Vou embora.
Não porque o amor morreu, mas porque ficou sozinho. Porque uma casa não se sustenta quando só um dos lados faz o caminho.
Vou embora com as mãos ainda cheias de vontade. Ainda sabendo de cor tua voz, teus silêncios, e as pequenas coisas que ninguém mais sabe.
Há uma crueldade discreta em partir querendo ficar. Em fechar a porta olhando para trás.
Fui embora devagar, quase como quem se perde de propósito.
A cada passo, deixava uma última chance sobre o caminho.
Porque partir, às vezes, é também uma pergunta.
E eu queria que você respondesse.
Queria ouvir teu coração atravessar a distância e dizer:
não vai.
Mas vieram apenas os ruídos da noite,
e então compreendi:
existem despedidas que acontecem muito antes de alguém partir.
E o que mais dói não é a falta que você vai me fazer.
É a falta que você já fazia enquanto eu ainda estava aqui.
A verdade é que eu não fui embora hoje.
Hoje apenas dei nome a uma distância que já existia havia muito tempo.
E então eu fui.
Não para te esquecer, nem para provar alguma coisa.
Fui porque me perdi de mim tentando encontrar espaço em tua vida.
E talvez essa seja a despedida mais triste:
não a de quem deixa de amar,
mas a de quem continua amando e, mesmo assim, precisa partir.
Porque às vezes a relação acaba primeiro.
E o amor, teimoso como sempre, fica um pouco mais.
Sentado na varanda da memória,
vendo o trem partir,
sem coragem de embarcar.
