecem muito antes de alguém partir.

E o que mais dói não é a falta que você vai me fazer.

É a falta que você já fazia enquanto eu ainda estava aqui.

A verdade é que eu não fui embora hoje.

Hoje apenas dei nome a uma distância que já existia havia muito tempo.

E então eu fui.

Não para te esquecer, nem para provar alguma coisa.

Fui porque me perdi de mim tentando encontrar espaço em tua vida.

E talvez essa seja a despedida mais triste:

não a de quem deixa de amar,

mas a de quem continua amando e, mesmo assim, precisa partir.

Porque às vezes a relação acaba primeiro.

E o amor, teimoso como sempre, fica um pouco mais.

Sentado na varanda da memória,

vendo o trem partir,

sem coragem de embarcar.

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Seixos

A frase nem sempre precisa ser dita.

Ela existe e insiste em se fazer presente

Nos atitudes e nos simples gestos que se mostram amiúde.

.

A frase escancara e soleniza sem pompa

O que já foi dito no toque corriqueiro,

No desejo que se esvai líquido e infinito,

Tangenciando as curvas cirúrgicas do tempo,

Rumo ao início de tudo que desde sempre deveria ter sido.

.

Não é sobre dizer eu te amo:

É sobre o rio que busca o mar

E sempre, de olhos cerrados, o encontra.

.

Em nosso leito,

Não resta pedra sobre pedra,

Seixo sobre seixo.

Só queixo sobre queixo,

Só eu e você.

.

E para não deixar dúvidas, mais uma vez,

Insisto na frase que nem sempre precisa ser dita –

E que de mim grita:

Eu para sempre te amo.

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P.S. 46

Que sejamos surdos diante de todos os “eu te amo” ditos da boca para fora.

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P.S. 2

Todo mundo sabe e acredita que eu te amo, menos você.

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Inexclicáveis

De todos os clicks e likes que já recebi

Quantos tantos outros deixei de receber

Por serem inexclicáveis?

Quantos foram sorrisos?

Quantos foram saudade?

Quantos foram desejos?

Quantos foram vontades?

Quantos foram orgasmos?

Quantos foram queijos e vinhos?

Quantos foram café?

Quantos foram eus desobrigados?

Quantos foram paixão?

Quantos transbordaram?

Quantos foram o infinito?

Quantos foram liberdade?

Quantos foram amor?

Quantos ainda hoje são

Quantos simplesmente são

Independentemente do que se diz que é?

Quantos…

Quantos…….

Quantos………….

Tudo é tão inexplicável

E a vida assim

Seguindo

Morrendo

E vivendo

Em verdades

Inexclicáveis.

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Nada foi em vão 

Já passamos da fase do “eu te amo”

Hoje, os sorrisos entregam

As vozes denunciam

E os olhares penetram

 

O “eu te amo” ficou pouco

Ficou rouco

Talvez até tosco

Diante de tudo que é sentido

 

Os gestos anunciam

Os abraços reverenciam

Os corpos confrontam-se

Misto de realidade e fantasia

 

Já não é saudade

É necessidade

Cedo ou tarde

Pura e total reciprocidade

 

Fazer o que, então?

São coisas do coração

O nosso primeiro “eu te amo”…

Meu amor, nada foi em vão.

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Vá se foder!

O “eu te amo” é avassalador

E o “vá se foder” absolutamente libertador.

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